Como você sabe que sabe?
19/08/2015

Como você sabe que sabe

  • Mas sabe, eu não sinto que sou querida lá no grupo.

  • Ah é, o que te faz saber disso?

  • Ah, não sei, o pessoal não fica falando com você sabe?

  • Sim.

  • Então, é isso.

  • E você fala com eles?

  • Também não né?

  • Porque?

  • Porque eles não falam comigo.

  • Hum, então se eles não falam é porque não te querem bem. Então, usando a sua lógica você não os quer bem.

  • Não, nada a ver!

  • Mas você não fala com eles.

  • Hum… é verdade…

  • Será que eles não falam com você porque são tímidos? Porque são “curitibocas”? Ou simplesmente porque você também não fala?

  • Pode ser…

  • Será que necessariamente eles não falarem com você tem que significar que não te querem bem?

  • Não… pensando assim não…

 

Dizer que a realidade é subjetiva não quer dizer que ela não possa ser conhecida. O que faz você saber que o real é real?

Esta pergunta parece estranha na primeira vez que nos fazemos ela. Nunca paramos para pensar no que nos faz saber daquilo que afirmamos saber. Muitas vezes, nossos problemas estão exatamente aí. O que nos acontece está ligado com a maneira pela qual vemos isso. Nossa percepção não é passiva, mas ativa. Isso significa que bloqueamos pedaços de informação e damos valor à outros. Estas preferências é o que, de fato, constitui a nossa percepção do mundo e, com isso, criamos a nossa realidade.

A questão é que a maneira pela qual nossas lentes estão ajustadas nem sempre está consciente para nós e tomamos nossas decisões com base naquilo que percebemos. Assim sendo podemos ter feito ajustes inadequados em nossas lentes e, com isto estar vendo demais, de menos, com distorções, de maneira opaca ou nebulosa. É quando nos perguntamos “como sabemos que sabemos disso” que começamos a perceber com que tipo de lente estamos vendo o mundo.

Os critérios que usamos para viver a experiência, nossas prioridades e com isso nos comportarmos no mundo. Como você sabe que é amado, por exemplo? Quais são os detalhes da sua experiência com alguém que te permitem dizer “sou amado”? São comportamentos, expectativas de comportamento que nos fazem perceber que alguém nos ama. Afinal de contas, nunca temos acesso direto às emoções de ninguém – nem das nossas às vezes.

Como você sabe que pode confiar em você? Quais são os detalhes do teu comportamento, da maneira pela qual você cria e segue as suas regras que te fazem sentir que pode confiar no seu próprio comportamento? Estes trechos tem a ver não apenas com a ação, mas com a congruência entre a ação e o pensamento, ou seja, se penso, ajo e sinto de uma mesma maneira. A convergência destes três elementos, em geral nos traz a sensação de confiança, pois atingimos nossos resultados e sabemos que eles tem a ver com a nossa moral.

Determinar “como sei que sei” é determinar todos estes critérios e perceber se eles estão convergindo ou divergindo da sua experiência de vida. Ou seja, se pretendo descansar, mas marco um final de semana cheio de atividades, não estou convergindo para aquilo que percebo como uma experiência de tranquilidade. Da mesma maneira as pessoas vivem suas vidas inteiras buscando algo, mas sem estar atento aos critérios que realmente são importantes para atingir estas metas.

Abraço

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Complexidade emocional
12/08/2015

varias emoções

  • Eu estou muito puto com ele.

  • Sei… me fale mais dessa raiva.

  • Cara… como que ele pode fazer isso?

  • Você esperava outra reação dele?

  • Lógico, nunca pensei que fosse fazer isso!

  • Está frustrado ou decepcionado com ele?

  • Sim!

  • O que veio primeiro: a raiva ou a decepção?

  • Hum… acho que a decepção.

  • Sentir isso influencia na sua amizade com ele?

  • Sim.

  • E como você se sente com isso?

  • Triste sabe? Tipo… nossa… foi muito ruim isso tudo. (chora)

 

Você sabe qual a diferença entre emoção e sentimento? Antonio Damásio nos diz – à grosso modo – que enquanto a emoção é algo que tem a ver com o movimento, com a ação, o sentimento é algo que tem a ver com a percepção. Enquanto uma nos coloca na ação a outra é a percepção desta ação.

Daí que quando percebemos colocamos nossas funções cognitivas para trabalhar e uma emoção pode dar origem não apenas a sentimentos, como também a outras emoções. É o que tentei descrever neste caso acima. A emoção de decepção gera a tristeza e gera a raiva. Ao mesmo tempo a pessoa sente estas emoções nela, uma após a outra e combinando sentimentos e emoções ao longo do tempo. Toda pessoa que passou por uma morte, desastre ou experiência de roubo, guerra ou até mesmo perda de patrimônio ou divórcio sabe que várias emoções podem ocorrer ao mesmo tempo.

A emoção está vinculada ao que pensamos e percebemos, ou seja, embora as emoções não são “puras”, elas tem uma relação profunda com como percebemos o mundo e nós mesmos. No exemplo acima, temos uma pessoa que tinha expectativas à respeito do comportamento do amigo. O que o amigo fez com ele só foi algo ruim por causa desta expectativa, a emoção de tristeza – de ter perdido algo, no caso a confiança – ocorreu em detrimento do fato do meu cliente sentir que não poderia mais confiar no amigo por causa daquilo que ele fez. E se as expectativas fossem diferentes?

Neste mesmo caso a raiva é uma emoção que surgiu por um outro fato: ele, no fundo não sabia e nem desejava dizer ao amigo que não queria mais relacionar-se com ele. Estes dois eventos dentro do meu cliente geraram um estado complexo: o amigo lhe causou um dano, manter a amizade poderia lhe trazer mais danos, ele não queria dizer que desejava afastar-se do amigo, portanto sua própria maneira de ser poderia lhe causar mais danos. Como esta era a única resposta que ele tinha no momento ele ficou ansioso em saber que poderia estar se causando mais danos e, daí, a raiva.

Aquilo que sentimos pode ser algo muito complexo como o exemplo mostra: a percepção de uma decepção torna-se tristeza e essa mesma tristeza desperta a raiva. Todas as emoções estão unidas frente à um mesmo evento e dizem de aspectos diferentes sobre este evento. Lidar com cada uma delas é importante para abraçar o evento como um todo e não apenas como parte. Além disso podemos ter emoções que nem sempre se manifestam claramente, surgem apenas como vontades “que não sabemos da onde vem”, ou que surgem depois do evento, mas estão relacionadas à ele.

Preste atenção naquilo que sente, você poderá encontrar muitas respostas aí.

Abraço

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Quando fugir prende
07/08/2015

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-Então Akim… estou meio preguiçoso.

  • Sei… o que está te incomodando?

  • Ah, um pouco de tudo na real…

  • Um pouco de tudo… o que é esse “tudo”?

  • Faculdade, namoro…

  • Reduziu bem já não é?

  • É… ah, sei lá…

  • Você está preguiçoso ou simplesmente não quer lidar com o que está acontecendo?

  • É… meio que a segunda sabe?

 

Fugir ou esquivar-se de uma situação são duas das várias respostas que nós podemos dar à um evento que nos é desagradável ou pode nos causar dano de alguma forma. Porém a fuga e esquiva nem sempre são uma boa solução, você sabe quando esquivar-se e fugir de uma situação pode ser prejudicial para você?

Quando fugir é importante? Quando percebemos que a situação está além do que podemos responder e irá nos prejudicar. Neste caso pode ser uma opção mais sábia dar um passo para trás do que tentar enfrentar uma situação desprovido de recursos. Como diz o dito militar romano: “o bom general sabe quando lutar e quando se retirar”. Esta estratégia, no entanto, vem com um adendo: a necessidade do aprendizado. Fugir ou esquivar uma situação nos mostra que, naquele momento, não sabíamos o que fazer, portanto, é necessária que a retirada seja estratégica, para agrupar novos comportamentos e aprendizados e retornar à “batalha”.

O problema que temos é que as pessoas tendem a fugir e assumem isso como um comportamento padrão. Frente àquilo que é “perigoso” ou à situações que “exigem” aprendizado a pessoa tende, cada vez mais a se esquivar, postergar e fugir. O problema com isso é que ela não aprende, mantém-se sempre no mesmo patamar de aprendizado emocional e comportamental o que acaba levando-a para um fim triste: o isolamento.

Fazendo um paralelo com o título deste post, é neste momento em que a fuga aprisiona. Fugir é um comportamento importante de se ter na manga, porém abusar dele  faz com que a pessoa fique estagnada e tenda a ficar rígida em seu padrão de funcionamento. Isso é problemático porque vivemos num mundo que se move, que muda diariamente e, fatalmente, a pessoa começará a ter perdas desnecessárias. Porque desnecessárias? Porque ela só perde pelo fato de não ter aprendido novos comportamentos para lidar com o mundo e está tendo perdas por causa disso.

Que tal um exemplo mais claro?

Uma pessoa que é, na adolescência, muito famosa na escola por ter uma pseudo auto estima demonstrada na forma de comportamentos rebeldes. Neste momento ela é admirada e desejada, tem status e um lugar de reconhecimento. Porém, quando cresce, mantém-se neste padrão. Não “atualiza” a sua forma de agir e tenta manter-se no mundo da mesma maneira. A pseudo auto estima é, na verdade o propulsor desse comportamento rebelde. O que a rebeldia esconde é uma pessoa com medo de falhar e que, por isso, questiona demais tudo e todos. Torna-se um adulto inoportuno e chato. Ao invés da pessoa assumir seu medo de falhar, ela mantém-se fugindo de  seus fantasmas através do comportamento rebelde, porém, ele tem vida curta e num nicho muito específico. Ocorre que, para sobreviver, ele precisa viver sempre buscando nichos e pessoas que ainda estão na mesma fase evolutiva que ele, à medida que elas crescem, abandonam-no e ele precisa, novamente, correr atrás. Este é um exemplo de como uma fuga pode aprisionar a pessoa, para sempre às vezes, num comportamento que não é útil ao seu crescimento.

Abraço

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Planejo e não faço…
03/08/2015

Planejo e não faço

 

  • Então Akim… não fiz ainda…

  • O que você ainda não fez do seu plano?

  • Nada.

  • Hum… o que aconteceu?

  • Na hora olhei para aquilo e pensei… ah, não deve ser pra mim isso.

  • Ah é? E o que, em você, não te permite “ser para isso”?

  • Não sei… eu me senti envergonhado de querer essa promoção.

  • Qual o motivo para vergonha de querer isso?

  • Não sei… é tipo: “vocêeeee quer isso?”

  • Sim, entendi… parece que você está se dando um limite: promoções não são para você. Perfeito, porém o que te coloca do lado de lá do círculo dos que merecem uma promoção?

  • Me vem a voz do meu pai na cabeça me dizendo que eu não sou bom o suficiente.

 

 

Em geral tenho observado alguns comportamentos comuns em pessoas que planejam mas não executam seus planejamentos. Um deles é uma motivação inadequada que não mexe com a vontade da pessoa em executar suas tarefas, outra é uma incapacidade de perceber uma relação causal entre o comportamento dela e a concretização dos planos e uma última é a percepção do futuro desejado como algo irreal.

A motivação inadequada surge quando a pessoa não encaixa o plano que criou no seu estilo motivacional. Cada um de nós tem uma maneira própria de evocar a motivação para executar planos e desejos, no entanto, muitas vezes os objetivos são de uma natureza contrária a da motivação. Para dar um exemplo, o estilo motivacional da pessoa pode ser de afastamento de coisas ruins, ou seja, ela se motiva à ação quando precisa afastar-se da possibilidade de algo nocivo à ela.

Desta forma, pode trabalhar para não ficar sem água ou luz em casa. Pode cuidar da saúde após ter uma doença, ou seja cuida da saúde não para adquirir mais saúde e sim para evitar uma doença. Quando em estilo como este se depara com um objetivo que vá exigir o seu esforço em prol de algo que vai lhe trazer algo bom, mas não causará dano é comum que a pessoa emperre. Por exemplo, não é um estilo motivacional bom para pensar em algo como conseguir uma promoção. Porque? Porque a promoção envolve buscar algo positivo que é o contrário. Adequar o estilo motivacional, numa situação como esse seria algo como: “se eu não conseguir esta promoção posso perder a chance de subir na empresa e eu não quero ficar o resto da vida neste cargo, isso seria horrível”. “Conseguir a promoção” se torna “não ficar mais neste cargo horrível o resto da vida” e, com este discurso a pessoa consegue motivar-se. Obviamente o estilo motivacional não é fixo e pode ser aprendido também.

A incapacidade de perceber uma ligação entre o comportamento e as consequências dele é algo que tem se tornado cada vez mais comum. Parece simples compreender que quando tenho um comportamento ele terá uma consequência e essa é o que me interessa. Porém, por diversos fatores as pessoas não fazem esta ligação e, então, a ideia de comportar-se para atingir um determinado objetivo parece insossa, afinal de contas “para que me mexer se não sei se isso terá algum efeito?”. Este último é o discurso padrão quando a pessoa não tem a relação bem estabelecida.

É muito comum que pessoas com este comportamento sejam colecionadores de fracassos e arrependimentos. O que é importante fazer neste caso é ligar a ação que elas tiveram no passado com os resultados que obtiveram. Este exercício pode ajudar a pessoa a estabelecer uma ligação e, a partir disso já ter delineado o tipo de comportamento que elas não querem. A partir disso pode-se inferir sobre o tipo de comportamento que levaria elas à execução dos planos e aos resultados que isso lhe traria. Quando se junta este elemento com a motivação adequada temos um bom propulsor para execução das tarefas e desejos.

Por fim, quando a pessoa faz um plano, um bom plano diga-se de passagem, ela cria para si o que chamamos de futuro propulsor. Este é aquela visão de um futuro no qual atingi meus objetivos e, neste cenário, sinto-me bem. Porém este futuro, por melhor que seja, nem sempre é visualizado como “possível” ou como “real” pelas pessoas. Os dois problemas acima podem ser a fonte deste terceiro, ou seja o futuro criado pode ser ótimo, mas não mexe na motivação da pessoa, logo ela o vê como irreal ou, então, ela percebe o futuro como desejado, mas não faz ligação entre o seu comportamento e a criação deste futuro, ele parece-lhe, assim, inalcançável.

Porém, algumas pessoas estão com ambos elementos bem organizados e ainda assim não vão atrás do plano, o futuro ainda parece irreal. É o caso de começar questionando-se se você merece este futuro. Neste último caso as pessoas não caminham em direção ao futuro desejado porque não sentem-se merecedoras, é uma questão de auto estima, na qual a pessoa não se vê como alguém digno de um futuro como esse. Fácil imaginar que as causas podem ser várias, mas é importante, em todas elas questionar a crença no não-merecimento, ou seja: o que faz com que você não seja digno? Este “não merecer” é uma punição ou um limite imposto? Determinar isso ajuda a libertar-se e construir o merecimento que basicamente é a ligação entre comportar-se e conseguir o que se quer.

Um último adendo é que muitas pessoas simplesmente não conseguem porque não agem. Agir é importante porque um bom plano é apenas isso, um bom plano. Então, se você já planejou, aja ou então seu plano será apenas mais uma bela história que você não viveu.

Abraço

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Raiva do terapeuta
29/07/2015

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  • Então é isso!

  • É isso?… Bem, vamos tomar um café e ir embora então? Porque estamos no começo da sessão (risos).

  • Ah é! (risos)… eu não tenho mais nada que eu queira falar sabe?

  • Sim… mas tem algo que você está sentindo… isso posso dizer.

  • Tem… mas não quero falar disso agora.

  • Se eu palpitar certo você fala?

  • Falo…

  • Vou falar assim: não tem problema isso que você está sentindo em relação à mim, pode sentir e pode falar o que você quiser… eu aguento, não vou te julgar por sentir isso, vou ajudar você com esta emoção.

(Silêncio)

  • Eu tô com raiva de você! É isso! Pronto, falei!

  • Ótimo! Me conte o que aconteceu?!

  • É que eu to com raiva porque você fica falando de mim… e me elogia… e me incomoda isso!

  • Eu imagino… que bom que você pode falar da tua raiva, de que maneira falar de ti ou eu te elogiar é agressivo?

  • Eu não sei o que você quer com isso! Porque você me elogia?

  • Quando vejo que uma pessoa tem uma atitude digna de ser elogiada eu o faço.

  • Mas eu tô fazendo algo assim!?

  • Sim, vez ou outra você faz e então elogio o seu comportamento.

  • E você faz isso com todo mundo?

  • Sim, aqui no consultório e na minha vida pessoal também. Não faço bajulação, apenas elogio.

  • Entendi…

  • Que tal trabalharmos melhor com esta raiva e essa dificuldade de falar de si e de ser elogiada?

  • Acho bom.

  • Eu também…

 

A raiva é uma emoção que tem a ver com a sensação de impotência e ameaça. Junte estes dois elementos e terá a raiva. Para que ela serve? Para mobilizar força e foco para lutar ou fugir. A raiva, em si, não é boa ou má, o que fazemos com ela pode se tornar útil ou improdutivo para nós.

Na terapia muitas emoções surgem naquilo que chamamos de “relação terapêutica”. É comum sentir amor, raiva, cumplicidade, amizade, ternura e nojo do seu próprio terapeuta. Todas as emoções que vivemos com outros humanos podemos reproduzir na relação com o nosso terapeuta, pelo simples fato de ele ser, também – e incrivelmente, apenas um humano.

Quando a  emoção da raiva aparece na relação terapêutica é importante que a pessoa consiga comunicar isso. A raiva pode se manifestar por vários motivos, um deles, inclusive significa que a terapia está dando certo. Porque? Porque muitas vezes o processo terapêutico mexe em nossas feridas e incompetências, nossas deficiências – sim você, eu e todo ser humano possui alguma em algum nível. Essa percepção pode ser consciente ou inconsciente, ou seja a pessoa pode estar consciente de que está sentindo raiva ou não, mas ela está lá.

Frente à percepção disso é um mecanismo de defesa comum a projeção de culpa. Assim a pessoa pode ficar braba com seu terapeuta por que na relação com ele, ela descobriu incompetências suas que ela própria não gosta de lidar. Se a raiva não é manifesta é comum que a pessoa termine por abandonar o tratamento porque irá sentir-se mal durante as sessões ou pode até mesmo sentir-se exposta ou até mesmo cobrada pelo terapeuta.

Esta maneira de responder provavelmente é a mesma que ela usa em sua vida diária com todas as pessoas ou uma reação específica ao terapeuta em quem ela deposita muita confiança. Neste último caso a pessoa pode sentir-se “traída” pelo terapeuta ao sentir que ele percebeu suas deficiências ou até mesmo sentir-se ameaçada pelo fato de ele pode descartá-la pelo fato de não ser “perfeita”. A raiva na terapia é sempre um bom sinal porque nos ajuda a perceber onde temos que trabalhar. Assim, explorar a raiva deverá sempre ser um motivo de aprendizado para a pessoa assim como para o terapeuta. Aprenda a falar sobre sua raiva para compreendê-la. A relação com o terapeuta e com a terapia só tem a ganhar quando a pessoa abre suas emoções.

Com raiva?  Explore-a! Aprenda! Transforme-se!

Abraço

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Horários
27/07/2015

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  • Não sei mais Akim… tô muito perdido sabe?

  • Sim, entendo.

  • Está difícil para eu me manter nos meus horários, esqueço uma coisa, chego atrasado em outras…

  • Sim… o que tem a ver com você isso?

  • O que?

  • A dificuldade para determinar teus horários tem tudo a ver com você nesse momento.

  • Hum… não sei direito… eu também não estou muito feliz ultimamente.

  • Sim. Não sei, mas me parece que estes “atrasos” querem dizer algo sobre as atividades que você está fazendo.

  • Pode ser… não sei direito se quero fazer o que estou fazendo.

  • Imagino… quais as tuas prioridades neste momento?

 

Administrar o tempo, ao contrário do que se diz e se pensa é muito mais do administrar um conjunto de horas dentro de um dia. Tem a ver com a sua pessoa e o seu estilo de vida. A pergunta que sempre faço é: o que te motiva a usar teu tempo – que é limitado – nisso que você escolhe?

O tempo que temos é finito e não sabemos exatamente quando ira acabar. Isso faz dele algo único, o tempo de hoje não pode ser mais usado amanhã. Desta maneira quando escolhemos usar o tempo para determinadas atividades estamos, com isso, moldando a nossa vida de uma determinada maneira. Atrasos, como no caso acima podem ser uma indefinição à respeito do que fazer com o tempo ou da maneira pela qual a pessoa lida com suas escolhas.

Assim “atrasar-se” não é apenas uma questão de acaso, mas de estilo de vida. Porque sempre postergo aquilo que escolho, ao invés de resolver as coisas “na hora” é uma pergunta válida, por exemplo. Atrasar, neste aspecto, é uma escolha que deixo um pouco para depois – vale lembrar que neste posto falo sobre o comportamento de quem se atrasa sempre e não de um ou outro atraso ocasional.

Em terapia já atendi muitas pessoas que dizem: “mas não consigo chegar no horário, meu trabalho me prende”. Torna-se evidente logo mais que essas pessoas sempre deixam as suas escolhas pessoais para depois também, colocam-se em segundo plano em tudo. Assim, não tiram férias por causa dos filhos, não fazem seu lazer por causa da mulher – ou do marido, e não chegam no horário por causa do trabalho. O que eles estão realmente dizendo é que preferem deixar o tempo reservado para suas escolhas com outras pessoas e tarefas. “Se você esperar o mundo dar tempo para fazer o que quer, vai esperar sentado”.

Assim o uso que damos ao tempo está intimamente ligado à nossa personalidade e à maneira pela qual lidamos com nossas atividades e escolhas. É importante ver quais as prioridades que temos na vida e saber que a não ser que criemos a brecha na qual iremos fazer nossas atividades, o mundo irá sempre nos trazer demandas. Criar esta brecha e escolher usar o seu tempo para algo que você deseja significa não fazer outras coisas, por esta razão é que é importante que suas prioridades estejam bem organizadas, se não estiverem, vale usar um pouco de tempo para fazer isso.

E aí, que horas você vai viver a sua vida?

Abraço

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Problemas que ocultam problemas
24/07/2015

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– Mas ela não me deixa em paz sabe?

– Sim… sei como é.

– Então! Eu já conversei com ela, mas ela não muda!!

– Eu sei… e foi você quem escolheu ela… porque será né?

– Não sei!

– O que você faria se escolhesse uma mulher que sabe o que quer. Independente…

– Seria bem melhor!

-… que é como você: sai quando quer, não fica dando satisfação…

– (silêncio) é… me parece meio estranho pensando assim…

 

Algo que impressiona quando lidamos com humanos é a nossa capacidade de gerar problemas. Problemas que ocultam problemas é uma variante muito interessante deste comportamento.

Em relacionamentos é algo muito comum que um dos conjugues tenha um problema qualquer, por exemplo, baixa auto-estima, que aprender a lidar nas relações com outras pessoas usando o outro não para resolver o seu problema, mas sim para mascarar o seu problema. É fácil não lidar com uma questão pessoal quando temos outros afazeres, ou quando achamos que temos outros afazeres.

Neste caso, por exemplo, a pessoa pode na sua maneira de se comportar projetar um comportamento muito seguro e forte, por exemplo, e com isso estar sempre cobrando o outro, dizendo-lhe o quanto ele é preguiçoso, devagar, que ele deveria cuidar melhor de sua vida. O outro acaba sentindo-se muito para baixo e tem medo de perder o seu amado. Com isso pode, por exemplo, ter crises de ciúmes o que o obriga o conjugue a ter que lidar com este problema.

Uma outra forma é a pessoa que é muito forte, porém sente medo de sua força ou culpa por ser assim. Dessa forma vive se colocando em situações de apuros ou tendo comportamentos inadequados. Relaciona-se com uma outra pessoa que ou gosta de cuidar, ou acha que deve ajudar uma pessoa inadequada ou é mandona. Nesta relação a pessoa forte começa a achar que está sendo sufocada pelo outro que está sempre no seu pé.

Em um caso ou em outro o efeito é o mesmo: um problema que surge (no primeiro caso os ataques de ciúmes e no segundo caso o “sufoco”) são problemas criados por uma dinâmica e não um problema “de fato”. Este problema serve para mascarar e evitar que um – ou ambos – dos conjugues entre em contato com uma questão pessoal e assim, tenha que dar conta dela.

O que geralmente ocorre é que o conjugue problemático acaba indo à terapia e faz um processo de evolução pessoal. Neste processo aprende a lidar com o conjugue de uma maneira diferente, deixando-o livre para ser responsável por si só. Quando isso ocorre a relação entra em crise e a pessoa que se esconde atrás dos problemas pode, enfim aprender com eles.

Obviamente exige coragem sair do lugar de “poderoso” para ir ao lugar de “problemático” – é assim que boa parte das pessoas encaram pelo menos. Mas quando percebem que não estão fazendo esta inversão de papeis, mas sim dando conta de uma questão pessoal importante, etas pessoas aprendem que podem, então, serem ainda mais felizes.

E você? Anda escondendo-se atrás de algo?

Abraço

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Os erros do passado
22/07/2015

 

Erros do passado

  • Mas então… eu sei que não vai dar certo.

  • Porque não?

  • Porque eu já tentei e não consegui antes.

  • Entendi.

  • Daí, melhor ficar de fora né?

  • Se a tua conclusão é de que o erro do passado irá necessariamente se repetir, sim.

  • E não vai?

  • Não sei… o que você aprendeu quando errou no seu passado?

  • Nada ué… só fiquei triste.

  • Então é provável que vá se repetir. Agora… porque você não aprende com o que fez ao invés de se tornar vítima do seu erro?

  • Como assim?

 

É muito comum que as pessoas tentem realizar algo e não consigam, errem, não tenham 100% de desempenho. Também é comum na nossa cultura que isso seja entendido como um fracasso e um sinal de que é melhor você ficar longe daquilo porque pode lhe trazer problemas. O erro do passado se torna, então, destino futuro. A marca indelével do seu fracasso e o atestado da sua incompetência. inclusive muitas pessoas lutam anos a fio com estas cenas tentando deletar da memória aqueles momentos de tristeza e vergonha.

O que é um erro? O erro é um comportamento que não atingiu o resultado previsto. Como diz o ditado apenas erra quem está tentando, quem deseja conseguir ou aprender algo. Assim sendo, o erro representa, também, a tentativa da pessoa em conseguir algo que almeja. O erro pode ser, também, uma fase de um aprendizado ou adequação frente à uma situação/ aprendizagem que a pessoa não tem.

Encarar o erro como uma fase do aprendizado é o que fazem os grandes cientistas e inventores. Eles não pensam em erro nos mesmos termos que nós. Reconhecem o erro, mas valorizam este evento como mais uma marca importante do seu aprendizado. Eles ignoram o ato de desistir frente ao erro e reconhecem a importância de refletir sobre o que fizeram afim de modificarem a próxima tentativa com mais sabedoria.

E é este o ponto que eu gostaria de trazer no post de hoje. O mais importante com um erro depois que ele ocorre é o como tratamos este erro. Se o colocamos na esfera moral e passamos a nos tratar como incompetentes que não merecem uma segunda chance ele se torna restritivo da nossa evolução, passamos a temer o erro porque ele significa portas fechadas sempre. Se, por outro lado, não nos enfraquecemos e buscamos no erro o próximo passo, estaremos aprendendo a criar auto confiança (sim, ela existe mesmo no erro) e a gerar novos aprendizados a partir da nossa experiência, o que se chama por aí de auto conhecimento.

Assim sendo, se você tem um erro que o impede ainda hoje de tentar algo novamente e você deseja tentar, faça o seguinte. Relembre a cena do erro, o contexto no qual você estava vivendo e quem você era naquela situação. Pense em tudo o que você fez buscando compreender o que fez com que você tivesse errado e não chego no resultado desejado. Depois, pense no que poderia ter feito para garantir um novo resultado, pense em várias situações possíveis, pelo menos três estratégias diferentes. Se não sabe, pergunte à alguém que saiba como fazer, alguém que já passou pela experiência e se deu bem.

Imagine-se fazendo “a coisa certa” com vários comportamentos à disposição, no caso da opção A não dar certo. Faça isso até sentir que “aprendeu” com o seu erro. Uma vez que isso tenha acontecido, imagine-se no futuro tentado realizar a mesma coisa novamente, agora de posse destes novos aprendizados. Veja como se sente. Vale a pena tentar de novo?

Óbvio, estas dicas não devem ser utilizadas em casos de erros que podem colocar sua vida em risco, ou que podem ser potencialmente danosos. São linhas gerais de comportamento que as pessoas usam para aprender com seus problemas, use estas ideias com parcimônia e busque auxilio e um profissional caso sinta que isso é necessário.

Abraço

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Me encontrar
20/07/2015

se encontrar

  • Mas Akim… como que eu vou saber o que fazer se nem sei quem sou?

  • Qual o problema?

  • Esse! Se não sei quem sou, não sei o quero não é lógico?

  • É. Porém… saber que não sabe quem é implica em saber quem se é.

  • Como?

  • Para você saber que não sabe quem é você precisa ter um modelo de quem você é para comparar o modelo com quem você é hoje e afirmar: isto não sou eu.

  • Hum…

  • Em outras palavras: como você sabe que não sabe quem é?

  • Eu deveria ser mais… sei lá… corajoso.

  • Então você é covarde ou está com medo?

  • Sim.

  • E você sabe disso? Reconhece isso aí na sua experiência?

  • Sim.

  • Ótimo, você é isso! Agora sabe “quem” é: neste momento, a experiência do medo.

  • Que louco isso…

 

Se encontrar. Este parece ser um grande desejo das pessoas hoje em dia. “Ser eu mesmo”. Porém, como fazê-lo? Talvez o primeiro passo seja pensando de uma maneira útil na questão.

Quando pensamos em “nos encontrar” temos que compreender que o nosso “eu” já está aí, pronto em algum lugar apenas esperando para ser descoberto. Uma maneira muito cartesiana de refletir, inclusive. A verdade (ou o “eu”) está na natureza, apenas precisamos capturar isso, compreender isso e tudo estará resolvido. O problema que surge, então é: procurar aonde?

As pessoas, com isso vão atrás das respostas disponíveis. Em nossa cultura, o consumo é a grande resposta e hoje ele aparece transvestido de várias maneiras: o consumo de amigos, de relações, de festas assim como o clássico consumo de produtos em sua grande infinidade. Outras pessoas aparentemente com um pouco mais de consciência buscam psicoterapia ou outras formas de auto descoberta. No entanto, muitas delas continuam com o paradigma de se encontrar em algum lugar (talvez, neste workshop, eu consiga). Ledo engano.

O problema é que o “eu” que buscamos não pode ser encontrado por estas vias. Em primeiro lugar porque o “eu” não é uma coisa, ele não é uma substância que pode ser encontrada em algum lugar assim como encontramos as chaves do carro que esquecemos na cômoda. Assim sendo o “eu” não está em algum lugar, muito menos ele está “pronto” e esperando por ser descoberto por nós. O que seria até um certo contra-senso: como eu posso me achar em algum lugar se não sei quem sou? (Sei o que minhas chaves do carro são, por isso posso encontrá-las, mas como não sei quem sou, como vou me achar em algum lugar – mesmo que o eu pudesse ser encontrado eu não o veria)

Para resolver o problema talvez tenhamos que voltar ao oráculo de Delfos para compreender a questão do “eu” de uma maneira mais útil. “Conhece-te a ti mesmo” diz o oráculo. Ora, embora o conselho pareça óbvio, ele se torna mais enigmático à medida em que adentramos na sua elaboração. Conhece-te a ti mesmo tem uma implicação um tanto desconfortável para nós ocidentais. Implica que não somos um “eu” inteiro, ou seja, temos um eu que “é” e um que o “conhece”. Como?

Para que eu conheça algo é preciso observar este algo, compreender de alguma maneira. Mesmo que isso se dê na relação, a relação implica dois seres. Assim sendo o eu que “conhece” é diferente do eu que é conhecido. Quando o oráculo diz “conhece-te a ti mesmo” ele está dizendo que o “eu” que manifestamos é apenas mais uma experiência e não “a” experiência, como gostamos de achar no ocidente. Se conhecer está, então envolvido em experimentar aquilo que dizemos que somos e compôr um conhecimento sobre esta experiência. Saber que esta experiência é apenas mais uma é, por fim, a grande sacada à respeito do ato de “se encontrar”.

De outra forma: quando pequeno experimentava quem sou através das brincadeiras com outras crianças, por exemplo. Quando adulto posso seguir a mesma linha e me perceber no convívio com outras pessoas em bares e festas. No entanto, também posso experimentar quem sou no meu trabalho. O encontro com o “eu” se dá quando se percebe que o “eu” é a experiência e não uma coisa ou entidade. Se encontrar, então, tem muito mais à ver com experimentar aquilo que acho que sou, compreender o que e como vivi isso e, com base nesta experiência e na compreensão extraída dela, decidir o que se continuará fazendo.

Nós temos a tendência de nos identificar com as nossas experiências e dizermos que somos elas. Isto leva à um engessamento que pode ser proveitoso para algumas coisas e prejudicial quando as situações requerem comportamentos novos. Quando é possível ampliar ou modificar o que chamamos de eu, podemos ter uma compreensão ainda maior do que “somos”, ou seja, do processo que usamos para dar à nós uma identidade capaz de ser concretizada no mundo.

Mas enfim, como se encontrar? Preste atenção à sua experiência. Ao que já ocorre com você, em você, ao como você sente, pensa e age. Isso é a experiência que você se permite ter daquilo que você considera ser você. O encontro está exatamente aí. Não em algo externo, e acabado, mas em algo interno e em constante processo de “vir-a-ser”.

Abraço

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