Ganhar ou perder
26/08/2014

Competição

  • Não sei mais se estou afim dela Akim.

  • Ah é? O que aconteceu?

  • Ah… ela começou a querer dar uma de mandona.

  • Como assim?

  • Agora tá de querer mandar nos programas sabe? De ficar arranjando programação para o final de semana e tudo o mais.

  • Hum… e qual o problema com isso?

  • Ah, que eu não sei se vou querer oras! Ela fica mandando em tudo!

  • O que você não quer é fazer a programação ou “ser mandado” por ela?

  • Hum… acho que o segundo.

  • Então porque não para de competir com ela?

  • Como assim?

  • Ué, alguém planejar o final de semana é igual e alguém querer mandar em você? Ou é como você está interpretando isso?

  • Hum…

 

A noção de competição é tão arraigada em nossas mentes que nem sequer percebemos mais aquilo que há de mais importante no jogo: o jogar.

Você, caro leitor, como bom ocidental pós-moderno vai, com certa razão, retrucar dizendo: “é, fique aí curtindo o “jogar” que eu vou lá ganhar o prêmio e, depois eu jogo”. Eu até concordaria com você, mas o problema é que não é o que vejo na minha prática clínica. O que vejo é que depois que se vence um jogo, deseja-se vencer o próximo e o próximo.

O problema é que a palavra “jogo” é muito ampla. Dependendo da maneira pela qual sua mente esteja aberta você pode ver jogos em todas as situações, desde uma concorrência empresarial, numa conversa de bar, ao paquerar e seduzir uma pessoa e até mesmo ao fazer um jantar. O jogar pode ser visto onde quer que exista uma relação entre dois seres humanos… e se houver apenas um lembre-se: você conversa com você mesmo, logo o jogo também existe dentro de você.

O problema surge – a meu ver – quando esta noção de “ganhar” é tão forte – e, em geral, tão inconsciente – que a pessoa nem sequer mais percebe que está sendo competitiva. Ela quer sempre estar com a razão, quer sempre “ganhar” de alguma forma e torna tudo uma competição, quando sabe que não tem como ganhar ela aprende a denegrir a vitória alheia, ou a não prestar atenção à ela. A verdade é que quem ganha muito torna-se chato.

Porque?

“Evolutivamente” falando o jogo vem da brincadeira. A brincadeira é algo voltado para o prazer e para o uso das habilidades, não envolve regras e nem sequer a noção de vitória ou derrota. A brincadeira dá base para a sensação de prazer, de divertimento e é neste universo que a pessoa se descobre. Ela também dá as bases para o jogo que seria uma espécie de brincar elaborado, brincar com algumas regras.

O jogo, assim sendo, possui uma base no prazer, ou seja, quando deixa de ser prazeroso ele torna-se chato e perde uma função importante: criar laços. Existem vários tipos de jogos e o jogo competitivo é apenas um deles. Existem jogos colaborativos, cooperativos nos quais as partes envolvidas se ajudam mutuamente em prol de um fim em comum. No entanto, quando temos uma pessoa competitiva ela quer sempre tornar o jogo uma competição, mesmo que o jogo não seja este. Ela torna-se “chata” pois o seu universo é o único que ela leva em consideração, sua capacidade de entrar em contato com o outro é mínima e isso acaba com o prazer do jogo, que é a base de tudo, a base dos vínculos.

Existem momentos em que ser competitivo e buscar a vitória é importante, nunca retiro a importância disso. Lutar por aquilo que queremos e precisamos é fundamental e faz parte do desenvolvimento humano. No entanto, o problema surge quando o aspecto humano da relação é retirado de cena. Porque trato disso como um problema? Porque de certa forma mesmo numa competição o outro é importante, a relação é o que dá o prazer e quando não existe mais este outro o jogo termina.

Quando esta noção vai para o jogo das relações afetivas é que fica evidente o quão prejudicial a competição pode ser, pois é muito fácil tornar uma relação numa disputa, numa competição para ver “quem ganha”. Ganha o que? Ninguém sabe ao certo, mas a sensação de vitória é o que se busca, mesmo que isso signifique a destruição da relação em si. Quando um sente que precisa estar por cima para sentir-se seguro, por exemplo, ou porque “este é o lugar do homem/mulher”, a coisa já está num caminho obscuro. Restará lugar ao prazer? Restará lugar à intimidade? E se isso significar “abrir a guarda”, “abrir mão da estratégia”, você conseguirá?

Ao longo destes 10 anos já vi muitos casais, pessoas e famílias jogando este tipo de jogo. O que nunca vi foi este tipo de jogo rendendo algo positivo em relação à intimidade, bem-estar e felicidade destas pessoas – não à toa buscaram terapia, talvez para aprenderem um jogo novo. Abrir mão da competição não significa abrir mão do que é importante para você. Este é “jogo novo” que eu sempre proponho, mas sim que você pode buscar aquilo que te é importante de várias formas e não apenas subjugando o outro à sua vontade. E é aí que vejo, aos poucos, nos tropeços e reflexões as pessoas aprendendo realmente à jogar e se divertir com o universo das relações.

A abertura para tal é a parte mais difícil porque significa realmente abrir mão de anos de condicionamento que te levam a querer só a vitória para uma outra maneira de pensar que inclui a vitória e o jogo e o prazer e o outro. Abrir-se para isso significa aprender novos métodos de brincar e de jogar no mundo ao invés da boa e velha defesa estratégica que todos nós temos montadas dentro de nós. Significa ousar e improvisar, buscar além do nosso repertório padrão, inverter as regras, crias novas, ter hábitos e comportamentos diferentes, perder, ganhar, empatar e depois de um tempo, parar de dar tanta importância para isso.

Depois disso as pessoas passam a dar importância e valor para o jogo que ocorre entre elas. Abrir mão, fazer coisas diferentes, abrir-se para o outro tornam-se ferramentas para tornar o jogo ainda mais interessante. Realmente estar interessado no outro e na interação com esta pessoa ao invés de torná-la aquilo que você quer que ela seja se tornam partes fundamentais da interação e o respeito pelo outro e sua experiência começam a despontar. E isso tudo incluindo quem você é, afinal de contas, você é, também, um “outro”.

 

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