Velhos temas, novas descobertas
17/08/2015

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  • Mas Akim… de novo isso!?

  • Sim… de novo…

  • Eu não aguento mais voltar para o tema da insegurança.

  • Eu entendo, porém é ele que sempre se apresenta. O que você tem refletido e feito de fato sobre este tema?

  • Na verdade… sei lá… eu prefiro evitar… já entendi que é isso sabe?

  • Sim, porém entender é uma parte, agora, mudar é a que realmente faz diferença.

  • É… bem… eu sei… mas é difícil

  • Fale mais sobre isso

 

Um fenômeno comum em terapia é as pessoas sempre voltarem à um determinado tema. A maior parte das pessoas acham que a terapia não está indo adiante quando percebem isso, esperam que tenham cada vez mais temas e temas diferentes. No entanto, nada poderia ser mais distante da verdade. Quando a pessoa percebe que está rodando em torno de um tema, em geral, isso significa que ela está tocando o cerne do problema estrutural que a trouxe à terapia.

Em outros posts já falei que nossas questões possuem “níveis”, ou seja, uma tristeza, pode ser apenas o sintoma de um outro problema mais profundo. Assim, quando, no processo a pessoa começa a chegar sempre no mesmo ponto, isso pode significar que ela está em níveis mais profundos daquilo que ela acha que é o problema. Com isso quero dizer que boa parte de nós quando entramos em terapia temos um foco do problema, percebemos o sintoma, porém não sabemos identificar ainda a dinâmica que gera este tipo de sintoma.

Perceber que você está rondando o mesmo tema é um indicativo de que a ansiedade diminuiu e que todos os temas levam ao mesmo lugar, ou seja, à dinâmica psíquica que gera a problemática. Ao invés de achar que sua terapia não está dando certo tente perceber o que faz com que todos estes temas estejam ligados. Buscar pelos elos entre os temas que o levam ao mesmo lugar é uma das maneiras de conseguir compreender a dinâmica.

Quando digo “dinâmica”, o que quero dizer é que nossa vida emocional não é um circuito fechado no qual apertamos um botão e uma luz se acende. É mais parecido com um computador em que todas as áreas estão ligadas umas às outras e compartilham de uma história que é vivida no dia a dia. Assim sendo elementos do seu passado assim como expectativas do seu futuro interferem no seu presente afetando, por exemplo, a sua motivação, mas isso pode interferir em outras áreas como o seu relacionamento. A vivência diária dessa maneira de lidar consigo mesmo cria “dinâmicas”, ou “jeitões de ser e de pensar” que se repetem e fazem com que a pessoa tenha sempre uma vida muito parecida.

Compreender esta dinâmica é o fundamento de terapias mais “profundas” ou seja, de níveis distintos. Ela é o gerador de novos hábitos e comportamentos. Ao compreendê-la, compreendemos, também a origem de nossos comportamentos e pensamentos assim como a chave para conseguir mudar e até especificar exatamente aquilo que desejamos realmente mudar.

Abraço

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Complexidade emocional
12/08/2015

varias emoções

  • Eu estou muito puto com ele.

  • Sei… me fale mais dessa raiva.

  • Cara… como que ele pode fazer isso?

  • Você esperava outra reação dele?

  • Lógico, nunca pensei que fosse fazer isso!

  • Está frustrado ou decepcionado com ele?

  • Sim!

  • O que veio primeiro: a raiva ou a decepção?

  • Hum… acho que a decepção.

  • Sentir isso influencia na sua amizade com ele?

  • Sim.

  • E como você se sente com isso?

  • Triste sabe? Tipo… nossa… foi muito ruim isso tudo. (chora)

 

Você sabe qual a diferença entre emoção e sentimento? Antonio Damásio nos diz – à grosso modo – que enquanto a emoção é algo que tem a ver com o movimento, com a ação, o sentimento é algo que tem a ver com a percepção. Enquanto uma nos coloca na ação a outra é a percepção desta ação.

Daí que quando percebemos colocamos nossas funções cognitivas para trabalhar e uma emoção pode dar origem não apenas a sentimentos, como também a outras emoções. É o que tentei descrever neste caso acima. A emoção de decepção gera a tristeza e gera a raiva. Ao mesmo tempo a pessoa sente estas emoções nela, uma após a outra e combinando sentimentos e emoções ao longo do tempo. Toda pessoa que passou por uma morte, desastre ou experiência de roubo, guerra ou até mesmo perda de patrimônio ou divórcio sabe que várias emoções podem ocorrer ao mesmo tempo.

A emoção está vinculada ao que pensamos e percebemos, ou seja, embora as emoções não são “puras”, elas tem uma relação profunda com como percebemos o mundo e nós mesmos. No exemplo acima, temos uma pessoa que tinha expectativas à respeito do comportamento do amigo. O que o amigo fez com ele só foi algo ruim por causa desta expectativa, a emoção de tristeza – de ter perdido algo, no caso a confiança – ocorreu em detrimento do fato do meu cliente sentir que não poderia mais confiar no amigo por causa daquilo que ele fez. E se as expectativas fossem diferentes?

Neste mesmo caso a raiva é uma emoção que surgiu por um outro fato: ele, no fundo não sabia e nem desejava dizer ao amigo que não queria mais relacionar-se com ele. Estes dois eventos dentro do meu cliente geraram um estado complexo: o amigo lhe causou um dano, manter a amizade poderia lhe trazer mais danos, ele não queria dizer que desejava afastar-se do amigo, portanto sua própria maneira de ser poderia lhe causar mais danos. Como esta era a única resposta que ele tinha no momento ele ficou ansioso em saber que poderia estar se causando mais danos e, daí, a raiva.

Aquilo que sentimos pode ser algo muito complexo como o exemplo mostra: a percepção de uma decepção torna-se tristeza e essa mesma tristeza desperta a raiva. Todas as emoções estão unidas frente à um mesmo evento e dizem de aspectos diferentes sobre este evento. Lidar com cada uma delas é importante para abraçar o evento como um todo e não apenas como parte. Além disso podemos ter emoções que nem sempre se manifestam claramente, surgem apenas como vontades “que não sabemos da onde vem”, ou que surgem depois do evento, mas estão relacionadas à ele.

Preste atenção naquilo que sente, você poderá encontrar muitas respostas aí.

Abraço

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Objetividade e frieza
10/08/2015

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  • O que eu não entendo é porque ele ficou tão brabo comigo depois.

  • Hum… você acha que ele não deveria ter ficado assim?

  • Claro. Eu só falei os fatos para ele.

  • Sim. Você descreveu algo que você vê nele.

  • Pois é! Porque ficar tão brabo comigo por isso?

  • Porque não?

  • Ué, ele deveria pensar sobre aquilo e pronto… não vejo para que se emocionar.

  • Como você é dura!

  • (Pausa) Porque diz isso?

  • Você sentiu algo quando eu falei isso?

  • (Pausa) Sim.

  • Segundo você, você não deveria ter sentido… deveria apenas ter pensado sobre o que eu falei.

  • Hum…

 

Ser objetivo é importante em nossas vidas. Esta capacidade serve para tomar decisões e avaliar com realismo nossos resultados. Porém existe outra característica que é confundida com objetividade que é a frieza.

Ser objetivo é uma característica que tem a ver com a maneira pela qual a pessoa lida com os fatos. Diz-se do objetivo a pessoa que consegue raciocinar em cima de dados e fatos, tirando conclusões a partir da realidade e elaborando ações para esta realidade. O contrário do objetivo é a pessoa que já tem uma versão da realidade e busca adaptar os fatos às suas teorias. A objetividade, assim sendo considerada, é uma característica que pode acompanhar diversos tipos de emoções. A curiosidade, inclusive, é um estado afetivo que liga-se muito bem à objetividade.

Frieza é outro departamento. Quando fala-se em frieza aponta-se para a maneira pela qual a pessoa valoriza os estados emocionais. Frieza não está ligado à não sentir determinada emoção e sim à desvalorizar a presença da emoção em si e nos outros. “Tratar com frieza” é uma expressão que usamos quando percebemos que alguém está deliberadamente ignorando expressões afetivas. É possível ser frio e objetivo sim, porém as características não são sinônimos.

Ambas as habilidades tem sua importância em nossas vidas. Ser frio assim como ser objetivo são características que podem ser úteis dependendo do contexto e dos objetivos da pessoa. Podem também ser utilizadas de maneira inadequada quando, por exemplo, tenta-se se frio sempre que o contexto provoca emoções. Ora, lidar com emoções através da frieza pode ser útil, porém não será útil sempre. Existem situações em que lidar com os fatos é importante, porém, quando estamos criando, muitas vezes temos que torcer a realidade e deturpá-la para conseguirmos criar algo novo.

Em geral o que vejo no consultório é que existem dois problemas em relação à estes temas: ter a frieza como resposta padrão para estados emocionais e ser objetivo com tudo. O primeiro caso tem a ver com uma baixa capacidade de lidar com as emoções. Em geral a pessoa teme perder o controle ou – numa acepção errônea do termo – não ser “objetivo”. É importante aprender a desenvolver uma maleabilidade emocional afim de entender que cada emoção possui uma função e que isso não prejudica, mas sim adapta a percepção da realidade ou, até mesmo, chama atenção à determinados elementos do real.

O segundo caso é o típico “chato” que não consegue relaxar e se soltar numa conversa porque tudo para ele precisa de evidências, justificativas e provas. Ser objetivo o tempo enche a pessoa de um conhecimento prático da vida, por outro lado, muita praticidade torna a vida seca e áspera. É necessária uma certa dose de subjetividade que é o que dá cor aos dados e ao lado prático da vida. Afinal mesmo aquilo que chamamos de objetivo possui o fato de ser visto por um humano que tem uma visão sempre limitada do real e, portanto, é subjetivo.

Abraço

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Quem é seu terapeuta?
05/08/2015

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  • Akim… não sei mais o que te dizer.

  • Não sabe ou não quer?

  • Acho que o segundo.

  • E o seu não querer é porque não deseja tratar disso ou porque não sabe se deve falar isso para mim?

  • O segundo também…

  • O que motiva essa sensação?

  • Não sei… parece que está diferente aqui na terapia.

  • Sim, diferente como para você?

  • Eu… te vejo diferente.

  • Como me vê?

  • Antes eu te via meio que como um guru sabe?

  • Sim.

  • Agora te vejo mais como eu… como um humano sabe? (risos)

  • Sim… e é difícil confiar em humanos não é?

  • Nossa… verdade…

 

Este post pode parecer escrito para quem já faz terapia, porém ele serve para ambos os lados. Ocorre que todos temos uma certa imagem dos profissionais – assim como de qualquer pessoa – e a imagem que temos do psicólogo é algo que tanto pessoas que fazem quanto as que não fazem terapia tem. É óbvio que estou colocando o foco sobre o psicólogo que trabalha com psicoterapia – é a minha área – mas existem várias outras ocupações para o psicólogo.

Quando se começa a fazer terapia – digo por experiência própria – temos uma certa percepção do profissional que irá nos atender, isso tem a ver com aquilo que apreendemos da pessoa com quem nos relacionamos. Outra coisa tem a ver com aquilo que projetamos sobre ele, ou seja, aquilo que desejamos que o profissional seja para nós, tem a ver com nossos desejos e expectativas. E uma terceira influência é sobre como nos relacionamos com a pessoa de fato, ou seja, a maneira pela qual criamos vínculo com o terapeuta.

Porque falar disso é importante para você que faz terapia?

A maneira pela qual nos vinculamos ao terapeuta diz muito sobre nós e a maneira pela qual nos relacionamos com as pessoas no mundo. “Ah Akim, mas o psicólogo é um profissional e eu o vejo assim”. Esta é uma das formas e essa maneira de encarar o psicólogo – não como um humano, mas sim como uma “entidade” chamada “profissional” – diz muito sobre a pessoa. Poderia perguntar a mesma pergunta que  fiz na consulta citada acima. Poderia trabalhar, também, com o porque de ela precisar de uma “entidade” para se abrir? É medo? Quer alguém que seja “neutro”? A maneira pela qual você vê o terapeuta diz muito sobre você, como você encara o seu terapeuta?

A maneira pela qual nos vinculamos é outra história. O vínculo fala das nossas necessidades com aquele relacionamento. Existem vínculos mais ansiosos, que demonstram um certo tipo de medo ou incerteza, insegurança em relação à pessoa com quem se está relacionando. Outro pedem aprovação, contato ou afeto. Pode-se vincular com um terapeuta a partir da agressão, é o tipo de pessoa que, por exemplo, sempre desconfia, questiona e desaprova aquilo que está sendo dito. Ela agride para ver se será “aceita mesmo assim”, a agressão é uma forma de se defender e ao mesmo tempo um pedido de afeto nesse caso. Agride-se para se afastar da possibilidade de ser excluído, mas deseja-se, verdadeiramente, o afeto e a inclusão.

Aquilo que apreendemos de nossos terapeutas é uma mescla daquilo que necessitamos com aquilo que vemos. A percepção nunca é “pura”, está sempre vinculada aos nossos filtros. Desta maneira constituímos quem o nosso terapeuta é para nós. Este é um processo que fazemos com todas as pessoas com quem nos vinculamos. Tratar disso em terapia é tratar a maneira pela qual se cria vínculo, que se percebe o outro e, principalmente, as questões que motivam cada um de nós a criar o vínculo desta maneira.

Uma pessoa que vê os outros como possíveis agressores, por exemplo, pode buscar no terapeuta um porto seguro, um confidente ou querer comprovar que nem mesmo os terapeutas são confiáveis. Todas essas percepções refletem o mesmo drama sobre como ela percebe as pessoas do mundo e o seu lugar com essas pessoas. É com isso que ela irá organizar o seu papel. Uma vez que possa tratar disso usando a relação terapêutica como recurso ela poderá rever estas crenças sobre relacionamentos e mudar aquilo que julgar adequado mudar.

Quem é o seu terapeuta?

Abraço

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Ações e reclamações
31/07/2015

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  • Eu não aguento mais a situação!

  • O que você não aguenta mais?

  • Reclamações. O tempo todo alguém me enchendo o saco querendo alguma coisa!

  • Sei. Isso é uma reclamação sua?

  • Sim… eu sou bem reclamona também.

  • Entendo… ensinou todos bem então é?

  • Como assim?

  • Você reclama tanto que deve ter ensinado os seus à reclamarem também.

  • É verdade… não tinha pensado nisso… fica todo mundo tenso ao meu redor tanto em casa quanto no trabalho. Só no clube que não, mas lá eu não fico de “líder” sabe?

  • Sei sim… Será que não está na hora de se dar um novo papel ou desempenhá-lo de uma outra forma em casa e no trabalho?

  • Pode ser…

 

Dentro de relacionamentos reclamar é algo comum. A reclamação tem como estrutura apontar algo com o que não se concorda. Este apontamento tem como intuito classificar determinado comportamento como inadequado buscando a criação de um limite e a mudança de comportamento.

No entanto, o ato de reclamar pode tornar-se um comportamento padrão. Existem pessoas que são “reclamonas” de carteirinha, sempre achando algo para reclamar. Este tipo de conduta, em geral, está associado com uma falta de personalidade na relação. “Falta de personalidade” entenda-se como a seguinte dinâmica: a pessoa foca demais nas outras pessoas e no comportamentos delas. Deixa, com isso de se posicionar de maneira adequada frente àquilo que reclama. Em outras palavras, fica apenas reclamando, mas não toma nenhuma atitude com isso.

Ocorre que reclamar é uma parte do processo, no entanto, a pessoa responsável não fica apenas nisso. Ela busca o seu bem-estar de uma forma ou de outra. Reclamar e propor soluções são temas diferentes. Muitas vezes, numa relação as pessoas disputam por anos sobre um determinado tema apenas porque nenhum dos dois lados propôs uma solução. O conflito gira em torno de verificar quem detém o poder e não em resolver um problema.

Como sair deste ciclo?

Um dos temas é apontar menos para o outro e mais para si. Uma pergunta muito utilizada na psicologia sistêmica – e que muitas vezes causa um nó em nossa mente – é: como contribuo para isso? Ou seja o reclamão, por vezes, contribui para aquilo que reclama de maneiras que nem consegue perceber, porém estão lá. Uma das formas, por exemplo, é quando a pessoa se coloca como passiva na relação frente àquilo que tem problemas, outra maneira típica é ser detalhista demais – e acabar sendo o chato da relação –  e ainda temos outra maneira que é se colocar em situações nas quais já se sabe que o outro irá reagir de maneira negativa para, então, reclamar.

Perceber de que maneira o seu comportamento influencia aquilo que você mesmo reclama abre a porta para a mudança. Perceber, então o que motiva o seu comportamento inadequado é fundamental. A motivação é o que dá a base para o comportamento. Aqui, um ponto importante: pode parecer absurdo que estou motivado para me comportar de uma maneira que, posteriormente, me prejudica. Pode parecer, porém é super comum. Isso ocorre justamente porque a nossa motivação, muitas vezes, nos coloca em situações prejudiciais. E, principalmente, porque nossas ideias, muitas vezes, são diferentes de nossas emoções. Ou seja, por vezes temos um determinado conceito sobre o que queremos e como as coisas devem ser na relação, porém nossa educação emocional nos puxa para outro lado.

Uma vez de posse destes dois elementos: o que faço e o que motiva a minha ação, posso me perguntar à respeito da minha identidade na relação. Quem sou? Muitas vezes somos os mártires, outras somos o eterno incompreendido ou até mesmo o garanhão preso. Daí as perguntas que geram uma cascata de mudanças: quem posso vir à ser? O que posso mudar naquilo que me motiva? O que posso começar a fazer de diferente? Estas ações implicam mudanças não apenas para a pessoa, mas, também, para a relação. Em uma relação, quando um dos dois evolui, em geral o outro também é convidado à evoluir ou a relação começa a perder sentido. E, com isso, concluímos a reclamação que passa a se tornar ação.

Abraço

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Raiva do terapeuta
29/07/2015

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  • Então é isso!

  • É isso?… Bem, vamos tomar um café e ir embora então? Porque estamos no começo da sessão (risos).

  • Ah é! (risos)… eu não tenho mais nada que eu queira falar sabe?

  • Sim… mas tem algo que você está sentindo… isso posso dizer.

  • Tem… mas não quero falar disso agora.

  • Se eu palpitar certo você fala?

  • Falo…

  • Vou falar assim: não tem problema isso que você está sentindo em relação à mim, pode sentir e pode falar o que você quiser… eu aguento, não vou te julgar por sentir isso, vou ajudar você com esta emoção.

(Silêncio)

  • Eu tô com raiva de você! É isso! Pronto, falei!

  • Ótimo! Me conte o que aconteceu?!

  • É que eu to com raiva porque você fica falando de mim… e me elogia… e me incomoda isso!

  • Eu imagino… que bom que você pode falar da tua raiva, de que maneira falar de ti ou eu te elogiar é agressivo?

  • Eu não sei o que você quer com isso! Porque você me elogia?

  • Quando vejo que uma pessoa tem uma atitude digna de ser elogiada eu o faço.

  • Mas eu tô fazendo algo assim!?

  • Sim, vez ou outra você faz e então elogio o seu comportamento.

  • E você faz isso com todo mundo?

  • Sim, aqui no consultório e na minha vida pessoal também. Não faço bajulação, apenas elogio.

  • Entendi…

  • Que tal trabalharmos melhor com esta raiva e essa dificuldade de falar de si e de ser elogiada?

  • Acho bom.

  • Eu também…

 

A raiva é uma emoção que tem a ver com a sensação de impotência e ameaça. Junte estes dois elementos e terá a raiva. Para que ela serve? Para mobilizar força e foco para lutar ou fugir. A raiva, em si, não é boa ou má, o que fazemos com ela pode se tornar útil ou improdutivo para nós.

Na terapia muitas emoções surgem naquilo que chamamos de “relação terapêutica”. É comum sentir amor, raiva, cumplicidade, amizade, ternura e nojo do seu próprio terapeuta. Todas as emoções que vivemos com outros humanos podemos reproduzir na relação com o nosso terapeuta, pelo simples fato de ele ser, também – e incrivelmente, apenas um humano.

Quando a  emoção da raiva aparece na relação terapêutica é importante que a pessoa consiga comunicar isso. A raiva pode se manifestar por vários motivos, um deles, inclusive significa que a terapia está dando certo. Porque? Porque muitas vezes o processo terapêutico mexe em nossas feridas e incompetências, nossas deficiências – sim você, eu e todo ser humano possui alguma em algum nível. Essa percepção pode ser consciente ou inconsciente, ou seja a pessoa pode estar consciente de que está sentindo raiva ou não, mas ela está lá.

Frente à percepção disso é um mecanismo de defesa comum a projeção de culpa. Assim a pessoa pode ficar braba com seu terapeuta por que na relação com ele, ela descobriu incompetências suas que ela própria não gosta de lidar. Se a raiva não é manifesta é comum que a pessoa termine por abandonar o tratamento porque irá sentir-se mal durante as sessões ou pode até mesmo sentir-se exposta ou até mesmo cobrada pelo terapeuta.

Esta maneira de responder provavelmente é a mesma que ela usa em sua vida diária com todas as pessoas ou uma reação específica ao terapeuta em quem ela deposita muita confiança. Neste último caso a pessoa pode sentir-se “traída” pelo terapeuta ao sentir que ele percebeu suas deficiências ou até mesmo sentir-se ameaçada pelo fato de ele pode descartá-la pelo fato de não ser “perfeita”. A raiva na terapia é sempre um bom sinal porque nos ajuda a perceber onde temos que trabalhar. Assim, explorar a raiva deverá sempre ser um motivo de aprendizado para a pessoa assim como para o terapeuta. Aprenda a falar sobre sua raiva para compreendê-la. A relação com o terapeuta e com a terapia só tem a ganhar quando a pessoa abre suas emoções.

Com raiva?  Explore-a! Aprenda! Transforme-se!

Abraço

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Problemas que ocultam problemas
24/07/2015

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– Mas ela não me deixa em paz sabe?

– Sim… sei como é.

– Então! Eu já conversei com ela, mas ela não muda!!

– Eu sei… e foi você quem escolheu ela… porque será né?

– Não sei!

– O que você faria se escolhesse uma mulher que sabe o que quer. Independente…

– Seria bem melhor!

-… que é como você: sai quando quer, não fica dando satisfação…

– (silêncio) é… me parece meio estranho pensando assim…

 

Algo que impressiona quando lidamos com humanos é a nossa capacidade de gerar problemas. Problemas que ocultam problemas é uma variante muito interessante deste comportamento.

Em relacionamentos é algo muito comum que um dos conjugues tenha um problema qualquer, por exemplo, baixa auto-estima, que aprender a lidar nas relações com outras pessoas usando o outro não para resolver o seu problema, mas sim para mascarar o seu problema. É fácil não lidar com uma questão pessoal quando temos outros afazeres, ou quando achamos que temos outros afazeres.

Neste caso, por exemplo, a pessoa pode na sua maneira de se comportar projetar um comportamento muito seguro e forte, por exemplo, e com isso estar sempre cobrando o outro, dizendo-lhe o quanto ele é preguiçoso, devagar, que ele deveria cuidar melhor de sua vida. O outro acaba sentindo-se muito para baixo e tem medo de perder o seu amado. Com isso pode, por exemplo, ter crises de ciúmes o que o obriga o conjugue a ter que lidar com este problema.

Uma outra forma é a pessoa que é muito forte, porém sente medo de sua força ou culpa por ser assim. Dessa forma vive se colocando em situações de apuros ou tendo comportamentos inadequados. Relaciona-se com uma outra pessoa que ou gosta de cuidar, ou acha que deve ajudar uma pessoa inadequada ou é mandona. Nesta relação a pessoa forte começa a achar que está sendo sufocada pelo outro que está sempre no seu pé.

Em um caso ou em outro o efeito é o mesmo: um problema que surge (no primeiro caso os ataques de ciúmes e no segundo caso o “sufoco”) são problemas criados por uma dinâmica e não um problema “de fato”. Este problema serve para mascarar e evitar que um – ou ambos – dos conjugues entre em contato com uma questão pessoal e assim, tenha que dar conta dela.

O que geralmente ocorre é que o conjugue problemático acaba indo à terapia e faz um processo de evolução pessoal. Neste processo aprende a lidar com o conjugue de uma maneira diferente, deixando-o livre para ser responsável por si só. Quando isso ocorre a relação entra em crise e a pessoa que se esconde atrás dos problemas pode, enfim aprender com eles.

Obviamente exige coragem sair do lugar de “poderoso” para ir ao lugar de “problemático” – é assim que boa parte das pessoas encaram pelo menos. Mas quando percebem que não estão fazendo esta inversão de papeis, mas sim dando conta de uma questão pessoal importante, etas pessoas aprendem que podem, então, serem ainda mais felizes.

E você? Anda escondendo-se atrás de algo?

Abraço

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Me encontrar
20/07/2015

se encontrar

  • Mas Akim… como que eu vou saber o que fazer se nem sei quem sou?

  • Qual o problema?

  • Esse! Se não sei quem sou, não sei o quero não é lógico?

  • É. Porém… saber que não sabe quem é implica em saber quem se é.

  • Como?

  • Para você saber que não sabe quem é você precisa ter um modelo de quem você é para comparar o modelo com quem você é hoje e afirmar: isto não sou eu.

  • Hum…

  • Em outras palavras: como você sabe que não sabe quem é?

  • Eu deveria ser mais… sei lá… corajoso.

  • Então você é covarde ou está com medo?

  • Sim.

  • E você sabe disso? Reconhece isso aí na sua experiência?

  • Sim.

  • Ótimo, você é isso! Agora sabe “quem” é: neste momento, a experiência do medo.

  • Que louco isso…

 

Se encontrar. Este parece ser um grande desejo das pessoas hoje em dia. “Ser eu mesmo”. Porém, como fazê-lo? Talvez o primeiro passo seja pensando de uma maneira útil na questão.

Quando pensamos em “nos encontrar” temos que compreender que o nosso “eu” já está aí, pronto em algum lugar apenas esperando para ser descoberto. Uma maneira muito cartesiana de refletir, inclusive. A verdade (ou o “eu”) está na natureza, apenas precisamos capturar isso, compreender isso e tudo estará resolvido. O problema que surge, então é: procurar aonde?

As pessoas, com isso vão atrás das respostas disponíveis. Em nossa cultura, o consumo é a grande resposta e hoje ele aparece transvestido de várias maneiras: o consumo de amigos, de relações, de festas assim como o clássico consumo de produtos em sua grande infinidade. Outras pessoas aparentemente com um pouco mais de consciência buscam psicoterapia ou outras formas de auto descoberta. No entanto, muitas delas continuam com o paradigma de se encontrar em algum lugar (talvez, neste workshop, eu consiga). Ledo engano.

O problema é que o “eu” que buscamos não pode ser encontrado por estas vias. Em primeiro lugar porque o “eu” não é uma coisa, ele não é uma substância que pode ser encontrada em algum lugar assim como encontramos as chaves do carro que esquecemos na cômoda. Assim sendo o “eu” não está em algum lugar, muito menos ele está “pronto” e esperando por ser descoberto por nós. O que seria até um certo contra-senso: como eu posso me achar em algum lugar se não sei quem sou? (Sei o que minhas chaves do carro são, por isso posso encontrá-las, mas como não sei quem sou, como vou me achar em algum lugar – mesmo que o eu pudesse ser encontrado eu não o veria)

Para resolver o problema talvez tenhamos que voltar ao oráculo de Delfos para compreender a questão do “eu” de uma maneira mais útil. “Conhece-te a ti mesmo” diz o oráculo. Ora, embora o conselho pareça óbvio, ele se torna mais enigmático à medida em que adentramos na sua elaboração. Conhece-te a ti mesmo tem uma implicação um tanto desconfortável para nós ocidentais. Implica que não somos um “eu” inteiro, ou seja, temos um eu que “é” e um que o “conhece”. Como?

Para que eu conheça algo é preciso observar este algo, compreender de alguma maneira. Mesmo que isso se dê na relação, a relação implica dois seres. Assim sendo o eu que “conhece” é diferente do eu que é conhecido. Quando o oráculo diz “conhece-te a ti mesmo” ele está dizendo que o “eu” que manifestamos é apenas mais uma experiência e não “a” experiência, como gostamos de achar no ocidente. Se conhecer está, então envolvido em experimentar aquilo que dizemos que somos e compôr um conhecimento sobre esta experiência. Saber que esta experiência é apenas mais uma é, por fim, a grande sacada à respeito do ato de “se encontrar”.

De outra forma: quando pequeno experimentava quem sou através das brincadeiras com outras crianças, por exemplo. Quando adulto posso seguir a mesma linha e me perceber no convívio com outras pessoas em bares e festas. No entanto, também posso experimentar quem sou no meu trabalho. O encontro com o “eu” se dá quando se percebe que o “eu” é a experiência e não uma coisa ou entidade. Se encontrar, então, tem muito mais à ver com experimentar aquilo que acho que sou, compreender o que e como vivi isso e, com base nesta experiência e na compreensão extraída dela, decidir o que se continuará fazendo.

Nós temos a tendência de nos identificar com as nossas experiências e dizermos que somos elas. Isto leva à um engessamento que pode ser proveitoso para algumas coisas e prejudicial quando as situações requerem comportamentos novos. Quando é possível ampliar ou modificar o que chamamos de eu, podemos ter uma compreensão ainda maior do que “somos”, ou seja, do processo que usamos para dar à nós uma identidade capaz de ser concretizada no mundo.

Mas enfim, como se encontrar? Preste atenção à sua experiência. Ao que já ocorre com você, em você, ao como você sente, pensa e age. Isso é a experiência que você se permite ter daquilo que você considera ser você. O encontro está exatamente aí. Não em algo externo, e acabado, mas em algo interno e em constante processo de “vir-a-ser”.

Abraço

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Dai-me paciência!
13/07/2015

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  • Akim… hoje você vai se irritar comigo.

  • Ah é, porque?

  • Eu recaí novamente.

  • Entendi, o que aconteceu?

  • Ah… peguei a gúria lá de novo, não aguentei.

  • E o resultado?

  • O de sempre.

  • Ok. Bem, antes de entender a recaída, me diga: porque vou ficar irritado com isso?

  • Ah… a gente trabalha um monte e eu não mudo.

  • Hum, entendi. Mas veja, o simples fato de perceber que ficar com ela é uma “recaída” já é muito bom pra mim.

  • É… você sempre tem isso de olhar para o lado bom.

  • Você está mudando o comportamento, porque não deveria olhar para isso?

  • Mas foi muito tempo para entender isso.

  • Foi o seu tempo… talvez você esteja irritado com você não é mesmo?

  • É… talvez seja mais isso… eu sabia que ia dar errado… mas fiz de novo sabe?

  • Sei… e não te censuro por isso, acho que a sua dor já te basta.

Acredito que quase todo mundo já teve esta necessidade na vida: ter paciência. Muitas são as piadas com isso “dai-me paciência porque se me der força eu mato” ou “dai-me paciência, mas me dê agora!”. Porém a questão é sempre a mesma: como gerar este estado?

O primeiro engano é achar que devemos nos sentir neutros ou ignorar o que está acontecendo. Porque? Porque para ignorar eu preciso, primeiro, perceber e me incomodar. Ignorar é um esforço para tornar algo que está na minha percepção menos valorizado, porém o fato é que aquilo que me incomoda fica sempre na percepção o que, também, gera incomodo. Ser neutro é algo de outra esfera física, Ao humano não é possível “ser neutro”, ou seja, se algo mexe com a gente, simplesmente aceite isso e lide com a sua reação, este é o caminho para começar a ter paciência. E, por fim, é um engano porque as pessoas que são pacientes não são neutras e nem ignoram o que está ocorrendo, elas tem uma outra reação.

A estrutura da paciência requer que você perceba o que está acontecendo, de valor para o que incomoda. No entanto, quando digo dar valor, é importante saber “qual” valor dar. Pessoas pacientes entendem os elementos que as incomodam como algo que não é delas. Ou seja, o vizinho chato não é um “problema meu”, ELE é chato, neste sentido, ele tem um problema. Ao perceber a situação dessa maneira existe uma sensação de “estar de fora”, esta sensação causa uma tranquilidade.

Outro fator importante na elaboração do estado de paciência é observar o comportamento ao longo do tempo, para isso, a primeira condição (acima citada) é importante. Ao estar distante do comportamento posso entender a pessoa ao longo de sua história de vida. Vendo desta perspectiva ampla o comportamento que está sendo exibido saí do “momento” e entra na “história”, com isso é mais fácil perceber que a pessoa não está sendo assim “com você”, ela, simplesmente, é assim. Isso também ajuda a não levar para o lado pessoal, outra característica da paciência.

Ao ver o comportamento como algo construído ao longo do tempo, também é possível se colocar num papel diferente. Se eu não sou o alvo dessa pessoa maligna e sim, mas um com o qual ela se relaciona desta maneira, que posso ser? Posso ser um professor, posso ser alguém com quem ela poderá ter uma surpresa, posso ser uma pessoa que (finalmente) vai entendê-la, ou encará-la. Assumir este papel é lidar com o comportamento e não com a pessoa. Uma vez que esta perspectiva é assumida “ser paciente” não é algo com a pessoa e sim com a maneira dela se comportar. Isso cria um desapego em relação à mudar a pessoa o que culmina numa paciência mais estruturada.

Em resumo, podemos dizer que a paciência se organiza quando a pessoa percebe o comportamento como intrínseco da pessoa e dá atenção ao comportamento e não à pessoa (ou seja, não faz juízo moral dela e não leva para o lado pessoal), percebe este comportamento como algo gerado ao longo do tempo, se coloca numa atitude positiva frente ao comportamento e não assume como seu o problema, apenas a postura que irá assumir frente à ele.

E aí, ajudo ou tenho que ter paciência?

Abraço

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