Honestidade
08/06/2015

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  • Daí eu fui na festa sabe?

  • Sim, imaginei. E o que aconteceu?

  • Bem… aconteceu o que ia acontecer.

  • Conte pra mim.

  • Bem, a gente foi, ela viu o ex e eu fiquei puto e com muito ciúme.

  • E o que você fez com isso?

  • Nada… fiquei mudo e calado. Ela até me perguntou se eu tava brabo.

  • E você?

  • Não falei que tava, mas enchi a cara.

 

 

Muito se fala em ser honesto. Não trapacear, roubar ou enganar alguém deliberadamente. Porém que competências são fundamentais à capacidade de ser honesto? Qual o cerne dela e qual o seu principal opositor?

Ao contrário do que se pensa a honestidade não é desenvolvida com um forte senso de dever com o outro, mas sim com uma boa organização interna que conduz o sujeito à uma estrutura que não precisa enganar, trapacear ou roubar o outro e que pode percebê-lo como digno de respeito e admiração assim como a pessoa também se percebe.

A pessoa que desenvolve uma boa auto estima é aquela que sabe que não precisa se esconder ou ocultar seus sentimentos, desejos, qualidades e defeitos. Também reconhece que “não ocultar” não significa dar vazão descontrolada à eles. Por isso tem uma organização que permite perceber e ao mesmo tempo verificar e decidir o que fazer com seus desejos, sentimentos e características. Esta capacidade é o primeiro ponto para desenvolver a honestidade. Porque?

Ser honesto implica em saber aquilo que se sente no íntimo. O honesto age, pensa e responde de acordo com aquilo que há dentro de si. Para tal precisa, inicialmente, saber  o que há e saber como lidar. O problema que pode surgir – geralmente surge – é que as pessoas até percebem, porém não aceitam aquilo que percebem dentro de si mesmas e/ou temem isso. A tendência é tentar escapar através da negação, projeção ou então assumindo atitudes e comportamentos que vão contra o que a pessoa realmente deseja, porém são mais “aceitos” socialmente.

Logo o segundo passo seria aprender a agir de acordo com o que há dentro de você. Como disse, isso não significa realizar tudo aquilo que vem à mente sem nenhum pensar sobre o ato, pelo contrário, a pessoa que age assim é vítima de seus desejos e impulsos. A reação impensada não inclui todo o organismo e toda a psique no trabalho, por esta razão é prejudicial para a pessoa. A ação que usa o organismo como um todo é muito mais forte do que aquela que é dada apenas pelo impulso. Diga-se de passagem, a pessoa que cede aos seus impulsos pode ser – ao contrário do que se pensa – exatamente aquela que é menos honesta consigo mesma. Vejo sempre no consultório: não quero agir assim, mas não “consigo controlar”.

Por fim a honestidade requer saber lidar com as conseqüências de nossas escolhas porque toda escolha tem consequências. É comum que as pessoas entendam que ao serem honestas não sentirão medo, ou dúvida, por exemplo. Ledo engano, ser honesto implica em aceitar aquilo que se sente, independente do que se sente. Assim a honestidade não é uma arma que irá livrá-lo de dores, mas sim colocá-lo em frente à elas para que você aprenda – “honestamente” – a lidar com elas.

E aí, será honesto com você hoje ou não?

Abraço

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O que fizeram de mim?
16/03/2015

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  • E eu tenho uma…não é direito raiva sabe? É como uma revolta.

  • Sente-se indignado em relação à sua família?

  • Não à pessoa deles, mas ao que vivi com eles.

  • Pensa que poderia ter sido diferente não é?

  • Sim… em tudo o que eu não precisava ter vivido.

  • Um sentimento esperado.

  • Esperado?

  • Sim, é comum olharmos para trás e querer não ter vivido as partes ruins de nossa vida.

  • É… mas sei lá… isso me faz mal entende?

  • Claro e você, o que entende disso?

  • Bem… não sei direito… eu sinto revolta e indignação, mas sinto que o mais adequado não é brigar com eles.

  • Então, o que seria melhor?

  • Como na música dos engenheiros: “perdoe o que puder ser perdoado, esquece o que não tiver perdão”.

  • Entendo. Isso é maduro, todos erram e você irá errar com seus filhos, esteja certo. Perdoar é, também, seguir a sua vida em frente.

  • Sim

 

A vida não é justa. A vida é cruel. A vida é a vida.

Sempre cito o pensamento existencialista de “o que vou fazer com o que fizeram comigo?”. Este pensamento é uma espécie de crença que ajuda a olharmos para frente, aceitando o passado e buscando nos (re) criar com ele.

Porém, nem sempre é fácil olhar para o passado de uma maneira que nos permita usá-lo à nosso favor. Muitas vezes as pessoas vivem o que se passou à 20 ou 30 anos atrás como algo ainda presente. Esta maneira de encarar o passado traz duas consequências nefastas ao desenvolvimento do “eu”: a primeira que faz com que a pessoa mantenha o foco no passado e olhando apenas para trás não é possível ir para frente. A segunda se refere ao fato de que olhar para o passado como se estivesse ainda acontecendo faz com que você se mantenha identificado com quem foi e não com quem é, muito menos com que poderá vir à ser.

É muito comum, por exemplo, que pessoas que foram obesas na infância e adolescência ainda se vejam como obesas mesmo estando no peso ideal. Também é comum que pessoas que viveram privações de comida, por exemplo, façam grandes estoques de comida mesmo tendo disponibilidade. Enfim, tudo aquilo que vivemos torna-se um aprendizado. O que foi aprendido e a identidade que criamos para ter este aprendizado é que pode ser a nossa real prisão.

A questão é que aquilo que aprendemos precisa ser mantido para continuar gerando o seu efeito. Quando as pessoas fazem terapia elas tem acesso à novos aprendizados , vivem novas experiências e, com isso, podem decidir se vão manter seus novos aprendizados ou os antigos. Quando algumas pessoas mudam, sentem-se rancorosas em relação ao passado e é importante modificar isso para que ela possa seguir livre com suas novas escolhas.

Isso se dá porque muitas vezes o novo aprendizado pode ser uma espécie de “birra” contra o que se viveu. Por um lado a pessoa muda, por outro, precisa manter o passado vivo em sua memória e lutar contra ele. A motivação da mudança é a luta o que mantém a pessoa num constante estado de tensão e isso à longo prazo não é saudável.

Assim, perdoar o que se passou compreendendo que o passado faz parte de nossas vidas e que, por pior que tenha sido é o que nos fez nós. Aprender a se amar envolve aprender a aceitar o que nos aconteceu – aceitar é diferente de gostar e de achar correto, diga-se de passagem. Manter o passado em perspectiva é aquilo que pode nos ajudar a nos diferenciar de quem fomos e compreender quem somos e o que estamos nos tornando. Este é o processo evolutivo do self.

Quando você irá deixar o seu passado no passado?

Abraço

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Ser preterido
02/03/2015

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  • Tenho me sentido muito mal.

  • Tem sido difícil lidar com o término?

  • Sim…

  • O que está sendo mais difícil?

  • Eu fico me lembrando dele indo embora do restaurante…

  • Uma cena dolorosa…

  • Muito… ele disse que preferia sair antes para eu entender que ele tinha terminado mesmo. Sair sozinha de lá foi horrível.

  • Receber uma recusa é algo difícil para todo ser humano, desejamos o contato.

  • Sim.

  • Porém onde ficamos quando recebemos uma recusa é um fator importante para definir como lidar com isso.

  • Eu fiquei na mesa… me sentia uma garotinha.

  • Imagino, é uma cena que se repete na sua vida não é?

  • É…

  • O que você fez com a garotinha que sentiu ser?

  • Não sei… acho que não fiz nada…

  • Quando uma criança é abandonada é importante ajudarmos ela a sentir que ela tem valor e que o abandono é uma escolha do outro.

  • É… não me sinto com nenhum valor mesmo…

 

Ser preterido é algo que incomoda o ser humano. Somos seres gregários por “natureza” e a exclusão tem um valor muito dolorido para todos nós. Gostamos de poder ter proximidade e distância, porém quando a distância se impõe e se torna a única escolha temos que aprender a lidar com a solidão, com a exclusão e com nosso lugar no mundo e para nós mesmos.

Esse é o drama quando somos preteridos. Existem pessoas, no entanto, para quem este drama não se mostra apenas no término de um namoro ou no final de uma amizade, é uma marca registrada em sua identidade e ela se percebe como a pessoa que é preterida. Sente-se “o(a)” “excluído(a)”. Esse sentimento é altamente deteriorante da auto estima principalmente porque, em geral, vem acompanhado de sentimentos de não merecimento de companhia. Em outras palavras a pessoa explica para si a sua identidade de “excluído” afirmando que ele fez algo errado e, por isso, não merece companhia.

Quando se “é” um excluído passa-se a perceber o mundo, as pessoas e as relações em termos de inclusão/exclusão. Isso, porém, não é tudo, afinal cada exclusão deve ser explicada e a explicação, em geral, é “não mereço”. Então, o conflito entre abrir-se ao mundo e o medo profundo de receber mais uma exclusão torna-se o drama da vida da pessoa. De um lado, desejosa de ter afeto e um lugar, de outro amedrontada em tomar as iniciativas necessárias para realizar o seu sonho visto que ela “sabe” que não é digna ou merecedora deste afeto.

Este não merecer, em geral, é um aprendizado que a pessoa cria a partir das relações que teve e do que ocorreu nelas. “Porque não gostam de mim?” Esta pergunta leva à busca de um defeito (“o que há de errado comigo?”) que muitas vezes não existe, ou então, não é algo que justifica o destino de exclusão o qual a própria pessoa se impõe. Aprender a verificar as premissas que tornam a pessoa um excluído é ajudá-la a buscar os furos na sua auto estima e, com isso, preenchê-los. Ao fazer isso a pessoa constrói a confiança pessoal de que tanto precisa para abrir-se ao mundo.

Não melhorar a auto estima implica em pessoas que “não precisam” dos outros ou daquelas que fazem qualquer negócio para ter uma companhia – e terminam sendo descartados por se tornarem insuportáveis aos outros. O primeiro tipo é aquele que busca na arrogância uma proteção contra a sua própria solidão, vê o mundo como chato e enfadonho e as pessoas como não merecedoras do seu afeto, projeta aos outros a solidão e dor que sente em si. Desta maneira trata as pessoas como desiguais e inferiores, quando encontra alguém à sua altura tem uma abertura sempre ansiosa e desconfiada a qual faz com que a pessoa encontre evidências que digam que é melhor fechar-se novamente. Outra opção é que a pessoa se torna tão chata e arrogante que não consegue, de fato ninguém para aproximar-se, e então acaba comprovando para si a ideia de que as pessoas são – todas – chatas e é melhor ficar sozinho. O segundo assume a culpa de ser inferior e mendiga afeto com qualquer pessoa, em geral, alvo fácil de pessoas que precisam de alguém para desdenhar e de tanto serem pedintes com relação ao afeto acabam desgastando a  relação o que só comprova a sua teoria de auto culpa.

O caminho de melhora da auto estima revela-se quando a pessoa aceita a dor e o medo da solidão. Ao assumir isso pode-se buscar as ideias que causam a identidade de “excluído”. Quando se faz isso busca-se nas relações importantes da pessoa a dinâmica que a faz assumir este papel assim como a maneira pela qual ela mantém o papel (comprovando-o). Seja pela via da arrogância ou mendigando afeto a pessoa deve compreender as emoções que guarda dentro de si, lidar com elas, perdoar quem precise perdoar e passar a aprender como se abrir e trocar afeto de uma maneira saudável.

E você, como lida com a exclusão?

Abraço

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Quem não te conhece…
04/02/2015

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  • Nossa Akim, foi um saco a saída.

  • Sério? Porque?

  • Ah… a menina quis ir numa festa lá para ficar a noite toda dançando.

  • E daí?

  • Daí que eu não curto dançar, você sabe.

  • Sei… esse foi o problema?

  • Não só… tipo eu tive que ficar lá falando com os amigos dela e tal.

  • E?

  • Eu não gosto disso… você sabe que eu sou meio anti social.

  • Entendo… bem, me parece que é importante você dizer isso para ela.

  • Porque?

  • Porque é quem você é. A opção é ficar fingindo que você gosta de fazer isso.

  • Putz… mais essa!

 

Talvez um dos pontos mais importantes e menos discutidos sobre relacionamentos seja o dos defeitos. Hoje venho trazer ao leitor à reflexão: o que fazer com os seus defeitos?

Um trabalho que tenho desenvolvido vem na linha de aprender a deixar claro à pessoa com que você se relaciona os seus defeitos assim como a maneira de lidar com eles. Em outras palavras – mais assustadoras talvez – dizer claramente para o outro quais os seus defeitos e problemas.

Isso não deve ser feito numa alegação de vitimização “ó… eu sou assim, mas me compreenda, eu sofri quando criança” e nem em uma situação que espera ganhar poder através disso “eu te avisei que sou assim, agora me aguente”. Deve ser feito compreendendo que um problema é um problema e que é importante o outro saber disso para administrar melhor a relação com você, porém a responsabilidade sobre o problema continua sua.

A atitude é mais ou menos assim “eu tenho este problema, sei que sou difícil e você tem a liberdade de me avisar quando estiver sendo assim. Algumas vezes vou escutar e em outras, quando eu não conseguir me conter, prometo que vou sair de perto para me acalmar e depois a gente conversa, é um limite meu.” Isso garante que o outro não se torna responsável pelo seu defeito e, ao mesmo tempo, compartilha dele na convivência com você. Ao mostrar como lidar com o problema você assegura a sua responsabilidade frente ao seu problema.

O grande problema para isso ocorrer é que ninguém que assumir e muito menos falar abertamente sobre os seus defeitos. E o problema com isso é: não dá para esconder os nossos defeitos, mais cedo ou mais tarde, em um ou outro tipo de situações eles sempre se mostram. A ideia de falar abertamente – e cedo – sobre eles é deixar claro para a pessoa se ela topa conviver com estes defeitos. Num outro post escrevi sobre esta necessidade do mundo atual: falar sobre os defeitos da relação.

Nossa obsessão com a satisfação é o que faz com que criemos expectativas irrealistas sobre nós, os outros e as relações humanas. Não quero dizer, com isso, que você deve viver numa relação ruim para você, mas sim que todas as relações possuem problemas. John Gottman um estudioso de relacionamentos humanos em seu livro “Os 7 princípios para o casamento dar certo” afirma  que existem problemas que não são solucionáveis num casamento, ou seja, serão problemas que vão acompanhar o casal para sempre e ainda afirma que a ideia de que um casamento bom é aquele no qual as pessoas resolveram todos os seus conflitos e seguem sem nenhum problema é  falsa. Assim sendo a afirmação do problema e a negociação para viver com o problema e em harmonia é a chave para um casamento realmente satisfatório e não a completa exclusão de problemas.

Porque viver numa relação com problemas você pode ser perguntar. Em primeiro lugar porque o mundo não está aqui para satisfazer as nossas necessidades. Em segundo lugar porque viver a vida é aprender a lidar com problemas e não a não viver com eles, problemas nos fazem crescer. E em terceiro lugar, porque não? Afinal se relações tem problemas a vida também os tem!

E ai, quando você vai marcar aquela conversa sincera com o seu conjugue?

Abraço

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Peito aberto
26/09/2014

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  • Tenho medo sabe?

  • Claro que sei e não tiro a sua razão.

  • Então, o que eu faço?

  • Como assim?

  • Eu to com medo! Vou fazer o que?

  • Ir.

  • Ir?

  • Claro! Quem é que disse que o medo está errado? Ou que só podemos ir nos sentindo bem, alegres e 100% seguros?

  • (silêncio) E se doer?

  • Qual o problema? Dor mata?

  • … Não…

  • Então… agora… não ir e continuar pensando em “como teria sido se”… bem… isso não mata… mas dilacera a alma não é?

  • É…

 

 

Você já ouviu a expressão “de peito aberto”? Uso muito ela em meu consultório. Tanto que resolvi escrever um post sobre o assunto.

Em geral quando falo “ir de peito aberto” as pessoas logo entendem que estão se tornando vulneráveis aos outros e que esta abertura é para o externo. Não estão erradas, porém, esquecem do princípio que norteia isto tudo. O que é “abrir o peito”?

Abrir o peito é um assunto religioso. Como assim? No sentido  estrito da palavra, religião significa “ligar novamente”, re – ligio, do latim. Ligar novamente a pessoa à sua experiência, porém para partirmos do princípio que é necessário religar, precisamos entender que a ligação uma vez existia e que a mesma foi cortada. Abrir o peito é a minha maneira de fazer religião, religar-me ao mundo, ao mistério e ao desejo.

Só podemos nos relacionar quando estamos dispostos à nos ir na base daquilo que nos afastou num primeiro momento. Em outras palavras, se me afastei de algo preciso me permitir a aproximação novamente para que eu possa entrar, novamente, em contato e poder me relacionar. Esta permissão de que falo é o tal do “abrir o peito”. Permitir-se a experiência. Abrimos o peito não quando o entregamos ao outro, mas quando o entregamos à nós mesmos, ao nosso desejo, à expressão que está sendo criada dentro de nós.

Porque tememos isso?

Uma das explicações que tenho estudado no momento tem a ver com algo que Nietzsche perguntou: porque, necessariamente, quem deseja é o sujeito? Me parece uma pergunta válida e que vai num ponto nevrálgico da nossa própria experiência. Quem nunca sentiu algo que parecia estar dentro de si como se fosse um intruso, algo cuja sensação que temos é exterior à nós, mas, ao mesmo tempo sabemos que está ali dentro. Eu creio que a indagação de Nietzsche tem a ver com essa percepção: de quem o nosso desejo nem sempre “é” “nós”.

Assim o temor, muitas vezes, é pelo fato de que sabemos que, ao abrir o peito, entramos em contato com elementos que não são usuais para nós, elementos que não sentimos como “eu”, enfim… que não temos controle. E daí o medo. Quando o peito está aberto nos entregamos à experiência, e muitas vezes ela nos causa a sensação de ser maior do que a gente… na verdade… ela é, porque ela nos engloba. O “eu” faz parte da experiência, ele vive a experiência e quando se percebe esta relação ficamos com medo de nos perder nela.

No entanto, enfrentar este medo é o primeiro passo para quem deseja viver o sagrado da vida. quando digo “sagrado” não estou fazendo referência à religião, mas sim à experiência de estar num âmbito – por assim dizer – que está além do cotidiano, ou seja além do profano, que é o âmbito da experiência de estar vivo, de estar vivendo a sua auto expressão, de sentir-se ao mesmo tempo, parte e todo de uma experiência. Todo enquanto ser, parte enquanto ser vivente de uma experiência.

É esta experiência o que tememos porque sabemos que ela é mais ampla do que nós. Porém, uma outra maneira de perceber esta experiência é exatamente percebê-la pelo viés de que ela nos contém, ou seja, ela é um invólucro dentro do qual existimos e nos expressamos. É dentro dela que podemos viver, é com ela que entramos em contato com o “ir além”, com o “vir a ser” e sem ela vivemos, mas sempre dentro de uma certa redoma que nos afasta, que nos fecha o peito à experiência da vida.

Com base nessa percepção que podemos invocar o grito dos índios americanos “é um bom dia para morrer”, esta é uma frase que traduz bem o sentimento de ir para a vida na sua plenitude. Isto é abrir o peito à experiência máxima de estar conectado com a vida que é estar conectado, também, com a morte. E porque esta conexão é importante? Porque entrar em contato com o “vir a ser” é, um pouco, como entrar em contato com a nossa morte, visto que não controlamos a experiência e que, de certa maneira, estamos nos transformando, deixando uma forma para trás e vivendo outra o que é, parecido, com a morte porque nos obriga a desfocar do corpo que experimentamos e entrar em contato com uma nova experiência que vai além dele, mesmo que o contenha.

Mas, como Nietzsche, bem apontou, esta é uma jornada para os corajosos. Não é qualquer um que deseja empregá-la ou que a suporta. Creio que uma das funções da terapia é ajudar a pessoa a conseguir suportar isso para que ela possa ir de encontro com a sua jornada interior.

Abraço

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Tão você
24/09/2014

 

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  • Eu descobri uma coisa sobre o meu término

  • O que foi?

  • Que o pior não foi ter terminado.

  • Não… o que foi?

  • Eu já não estava muito bem antes.

  • Sei.

  • E isso foi o pior, porque eu entendi algo que me deixou bem mal

  • O que?

  • Que eu tinha me deixado… muito antes de ter sido deixada.

  • Hum… cruel não?

  • Sim e até percebo que ele não poderia me amar mais mesmo, porque eu me abandonei… não era mais uma pessoa “apaixonável”

  • Sim… entendo…

 

Quando entramos em um relacionamento é natural que a nossa identidade se dissolva levemente na identidade do outro e na relação em si. Isso é um processo natural, normal e que é saudável para a manutenção e crescimento da relação. É quando começamos a nos pensar em relação ao outro e em relação à nossa própria relação. Quando uma decisão é refletida a partir do nosso querer e do que é melhor com relação à um terceiro e à relação que tenho com esta pessoa.

Quando a pessoa, no entanto, passa a refletir tudo apenas em relação ao outro existe um problema. O que não é saudável é quando a relação e o outro são colocados em primeiro lugar e/ou sempre em primeiro lugar. Porque isso é danoso? Pelo fato de que isso coloca as necessidades pessoais de quem age assim sempre em segundo plano e elas não podem estar sempre em segundo plano, outro efeito colateral é sentir culpa pelo fato de desejar alguma coisa que é tão danoso quanto o primeiro.

Se o conjugue se torna o único da relação não existe mais relação. Tudo o que ocorre passa a ser um pedido desesperado por afeto e aprovação. Esta humilhação desgasta qualquer pessoa e qualquer relação, é apenas quando existe um parceiro com quem interagir que algo pode ocorrer. Você pode dançar sozinho, mas não pode dizer que está dançando de dois enquanto dança sozinho. A pessoa que coloca o outro sempre em primeiro lugar está fazendo exatamente isso, deixando o outro dançar sozinho. É uma forma de abandono porque quando a pessoa se abandona ela deixa o outro sem ela e é uma dor muito difícil e estranha de ser sentida.

Para reverter o quadro não basta voltar a fazer as coisas que você gosta de fazer. Isto é importante e necessário e faz parte de um processo que é aprender a se recolocar perante si mesmo em primeiro lugar. Este é o processo mais importante. Aprender a merecer novamente apenas por si, dizer “nãos”, colocar a sua vontade e, por vezes, fazer algo sozinho. A relação lucra muito quando ambos conseguem ter vidas próprias além da vida em conjunto. Novamente, como eu disse existe algo saudável em deixar sua identidade se fundir com o outro e com a relação, porém os limites precisam ser estabelecidos e o limite é quando eu sei que eu ainda sou eu e tenho esta diferença bem posicionada. É quando sei que amo o outro e mesmo assim sei que não preciso concordar com ele em tudo e que não preciso ceder à tudo para ser amado por ele.

É importante que fique registrado que o fundamental não é o afastamento do outro, mas sim a aproximação consigo. Não se trata de não fazer porque é o outro quem está pedindo, mas sim de não fazer – por exemplo – porque é algo que me agride, com o que não concordo radicalmente. Ou então, de se permitir fazer algo que seu conjugue sugeriu porque lhe parece uma boa dica. Sempre coloco para alguns clientes que você só se perde numa relação caso se abandone, não é o outro – neste sentido – que nos abandona, mas sim, inicialmente, nós mesmos. A dor de perder alguém que amamos só pode ser comparada à dor de perdermos a nós mesmos. A boa notícia é que estamos aqui para podermos reatar o contato conosco, para isso, precisamos abrir o peito e ousar novamente.

Abraço

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Vítima
18/08/2014

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  • Tenho uma novidade ótima pra te contar!

  • Oba, me conte então!

  • Lembra que trabalhamos para eu não me colocar como vítima né?!

  • Sim!

  • Consegui!

  • Opa!! Parabéns!! Me conte como foi?

  • Eu entrei lá, respirei fundo e comecei a pensar no meu futuro e em quem eu realmente sou: uma profissional com um sonho.

  • Ótimo.

  • Sim, e daí, a reunião toda fiquei em contato com isso e todas as coisas que ele falou para mim não me fizeram mal…

  • Que ótimo!

  • Na verdade… até me deram um certo estímulo sabe? Eu sai mesmo do papel Akim!!

  • Parabéns!! Mereces!!!

 

Muitas pessoas passam por situações difíceis na vida e conseguem passar por estas situações de uma maneira altiva, mesmo sofrendo humilhações, privações e até mesmo violência física e moral. Ela sofrem, se entristecem, sentem raiva assim como qualquer pessoa, porém nunca se identificam como a vítima da situação. Isto faz toda a diferença.

Não se trata de fingir que esta numa situação diferente da que se está ou de achar que não se está sendo molestado. Aceita-se estes fatos, porém não existe a identificação com o papel que a situação está demandando. O que significa “não se identificar” com o papel de vítima?

Podemos entender isso como se fosse um teatro: existe o papel de vítima e tudo aquilo pelo qual a vítima terá que passar. A pessoa pode até passar pelas situações, mas dentro dela ela não se diz – por exemplo – “sou uma vítima”, “porque comigo?” ou “o que fiz para merecer isso?”. Identificar-se é quando assumimos uma identidade e, com ela, um determinado papel, que envolve uma forma de sentir, de pensar e de agir.

A identificação com o papel de vítima é o que realmente transforma a pessoa em uma. A partir disso ela passará a ver o que ela faz e o que ocorre com ela sob esta perspectiva e então estará “presa” nesta “fantasia” que envolve o papel. Uma vez nesta fantasia ela passa a ver o outro como seu carrasco, ela como vítima e a situação como uma prisão frente à qual ela é impotente – visto que é vítima.

As pessoas que não adentram no papel passam pela mesma situação, porém se identificam, por exemplo, com o papel do “sobrevivente” e se dizem: “não importa o que está ocorrendo agora, eu vou sobreviver à isto e ter uma vida boa mais tarde”. Temos entendido que este compromisso com o planejamento de um futuro é fundamental para a vivência no momento não se tornar tão traumática.

Este compromisso faz com que a pessoa viva as injustiças como o que são: injustiças. Um dos maiores trabalhos que a maior parte dos psicólogos tem que fazer com pessoas vitimas de injustiças e violências é, justamente, retirar delas a culpa sobre o que lhes aconteceu visto que é muito comum que as pessoas tentem assumir a responsabilidade pela injustiça que lhes causam, porém isto é contraprodutivo e, também, errado visto que uma injustiça é sempre uma injustiça.

Assim como quando a pessoa se identifica com o papel de vítima ela passa a ver tudo sob esta ótica, quando ela sai deste papel e se identifica com um mais adequado para a situação ela também dá um novo sentido ao que lhe acontece e à quem é. Esta mudança é o que pode ser a sua salvação, aquilo que irá dar à ela a percepção do que lhe aconteceu.

Abraço

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Traição
23/07/2014

Descubra como cada signo lida com a traição

  • Está muito dolorido…

  • Eu imagino.

  • Não consigo parar de pensar e nem esquecer.

  • Não creio que você vá esquecer, mas parar de pensar, com certeza… mais cedo ou mais tarde.

  • Tomara que sim.

  • Neste momento eu gostaria de saber mais sobre as suas emoções.

  • Raiva, medo, tristeza… vontade de esmurrar ela!

  • Claro, claro… Você expressou estas emoções para ela?

  • Não… eu fiquei que nem um bloco  de gelo na frente dela.

  • Entendo… como seria mostrar estas emoções – obviamente, sem esmurrar ela, mas mostrando a raiva que você sente?

  • Acho que seria bom… ela precisa ver isso que eu estou mostrando aqui.

  • Sim, precisa!

 

A traição é um dos atos mais dolorosos em uma relação conjugal. Ela toma por base a quebra de um acordo, no qual ambos os lados depositaram confiança. O ato deste depósito de confiança é realizado voluntariamente e possui um adendo: ele não tem garantia nenhuma. Por este motivo a pessoa que se compromete verdadeiramente está sempre vulnerável neste sentido e, por este motivo, a traição é um ato tão doloroso: sempre nos pega abertos.

De um outro lado, dificilmente se vê uma traição ocorrer em uma relação saudável. Em geral as pessoas que são traídas sempre dizem que desconfiavam de alguém e, muitas vezes, não chegam nem a se surpreender ao saber com quem o conjugue a traiu. Este conhecimento deriva da percepção de que a relação está ruim o que leva à uma diminuição no comprometimento com o outro e com os acordos estabelecidos entre eles.

A maneira pela qual as pessoas reagem à traição está profundamente ligada à maneira pela qual estão vinculadas a relação, assim como pela maneira pela qual elas lidam com seus próprios desejos. Embora a população de uma maneira geral diga que “me traiu acabou” a prática é muito mais complexa e mesmo que a pessoa traída termine, o término não é fácil porque, mais cedo ou mais tarde envolverá a ideia do perdão.

Sobreviver à traição requer mita energia e força de vontade. Aceitar a traição e se permitir sentir a dor que ela traz assim como a quebra do contrato são os primeiros pontos. Quando existe uma traição a relação termina, o contrato inicial foi rompido. Ela poderá ser reconstruída, porém um novo contrato deverá ser feito e isso exige muita maturidade e energia.

O traído precisa desprender-se da ideia de que causou a traição. Ele contribuiu sim, para a deterioração da relação, porém a escolha da traição é de parte de quem trai. Aceitar o que ocorreu com ele e verificar se existe ou não espaço para perdão e para manter-se com o conjugue são os passos seguintes. Tudo isso, vem, depois de uma profunda avaliação da sua própria auto estima.

O traidor precisa verificar os motivos pelos quais desejou realizar o ato, visto que isso pode significar que ele não deseja mais – em hipótese nenhuma – a relação. Também precisa aceitar o que fez e receber a dor e raiva do parceiro – caso deseje ainda a possibilidade de um perdão ou de manter a relação. Esta parte, para muitas pessoas é muito difícil e elas podem resolver sair da relação por não suportarem receber a dor e a raiva.

O casal precisa verificar se existe ainda entre eles uma emoção e um mínimo de convivência para que exista uma nova relação. A traição é, também, um momento de revisão de tudo o que um casal passou e a possibilidade de recriar um contrato mais saudável. Aceitação de responsabilidade, dor, tristeza são elementos fundamentais neste momento além, obviamente, da sinceridade.

Abraço

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Estranho ao amor
07/07/2014

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  • Não sei não Akim…

  • Porque não?

  • Ah… sei lá… é que assim: qualquer um pode dizer que está gostando de você e mentindo!

  • Hum… entendi. Bem, é verdade isso, mas porque isso aconteceria com você em específico?

  • Porque não?

  • Eu já disse que pode ocorrer, mas gostaria de entender porque com você?

  • Acho que eu sou fácil de ser enganada… não sei medir bem as pessoas…

– Como sabe disso?

  • Minha família sempre diz isso de mim…

  • E o que você acha?

  • Eu não sei ao certo… acho que é mais fácil eu acreditar em tudo o que me dizem porque no fundo preciso de alguém me dizendo isso, sabe como?

  • Não… como?

  • Ah… não sou exatamente o tipo de pessoa que se ama… então quando alguém diz para mim que me ama, que eu sou especial eu meio que grudo nisso entende?

  • Ah sim, entendi…

 

Muitas pessoas sentem-se “estranhas ao amor”. Esta sensação vem com vários tipos de argumentos como o que coloquei acima “sou facilmente enganada”, “não sou uma pessoa para ser amada”, “as pessoas mentem”, “todo(a) homem (mulher) é sacana” que são defesas criadas contra a experiência de amar.

O argumento que afasta a pessoa do amor é aquele que a faz inconscientemente buscar um refúgio em sua “zona de conforto da solidão”, ou seja, a pessoa aos poucos começa a preferir as fantasias de dor que possui do que se entregar experimentando novas relações e novos pontos de vista sobre si mesmo, relacionamentos e a própria vida.

Sempre que percebo argumentos que são rígidos em demasia sei que existe uma defesa contra algo. No caso das relações as pessoas constroem estas ideias rígidas através de suas primeiras relações com pais e figuras importantes. Por terem sido criadas nesta época elas tendem a ser rígidas porque as crianças não tem uma mentalidade tão flexível quanto a do adulto, em geral, é muito difícil a criança conseguir relativizar alguma coisa porque isto demanda um cérebro mais amadurecido.

A questão é que não apenas a pessoa pensa nas relações de uma determinada maneira, ela também cria uma identidade própria além de comportamentos que a levam sempre ao mesmo cenário. Assim sendo, mesmo que o parceiro possa não ser aquele bicho papão, a pessoa começa a se comportar de uma maneira que a faz reproduzir na relação cenas parecidas com as que viveu no passado. Ao viver isso a pessoa “confirma” a sua teoria e então começa a fechar-se ao amor novamente.

O problema é que, geralmente, a pessoa já está fechada para o seu amor próprio. A auto imagem e a auto estima não estão bem estruturadas porque foram criadas com base nas deficiências que ela tinha na relação com pais, familiares e outras pessoas importantes. O foco no “você é mau”, é maior do que o foco no que a própria pessoa faz de bom e, assim, como ela pode criar uma boa auto imagem e respectiva boa estima? Não pode. Terá, na melhor das hipóteses uma auto estima dúbia, ou uma pseudo estima que fará com que ela “ache” que está tudo bem, até que seja “testada”.

Qual o teste? Por incrível que pareça: o amor. Ser amado realmente ataca as crenças negativas que temos à nosso respeito. É um teste: “esta pessoa diz que você é linda, maravilhosa, inteligente… você acredita nisso? Não estou vendo isso aqui na sua própria auto imagem mocinha… o que acontecerá quando esta pessoa ver você como realmente é?” Abandonar a auto imagem negativa significa se recriar a partir de uma perspectiva nova e amorosa, mas se a pessoa nunca confiou plenamente nela mesma, como o fará agora “só porque tem alguém dizendo que ela é especial”?

O primeiro passo consiste em desafiar você mesmo os seus pensamentos negativos à você mesmo. Quando a pessoa começa a fazer isso ela está, ao mesmo tempo, dando um basta à auto crítica e dizendo “eu mereço ser feliz”. Este enfrentamento se faz necessário e ajudará a pessoa a “abrir brechas” nas suas defesas permitindo que o novo entre e, com isso, buscar uma maneira nova de se ver e se perceber no mundo.

Que tal começar agora?

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Alguém na multidão
20/06/2014

wally

– Mas você não acha isso muito egoísmo?

  • O que você acha?

  • Ai… não sei…

  • O que realmente está sendo difícil para você assumir?

  • … Se eu fizesse isso eu estaria muito mais feliz com toda certeza…

  • O que tem de errado em assumir isso?

  • Talvez ele não fique tão feliz assim.

  • Pode ser… mas na atual situação nem ele e nem você estão felizes.

  • Pois é… me dá medo.

  • Sim, mas ao mesmo tempo é sincero não é?

  • É…

 

Talvez uma das coisas mais difíceis para o ser humano atualmente seja constatar um fato um tanto inusitado: que ele se ama, apesar dos pesares.

Uma das tarefas que a terapia busca cumprir é ajudar a pessoa a se reencontrar com este fato. Ele é difícil pelas inúmeras instruções que recebemos e que adotamos para sentir que temos imperfeições, que precisávamos fazer mais, que não demos tudo de nós… enfim… que não podemos – como poderíamos? – simplesmente nos amar tal como somos, tal como estamos. É interessante, mas a menção disso para muitas pessoas provoca revolta.

No entanto, por mais revoltante que possa parecer à alguns a minha experiência me mostra um fato: quem se inicia na estrada do amor próprio tem sempre como primeiro movimento aceitar-se e relaxar naquilo que já é. Este primeiro passo leva ao segundo que é, muitas vezes, uma grande provação: aceitar o próprio desejo. É comum temer o desejo e buscar se afastar dele, achá-lo egoísta, inadequado, ou um ato de rebeldia tola que nos levará à solidão.

Aprender a se aceitar envolve aprender a aceitar os nossos desejos e a termos a iniciativa de darmos à eles a nossa personalidade, ou seja, de escolhermos o que vamos fazer com aquilo que existe dentro de nós. Quando isso começa a ocorrer o medo do desejo começa a ser algo diferente: uma afirmação da vida que nos coloca numa situação que nos traz medo por empurrar-nos para longe de nossa zona de conforto. Para que possamos ir além e, ao fazê-lo, nos tornarmos nós mesmos, expressando nós mesmos. Não é o desejo que tememos, mas sim aquele vácuo entre agora e “daqui a pouco” quando me tornarei algo diferente.

No entanto, aquele que se aceita não é uma vítima de seus impulsos como pensa-se por aí. Pelo contrário, ele assume seus impulsos, aceita, usa-os como matéria prima de si próprio. Sua ação possui intenção clara e uma conexão com seu desenvolvimento tão bela que pode até assumir o caráter de intuição. Tornar-se alguém, como a própria expressão sugere é uma ação no gerúndio, ela não visa um “fim”, mas sempre um “sendo”, “criando”, “acontecendo” que quando toma à si próprio nas mãos se perde e quando se perde de si começa a ser.

É este perigo do meio do caminho o que se teme. Ao mesmo tempo, o heroico mergulho neste universo é o que nos alimenta a alma e nos torna “alguém” para nós mesmos. Afirmar o medo que a vida traz consigo, o horror, a dúvida é assumir que para viver é preciso ter o coração forte. Amar a vida por estar acostumado a viver é diferente de amar a vida por estar acostumado a amar. E o amor é para quem é forte pois nele todas essas provações encontram-se a todo instante. O amor é gerúndio por definição, é sempre uma conversa na qual os atos servem como palavras.

O amor por si é o primeiro e talvez o mais difícil de ser vivido por esta razão. Amar-se significa buscar sua expressão, evoluir e ir além de si. Porém quando deixo de ser quem sou para “tornar-me” estou sempre abandonando uma parte de mim para ir em direção à uma nova parte ainda não criada. Este jogo eterno é o que se teme pois amar-se, paradoxalmente, é amar o processo que nos deixa sempre em dúvida sobre o que amamos: aquilo que somos agora ou aquilo que seremos. Porém este paradoxo resolve-se quando se entende que não amamos um ou outro, mas sim este processo, pois é nele que se encontra o “ser”.

Abraço

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