Paz com o desejo
06/06/2014

paz_interior

  • Lembra que semana passada eu disse que precisava ficar em paz comigo?

  • Lembro, como ficou?

  • Então, descobri que não era “comigo”, mas sim com os meus desejos.

  • Ah… muito bom! Olhe que bacana. E como foi isso?

  • Bem, na verdade está sendo. E tem um sentimento que eu acho que não deveria estar aí.

  • Qual?

  • Tristeza.

  • Hum… porque não deveria?

  • Ah sei lá… entrando em contato com o meu desejo e sinto tristeza? Cade a empolgação né?

  • Ah sim… mas vamos lá… o que será que essa tristeza está querendo dizer… em geral tem a ver com perdas… será que você perdeu algo?

  • Hum… o que eu acho é o seguinte: que eu estou triste por ver que não consegui ainda fazer o que quero… e que as pessoas com quem eu quis isso não queriam a mesma coisa.

  • Ah… entendo. Então a tristeza está bem posicionada, afinal.

  • É…

  • Mas, se aquelas pessoas daquela época não quiseram… por você ainda está triste?

  • Acho que é porque eu ainda não me dei outras opções sabe? Como se ainda estivesse fechado naquele mundo.

  • Hora de sair então?

  • Pois é… hora de sair…

  • O Dalai Lama tem uma frase que eu acho muito poderosa e perfeita para você nesse momento: “Nunca estrague o seu presente por um passado que não tem futuro”.

 

Este caso me fez pensar muito durante um bom tempo. Todo o processo anterior e o posterior são frutos de algumas indagações minhas assim como de algumas conclusões importantes.

É tão interessante a capacidade que o ser humano possui de permanecer anos no mesmo lugar emocional, utilizando da mesma emoção para organizar o seu modelo de mundo, suas atitudes e sua interpretação da vida. A pessoa em questão já estava com seus 30 e poucos anos, mas as referências ainda eram muito precoces.

Outro elemento que sempre me chamou a atenção nesse caso foi o poder que algumas negligências podem ter sobre a pessoa. Este caso, não foi o caso de negligências físicas como o recém nato ficar sem comer, porém as negligências e abusos ocorreram em relação à sua autonomia e saída para o mundo pautadas sempre por violentas discussões e desaprovação velada – muito pior do que a explícita.

Uma outra questão é, também, sobre como a superproteção não protege aquela pessoa que se visa proteger. É um tanto paradoxal isso, mas faz completo sentido, afinal os pais super protetores protegem, na verdade, os seus medos e não a criança em si que se torna vítima deste comportamento dos pais.

Pensamentos à parte eu deveria ajudar a pessoa. Então como foi que fizemos?

Quando ela pode acessar o desejo dela passou por um estado depressivo durante algum tempo. A primeira ideia foi acolher a tristeza e a falta de energia que vieram, pois estavam falando de anos de uma perda e de uma incapacidade de mudar o comportamento do outro. A pessoa estava, na verdade, profundamente exausta, desamparada e frustrada.

O primeiro passo foi acolher a tristeza e permitir que ela descansasse e desabafasse. Foram algumas sessões nas quais a maior parte do tempo a pessoa chorou copiosamente por tudo aquilo que quis e que não pode obter. Choro, raiva, frustração… aceitar essas emoções, diminuir a tensão interna e descansar, foram as primeiras atitudes importantes visto que nem mesmo esta tristeza teve lugar antes, além de frustração a pessoa inda precisava engolir o choro, sempre, durante anos. Complicado não?

O segundo foi ajudá-la a sair da frustração e entrar na decepção e depois no estado de desistência. Porque? Porque o desejo dela estava mais do que claro que não seria correspondido, além disso dependia de tantas variáveis que ela não poderia controlar que era muito mais adequado abrir mão dele do que continuar tentando, além disso, manter-se presa naquele desejo daquela maneira estaria condenando ela à mais sofrimento ainda e ela precisava viver, afinal já chegara aos 30 e ainda não se sentia nem de longe realizada em sua vida.

O terceiro foi lidar com o desamparo. Essa foi a parte mais difícil porque consistia em ajudá-la a criar um senso de importância pessoal que não lhe foi dado na família de origem. Ela precisava entrar em contato com seus desejos, validá-los e verificar quais eram adequados para ela neste momento de sua vida e quais não eram. Abrir mão de alguns e manter outros com as alterações devidas ao momento de vida dela. Com isto em mãos ela pode, aos poucos, construir uma sensação de que ela merecia aquilo e que o futuro seria melhor com tudo aquilo e que não havia nada de errado, pelo contrário, tudo de certo naqueles desejos.

Depois disso a ideia passou a ser como ajudá-la a ir em direção ao mundo. Esta parte foi um tanto mais fácil, pois tiveram apenas pequenas questões de adaptação à realidade e ela aceitava bem estes limites visto que o “prêmio” que a aguardava por conseguir o que desejava era muito mais importante do que ficar brigando contra a realidade – você quer ter razão ou ser feliz?

Ainda hoje este caso mexe comigo e me faz pensar sobre a quantidade de tempo em que passamos não sendo sinceros com nós mesmos por medo, vergonha ou culpa de simplesmente desejar uma vida melhor na qual possamos expressar as nossas forças e virtudes buscando algo melhor para nós  e para o mundo. Como são profundas as amarras que nos prendem à estes pensamentos.

Porém, também sempre penso na incrível capacidade humana para se reinventar, sobreviver e buscar a felicidade mesmo tendo que engolir em seco o tempo que passou. Esta capacidade presente em todo o ser humano é sempre a primeira coisa que busco nas pessoas com quem trabalho, muitas tem medo ou até mesmo raiva dela, mas sua presença é fundamental. Sem ela perecemos, mesmo num oásis.

 

 

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Paz interior
28/10/2013

– Eu tenho tentado buscar a minha paz comigo mesmo sabe?

– Sei, o que você tem feito?

– Bem, você sabe que eu gosto de meditar, então durante a meditação eu penso em algo que estou em conflito, que está me incomodando.

– E daí?

– Daí que eu tento me tranquilizar em relação aquilo?

– De que forma?

– Bem… eu busco relaxar, aceitar o que estou fazendo, o que estou sentindo e me pergunto o que eu quero com aquilo sabe?

– Sei e como a paz vem?

– A paz tem vindo quando tudo isso fica como que integrado sabe? Quando eu paro de ficar ansioso ou brabo comigo por causa do que eu fiz ou estou fazendo. É tipo uma aceitação que pode querer mudar.

– Entendi, muito bom isso hein? Como estão os resultados?

– Muito bons… acho que era isso que eu precisava em terapia sabe?

– Com certeza!

O que é a paz interior que tantas pessoas querem?

Uma forma simples de entender “paz” interior é de perceber um ser que não está em guerra consigo próprio. Se não existem conflitos temos que supor que não há guerra e, portanto, existe paz. Embora pareça simplista, pense em quantas vezes você lutou contra algo que estava pensando, sentindo ou querendo fazer? Quantas vezes esta luta se deu por causa de valores que não tinham nada a ver com o contexto no qual você estava? Tudo isso se relaciona com a paz interior.

Quando não se consegue aceitar um sentimento, um pensamento, um desejo precisamos frear este impulso e afastá-lo até mesmo de nossa consciência, em geral isso se dá por não sabermos como lidar com o que está emergindo. Aceitar, como meu cliente bem disse não significa seguir o impulso, mas perceber que ele está ali e então relacionar-se com ele. Permitir que tudo o que existe em nós exista em nós. A paz permite a existência, a guerra não.

Além de aceitarmos é importante que saibamos o que fazer com aquilo que existe em nós. Saber lidar com um desejo, com um pensamento, com uma emoção é fundamental para que saibamos permitir-lhe a existência. Muitas pessoas “não querem sentir” alguma emoção por não saberem como lidar com elas, por exemplo, ou ficam com medo de um determinado desejo porque não sabem como lidar com o desejo. Tem medo de serem inadequadas em detrimento do que possa aparecer em suas mentes e corações, porém não é aquilo que pensamos, sentimos ou desejamos que nos mostra quem somos, mas sim o que decidimos fazer com isso.

Desta forma, num nível mais profundo, a “paz interior” significa não estar em guerra e além disso buscar harmonia interior percebendo o que existe em mim e descobrindo formas responsáveis de lidar com o que existe em mim. Este “segundo nível” vem depois que aprendemos a nos aceitar e retirar toda a culpa e arrependimento que possamos ter em relação ao que fazemos e fizemos em nossa vida.

Retirar a culpa e arrependimento significa aprender com os erros e nos perdoar buscando sempre remediar o que for possível e nos comprometendo em nunca mais repetir algo que julgamos inadequado. É um compromisso pessoal e não – apenas – social. Não tem a ver com a integridade do outro com quem me relaciono apenas, tem a ver com a minha e isso é um compromisso poderoso.

A harmonia vem quando sabemos apreciar o nosso processo de vida sem medo, culpa ou vergonha do que ele nos oferece e conseguimos decidir de forma completa – envolvendo o pensamento, a emoção, a ação, nossos valores, contexto e momento de vida – sobre como reagir frente ao que estamos querendo e desejando. Da harmonia consigo nasce a paz, pois as partes em conflito dentro de nós não precisam mais lutar.

Abraço

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