Abrir mão
24/12/2014

cronica-o-dia-que-eu-decidir-abrir-mao-de-voce-234669-1

  • Você está me dizendo que eu devo simplesmente aceitar que acabou?

  • Não que você “deve”, porque isso é escolha sua, mas sim que seria mais saudável para você.

  • E porque você acha isso?

  • Porque é a verdade. Terminou.

  • (Silêncio)

  • Posso entender que seja duro, ruim, dolorido, que te dê raiva e vontade de matar alguém… mas é a verdade.

  • Eu não gosto disso!

  • Eu compreendo e também aceito isso, é realmente uma droga.

  • Então?

  • Mas…

  • É a verdade?

  • Sim.

  • É uma droga mesmo! Eu não quero saber de aceitar isso ainda.

  • Ótimo… esse “ainda” já está muito bom. Já deixa você aberta para poder fazer isso em algum momento.

 

No último post falei sobre o Natal e alguns dos problemas que as pessoas enfrentam nesta época do ano. Neste post trago uma reflexão sobre o tema das perdas que eu considero ser complexo nesta época.

O Natal tem a ver com o início de um novo ciclo. Para os cristãos o nascimento de Jesus Cristo, para outras culturas esta mesma época está associada com novos ciclos do sol e oque significa que a vida tem que mudar novamente. Sempre que falamos em ciclos, falamos em movimento. Todo movimento envolve mudanças, toda mudança envolve algo que é perdido, algo que deixa de existir e isso envolve aprendermos a criar novas relações com o que foi e com o que está vindo. E esta é a reflexão de hoje.

Aparentemente o grande problema de todos nós com as perdas é o de criar uma nova relação com o que foi perdido. Se perdemos uma pessoa, uma época de nossa vida (faculdade, adolescência) ou alguma coisa a regra é a mesma: a maneira pela qual vamos nos relacionar com o que foi perdido é fundamental para assegurar um bom desvinculamento ou um grande problema.

Mas como se faz isso?

Socialmente está em vago a ideia do desapego, mas o que é, exatamente o desapego? Desapegar-se não tem a ver com não dar importância às coisas com as quais estamos vinculados, mas sim e saber, justamente, “surfar” na maneira de se relacionar com as coisas. Tudo em nossa vida tem a capacidade de ser transitório: pessoas, situações e lugares. De maneira mais concreta: as pessoas com quem nos relacionamos, o dinheiro que temos, os lugares que frequentamos, este momento de vida podem se acabar – e, em geral, vão -, por esta razão não adianta tê-los como algo permanente e sob o nosso controle, porque não está. Pessoas podem ir embora, morrer ou não desejarem mais se relacionar conosco. Dinheiro acaba, recessões podem começar, os lugares que gostamos podem fechar e o momento que vivemos hoje não será para sempre.

Quando nos relacionamos com estas coisas como fixas, dizemos à nós mesmos a pior mentira: nada irá mudar. Essa crença torna a perde extremamente dolorosa e difícil. Se “nada vai mudar”, “porque mudou”? Esta é a dor de quem perde algo. Se a crença é de que as coisas vão mudar pode-se assumir duas posturas: o niilismo “não adianta gostar de nada porque tudo vai embora mesmo” (que particularmente entendo como algo infantil, pois é uma negação à vida) e uma que gosto de chamar “é um bom dia para morrer” a qual assume a perda e vive o que há de bom nela mesmo assim, algo como o jogo de futebol só tem 90 minutos, sabemos que ele vai terminar, mas isso não nos impede de vê-lo.

Esta segunda entendo como mais madura e corajosa. Trata-se de afirmar o trágico da vida com postura adulta. Assumir que tudo o que ocorre no nosso mundo é transitório e que, por esta mesma razão, podemos usufruir de tudo com comprometimento e força, com a moralidade fortalecida para quando acabar que possamos, com a mesma graça e serenidade, nos despedir. Isso é desapego. É a competência para saber dizer adeus quando as coisas terminam, sentindo toda a dor e tristeza necessárias pela perda, fazer o luto e buscar novos desafios na vida, novos lugares, pessoas e situações para investir nossa energia. Não tem nada a ver com ser indiferente, pelo contrário. É como ir num encontro com os amigos num bar, beber, comer, conversar, rir, viver o momento e saber que quando ele acabar, acabou.

Espero que isso possa ajudar você a refletir de uma nova maneira sobre as perdas que sofreu ou está sofrendo – no caso de você estar passando por isso. Dar uma nova versão para nós mesmos daquilo que vivemos é o início de mudanças profundas.

Abraço

Visite nosso site: http://www.akimneto.com.br

 

 

Viver o seu morrer
28/11/2014

download (13)

  • Mas está difícil sabe?

  • O que é mais difícil?

  • Aceitar que ela se foi… eu tento me agarrar à ela nas fotos e nos vídeos…

  • Entendo… é difícil mesmo…

  • Sim…

  • O que aconteceria se você aceitasse a morte dela?

  • Eu teria que me desapegar.

  • Qual o problema com isso?

-Eu teria… que entender… que eu também posso ir um dia.

 

Em um livro chamado “Viver o seu morrer”, Stanley Keleman lança uma profunda e incômoda reflexão não sobre a morte, mas sobre o ato de morrer. O autor defende a ideia de que ninguém sabe exatamente o que há na morte, mas sabemos o que há no morrer que ele diz ser o nosso “último ato” nesta terra. Em outra palavras: você pode não ter certeza de para onde vai – se é que vai – após o morrer, mas o ato de parar de respirar é algo pelo qual você ira passar.

As reflexões de Keleman neste livro me fizeram desenvolver um trabalho que chamo de “a arte de abrir mão”. Ou seja, a maneira pela qual aprendemos a abrir mão das coisas, situações, pessoas e de nós mesmos. Um exemplo: muitas pessoas não conseguem “abrir mão” de sua adolescência. Passam a vida toda como se ainda fossem adolescentes – o que é diferente de fazer o luto pela adolescência, manter o que há de bom nela e seguir para a vida adulta.

A maneira pela qual a pessoa faz para manter “a mão fechada” nos ajuda a compreender como ela vive a sua própria vida e o como viverá, possivelmente, o seu morrer. Reflita: para você é fácil sentir que uma determinada etapa de sua vida findou e que está na hora de começar outra? Você tenta se agarrar a algo que sabe que não mais está ali por medo de ir para a próxima fase? Ou por não desejar lidar com a tristeza de perceber o fim daquela época? Como você se comporta com despedidas? Como você lida ao perder um jogo ou ao decidir deixar um determinado lugar?

Agora, de uma maneira ainda mais simples – e talvez por isso, mais incômoda: você consegue sair de um estado emocional quando ele não faz mais sentido para você? Ou mantém-se agarrado à ele por orgulho, por exemplo? Você desemburra rapidamente ou fica fazendo pose? Você mostra o seu afeto ou fica fingindo distância? Como abrir mão de uma forma que estamos usando é a pergunta central de todo o trabalho do autor com a morte porque, segundo ele, essa é a maneira pela qual vamos lidar com o fato de abrir mão do nosso corpo que seria a grande e última perda do ser humano.

Assim vivemos a nossa morte todos os dias nestes pequenos atos de pegar e abrir mão, de conquistar e desistir de algo ou simplesmente de deixar algo ou alguma fase ou alguma pessoa porque não é mais saudável manter-se ali. Estamos lidando com a qualidade do nosso apego e com os medos que podem advir do ato de se desapegar. Assim também trabalhamos com o lado saudável do desapego que seria perceber aquilo que realmente precisamos manter e porque.

A morte, no entanto, é inevitável, assim como as perdas. A vida portanto, nos dá muitas oportunidades de aprender a lidar com aquilo que perdemos e nos possibilita uma preparação para “nos” perder enquanto corpo que é a nossa identificação mais primordial. Veja suas fotos antigas e pense em quantos “corpos” você já perdeu. Tudo aquilo que você fazia com aquele corpo se foi, a sua percepção de mundo com aquele corpo de criança se foi. Lembro-me de que uma pequena sala era um enorme campo de futebol quando pequeno, hoje nada mais do que colocar um sofá.

Ao perder, você se ressente? Tem raiva do mundo ou simplesmente se entrega? A vida perde sentido quando as coisas são perdidas ou você busca uma nova maneira de viver sem aquilo que tinha? O que sentimos em relação às perdas é um bom indicativo de como vivemos e a nossa reação à estas emoções em relação à como vamos lidar com a morte. Arrependimentos? Culpas? Nostalgia?

Viver o seu morrer significa aprender a acompanhar o fluxo inevitável das coisas: da existência à não-existência, ou seja, daquilo que hoje é para aquilo que não mais é e sobre como lidamos com isso. Conta a história que um general que havia passado por muitas batalhas aprendeu a não se apegar mais à vida. Mais tarde já aposentado havia ganho uma bela e rica xícara do imperador para beber chá e numa destas sessões de chá quase deixou a xícara cair e desesperou-se com aquilo. Vendo a obviedade de seu apego pensou em todas as batalhas pelas quais passou e jogou a xícara por cima do ombro.

Moral da história: você na sua forma atual não é o termo último da sua existência (Joseph Campbell). Completo: nunca será e quando se for terá vivido todos estes termos, pronto para abrir mão deles?

Abraço

Visite nosso site: http://www.akimneto.com.br

Medo da perda
21/08/2013

– Tenho medo de perder ela.

– Ah é? Hum… o que motiva esse medo?

– Não sei te dizer… parece que o meu mundo acaba sem ela sabe?

– Sei, tem a ver com algo como: nunca mais vou amar novamente ou ela é a única mulher da minha vida?

– Algo assim… não acredito que posso encontrar alguém melhor do que ela.

– Hum… pode até ser, mas, até onde você me conta, você não está feliz com ela… não é um tanto paradoxal isso?

– (silêncio) Pois é…

– O que será que este seu “medo de perdê-la” realmente está mostrando?

– Não sei… o que?

– Pense. Você não está lá muito feliz com ela, mas também tem medo de perdê-la, o que está errado neste cenário?

– Falta de acreditar em algo melhor?

– O que te parece?

– Parece que sim… não é só nesta área que eu penso assim não é mesmo?

– Não, não é.

Medo sempre tem a ver com algo que não sabemos como lidar.

Perda com algo importante que se vai, afinal ninguém sente a perda de algo que não era importante.

Medo e perda se juntam quando não sabemos como lidar com a falta daquilo que é importante para nós. Em outras palavras: ao perdermos algo importante não sabemos o que fazer e isso pode significar várias situações, cada uma requer um aprendizado específico.

Uma das situações é quando a pessoa não crê ser possível conquistar o que perdeu ou conseguir algo melhor do que possui. Se a situação na qual a pessoa está parece ruim, ela ainda dá graças à Deus por estar nela visto que não acredita que conseguiria nada melhor ou que conseguiria algo igual caso perdesse o que possui. Isso cria um apego enorme à situação – ou pessoa.

Este apego é que a pessoa chama de “medo de perder”, é a marca registrada de que a pessoa não aprendeu ou não acredita que consegue algo melhor para ela. Assim sendo começa a supervalorizar o que possui numa tentativa de iludir-se dizendo-se que o que possui é muito melhor do que na verdade é, junto com isso, tenta burlar seus sentimentos de raiva e frustração frente ao que tem e não gosta.

Como eu disse anteriormente medo é falta de aprendizado, portanto, o que precisamos aprender em uma situação como esta?

Cada um é cada um, mas, de uma forma geral podemos entender que é importante a pessoa aprender a se valorizar mais. Isto vai ajudá-la a perceber o seu valor no mundo, suas capacidades e potenciais – costumo dizer no consultório algo assim: “naquilo que você já é bom hoje, sem mudar nada em você”. Valorizar-se desta forma ajudará a pessoa a questionar a crença de que ela é incapaz de conseguir algo melhor para ela e a cogitar a crença de que ela pode conseguir algo melhor, este é um dos primeiros passos a serem seguidos.

Um outro é criar uma imagem, uma lista do que você queria de verdade. Isto serve como um parâmetro entre o que você está se permitindo viver e o que você gostaria de estar vivendo. É como eu disse para uma cliente minha: se você não quer um homem “machão” é muito simples: não se envolva com um deles! Quando não deixamos nossos desejos claros para nós acabamos “aceitando gato por lebre” e depois queremos que a lebre ronrone.

Estes dois passos são o fundamental: ter uma ideia clara de para onde desejo ir, crer que isso é possível e acreditar-se merecedor disso. Daí em diante cada um terá suas dificuldades e facilidades pessoais e somente a vida de cada um vocês poderá revelar isso com o tempo.

Espero que você possa, ainda hoje, vencer o seu medo de perder o que quer que seja acreditando que o mundo lhe reserva experiências ainda mais fantásticas do que estas com as quais você pode sonhar hoje!

Abraço

Visite nosso site: http://www.akimneto.wordpress.com

%d blogueiros gostam disto: