Quando fugir prende
07/08/2015

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-Então Akim… estou meio preguiçoso.

  • Sei… o que está te incomodando?

  • Ah, um pouco de tudo na real…

  • Um pouco de tudo… o que é esse “tudo”?

  • Faculdade, namoro…

  • Reduziu bem já não é?

  • É… ah, sei lá…

  • Você está preguiçoso ou simplesmente não quer lidar com o que está acontecendo?

  • É… meio que a segunda sabe?

 

Fugir ou esquivar-se de uma situação são duas das várias respostas que nós podemos dar à um evento que nos é desagradável ou pode nos causar dano de alguma forma. Porém a fuga e esquiva nem sempre são uma boa solução, você sabe quando esquivar-se e fugir de uma situação pode ser prejudicial para você?

Quando fugir é importante? Quando percebemos que a situação está além do que podemos responder e irá nos prejudicar. Neste caso pode ser uma opção mais sábia dar um passo para trás do que tentar enfrentar uma situação desprovido de recursos. Como diz o dito militar romano: “o bom general sabe quando lutar e quando se retirar”. Esta estratégia, no entanto, vem com um adendo: a necessidade do aprendizado. Fugir ou esquivar uma situação nos mostra que, naquele momento, não sabíamos o que fazer, portanto, é necessária que a retirada seja estratégica, para agrupar novos comportamentos e aprendizados e retornar à “batalha”.

O problema que temos é que as pessoas tendem a fugir e assumem isso como um comportamento padrão. Frente àquilo que é “perigoso” ou à situações que “exigem” aprendizado a pessoa tende, cada vez mais a se esquivar, postergar e fugir. O problema com isso é que ela não aprende, mantém-se sempre no mesmo patamar de aprendizado emocional e comportamental o que acaba levando-a para um fim triste: o isolamento.

Fazendo um paralelo com o título deste post, é neste momento em que a fuga aprisiona. Fugir é um comportamento importante de se ter na manga, porém abusar dele  faz com que a pessoa fique estagnada e tenda a ficar rígida em seu padrão de funcionamento. Isso é problemático porque vivemos num mundo que se move, que muda diariamente e, fatalmente, a pessoa começará a ter perdas desnecessárias. Porque desnecessárias? Porque ela só perde pelo fato de não ter aprendido novos comportamentos para lidar com o mundo e está tendo perdas por causa disso.

Que tal um exemplo mais claro?

Uma pessoa que é, na adolescência, muito famosa na escola por ter uma pseudo auto estima demonstrada na forma de comportamentos rebeldes. Neste momento ela é admirada e desejada, tem status e um lugar de reconhecimento. Porém, quando cresce, mantém-se neste padrão. Não “atualiza” a sua forma de agir e tenta manter-se no mundo da mesma maneira. A pseudo auto estima é, na verdade o propulsor desse comportamento rebelde. O que a rebeldia esconde é uma pessoa com medo de falhar e que, por isso, questiona demais tudo e todos. Torna-se um adulto inoportuno e chato. Ao invés da pessoa assumir seu medo de falhar, ela mantém-se fugindo de  seus fantasmas através do comportamento rebelde, porém, ele tem vida curta e num nicho muito específico. Ocorre que, para sobreviver, ele precisa viver sempre buscando nichos e pessoas que ainda estão na mesma fase evolutiva que ele, à medida que elas crescem, abandonam-no e ele precisa, novamente, correr atrás. Este é um exemplo de como uma fuga pode aprisionar a pessoa, para sempre às vezes, num comportamento que não é útil ao seu crescimento.

Abraço

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Horários
27/07/2015

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  • Não sei mais Akim… tô muito perdido sabe?

  • Sim, entendo.

  • Está difícil para eu me manter nos meus horários, esqueço uma coisa, chego atrasado em outras…

  • Sim… o que tem a ver com você isso?

  • O que?

  • A dificuldade para determinar teus horários tem tudo a ver com você nesse momento.

  • Hum… não sei direito… eu também não estou muito feliz ultimamente.

  • Sim. Não sei, mas me parece que estes “atrasos” querem dizer algo sobre as atividades que você está fazendo.

  • Pode ser… não sei direito se quero fazer o que estou fazendo.

  • Imagino… quais as tuas prioridades neste momento?

 

Administrar o tempo, ao contrário do que se diz e se pensa é muito mais do administrar um conjunto de horas dentro de um dia. Tem a ver com a sua pessoa e o seu estilo de vida. A pergunta que sempre faço é: o que te motiva a usar teu tempo – que é limitado – nisso que você escolhe?

O tempo que temos é finito e não sabemos exatamente quando ira acabar. Isso faz dele algo único, o tempo de hoje não pode ser mais usado amanhã. Desta maneira quando escolhemos usar o tempo para determinadas atividades estamos, com isso, moldando a nossa vida de uma determinada maneira. Atrasos, como no caso acima podem ser uma indefinição à respeito do que fazer com o tempo ou da maneira pela qual a pessoa lida com suas escolhas.

Assim “atrasar-se” não é apenas uma questão de acaso, mas de estilo de vida. Porque sempre postergo aquilo que escolho, ao invés de resolver as coisas “na hora” é uma pergunta válida, por exemplo. Atrasar, neste aspecto, é uma escolha que deixo um pouco para depois – vale lembrar que neste posto falo sobre o comportamento de quem se atrasa sempre e não de um ou outro atraso ocasional.

Em terapia já atendi muitas pessoas que dizem: “mas não consigo chegar no horário, meu trabalho me prende”. Torna-se evidente logo mais que essas pessoas sempre deixam as suas escolhas pessoais para depois também, colocam-se em segundo plano em tudo. Assim, não tiram férias por causa dos filhos, não fazem seu lazer por causa da mulher – ou do marido, e não chegam no horário por causa do trabalho. O que eles estão realmente dizendo é que preferem deixar o tempo reservado para suas escolhas com outras pessoas e tarefas. “Se você esperar o mundo dar tempo para fazer o que quer, vai esperar sentado”.

Assim o uso que damos ao tempo está intimamente ligado à nossa personalidade e à maneira pela qual lidamos com nossas atividades e escolhas. É importante ver quais as prioridades que temos na vida e saber que a não ser que criemos a brecha na qual iremos fazer nossas atividades, o mundo irá sempre nos trazer demandas. Criar esta brecha e escolher usar o seu tempo para algo que você deseja significa não fazer outras coisas, por esta razão é que é importante que suas prioridades estejam bem organizadas, se não estiverem, vale usar um pouco de tempo para fazer isso.

E aí, que horas você vai viver a sua vida?

Abraço

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A importância da flexibilidade
17/07/2015

Flexibilidade

– Mas Akim, o que você quer dizer?

– Que você está muito rígido, não consegue flexibilizar o comportamento.

– Quer que eu não faça nada, é isso? Deixe ela montar em mim!

– Não, nada a ver com isso.

– Então o que?

– Simples: de que outras maneiras você pode ser atendido no que é importante para você?

– Como assim?

– Você quer que ela seja “companheira”, ok, mas ela deixou claro que estar o tempo todo disponível à você não é uma opção. De que outra maneira você pode senti-la como companheira que não essa?

 

A flexibilidade é uma característica importante para nossas vidas, mas compreender o que de fato é ser flexível é igualmente importante para que não se cometam erros de comportamento que prejudicam a vida ao invés de ajudá-la.

A primeira coisa que ser flexível não é, é ficar “engolindo sapo”. Em geral quando dizemos à alguém: “seja flexível”, a réplica vem à galope: “você quer que eu fique quieto frente à isso?” ou “não quer que eu faça nada?”. Este tipo de atitude vem de uma falta de compreensão sobre o que é flexibilidade e confunde flexibilidade com falta de atitude. Bem, flexibilidade é tudo, menos falta de atitude. Muito pelo contrário, para se ter esta característica é importante estar muito bem fundamentado em suas crenças e prioridades.

Em geral, o que ocorre é que as pessoas encontram uma forma de atender suas necessidades e desejos e se fincam nesta maneira como a única possível de obterem o que querem. Início do desastre. Porque? Porque ou elas levam sorte ou terão uma vida muito pouco rica. Em geral pessoas que são muito rígidas nas suas maneiras de atingir seus objetivos são mais infelizes e brigam muito com os outros por causa desta rigidez. Elas, também, não adquirem um auto conhecimento bom o suficiente para saber de que outras maneiras podem se satisfazer.

Flexibilidade é a habilidade que lhe permite ter vários comportamentos para atingir o mesmo fim. Ter flexibilidade, portanto, significa saber muito bem o que se quer. Saber o que é importante naquilo que se quer e entender quais são as maneiras possíveis de atingir este fim. A pessoa, para desenvolver a flexibilidade precisa ser criativa e ter foco firme (ou seja, longe da ideia de ser fraca ou não saber o que deseja). O foco é onde ela precisa chegar, a criatividade é o que a faz ter vários meios para atingir isso.

O primeiro passo é conhecer muito profundamente aquilo que queremos. As pessoas, em geral, tem noções vagas do que querem e do que é importante para elas nisso. Por exemplo: dizemos que queremos pessoas companheiras. Porém “companheira” se dá de que forma? Para que isso é, realmente importante? Uma coisa é uma pessoa que vá com você fazer compras, outra é uma pessoa que compartilhe suas emoções. Estes dois comportamentos bem distantes podem ser sinônimos de “companheira” e é muito óbvio imaginar que estes dois estilos de companheira atendem necessidades muito específicas.

O caso acima, por exemplo, traz uma pessoa que desejava disponibilidade integral além de exclusividade como sinônimos de “companheira”. Fácil perceber que eram critérios difíceis de serem atendidos. Porém, indo afundo percebemos que estes dois elementos eram uma forma de dizer que ele queria ser reconhecido por quem era. Ora, isso é mais fácil que disponibilidade integral, porém, de que maneiras perceber que ele poderia ser reconhecido? Começamos a compreender que ele poderia ter uma pessoa que soubesse elogiar e validar positivamente seus comportamentos em casa – onde ele era mais sensível – como fazer café e arrumar a cama.

Assim sendo passamos de uma pessoas que precisava ser o tempo todo disponível e gostar “apenas” dele para uma pessoa que soubesse elogiar seus movimentos. Isso é ser flexível. Além disso, ele expandiu seu repertório e começou a perceber que poderia ser elogiado no trabalho e em situações sociais, quando passou a dar valor à estas experiências a própria necessidade de recebe-las diminuiu e ele compreendeu que ele mesmo poderia se elogiar e, com isso, aprendeu a se dar valor. Isso é flexibilidade!

E você: rígido ou flexível?

Abraço

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Dai-me paciência!
13/07/2015

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  • Akim… hoje você vai se irritar comigo.

  • Ah é, porque?

  • Eu recaí novamente.

  • Entendi, o que aconteceu?

  • Ah… peguei a gúria lá de novo, não aguentei.

  • E o resultado?

  • O de sempre.

  • Ok. Bem, antes de entender a recaída, me diga: porque vou ficar irritado com isso?

  • Ah… a gente trabalha um monte e eu não mudo.

  • Hum, entendi. Mas veja, o simples fato de perceber que ficar com ela é uma “recaída” já é muito bom pra mim.

  • É… você sempre tem isso de olhar para o lado bom.

  • Você está mudando o comportamento, porque não deveria olhar para isso?

  • Mas foi muito tempo para entender isso.

  • Foi o seu tempo… talvez você esteja irritado com você não é mesmo?

  • É… talvez seja mais isso… eu sabia que ia dar errado… mas fiz de novo sabe?

  • Sei… e não te censuro por isso, acho que a sua dor já te basta.

Acredito que quase todo mundo já teve esta necessidade na vida: ter paciência. Muitas são as piadas com isso “dai-me paciência porque se me der força eu mato” ou “dai-me paciência, mas me dê agora!”. Porém a questão é sempre a mesma: como gerar este estado?

O primeiro engano é achar que devemos nos sentir neutros ou ignorar o que está acontecendo. Porque? Porque para ignorar eu preciso, primeiro, perceber e me incomodar. Ignorar é um esforço para tornar algo que está na minha percepção menos valorizado, porém o fato é que aquilo que me incomoda fica sempre na percepção o que, também, gera incomodo. Ser neutro é algo de outra esfera física, Ao humano não é possível “ser neutro”, ou seja, se algo mexe com a gente, simplesmente aceite isso e lide com a sua reação, este é o caminho para começar a ter paciência. E, por fim, é um engano porque as pessoas que são pacientes não são neutras e nem ignoram o que está ocorrendo, elas tem uma outra reação.

A estrutura da paciência requer que você perceba o que está acontecendo, de valor para o que incomoda. No entanto, quando digo dar valor, é importante saber “qual” valor dar. Pessoas pacientes entendem os elementos que as incomodam como algo que não é delas. Ou seja, o vizinho chato não é um “problema meu”, ELE é chato, neste sentido, ele tem um problema. Ao perceber a situação dessa maneira existe uma sensação de “estar de fora”, esta sensação causa uma tranquilidade.

Outro fator importante na elaboração do estado de paciência é observar o comportamento ao longo do tempo, para isso, a primeira condição (acima citada) é importante. Ao estar distante do comportamento posso entender a pessoa ao longo de sua história de vida. Vendo desta perspectiva ampla o comportamento que está sendo exibido saí do “momento” e entra na “história”, com isso é mais fácil perceber que a pessoa não está sendo assim “com você”, ela, simplesmente, é assim. Isso também ajuda a não levar para o lado pessoal, outra característica da paciência.

Ao ver o comportamento como algo construído ao longo do tempo, também é possível se colocar num papel diferente. Se eu não sou o alvo dessa pessoa maligna e sim, mas um com o qual ela se relaciona desta maneira, que posso ser? Posso ser um professor, posso ser alguém com quem ela poderá ter uma surpresa, posso ser uma pessoa que (finalmente) vai entendê-la, ou encará-la. Assumir este papel é lidar com o comportamento e não com a pessoa. Uma vez que esta perspectiva é assumida “ser paciente” não é algo com a pessoa e sim com a maneira dela se comportar. Isso cria um desapego em relação à mudar a pessoa o que culmina numa paciência mais estruturada.

Em resumo, podemos dizer que a paciência se organiza quando a pessoa percebe o comportamento como intrínseco da pessoa e dá atenção ao comportamento e não à pessoa (ou seja, não faz juízo moral dela e não leva para o lado pessoal), percebe este comportamento como algo gerado ao longo do tempo, se coloca numa atitude positiva frente ao comportamento e não assume como seu o problema, apenas a postura que irá assumir frente à ele.

E aí, ajudo ou tenho que ter paciência?

Abraço

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Sobre o tempo
24/06/2015

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  • Mas isso é muito chato!

  • Porque?

  • Porque vai acontecer só ano que vem!

  • Eu sei. Mas é o seu desejo não é?

  • Sim… mas eu queria agora!

  • Eu sei… mas não dá!

  • Porque não?!

  • Pergunte à natureza… ela que decidiu que bebes demoram 9 meses pra nascer… porque ao invés de pensar no que não está acontecendo agora você não presta atenção às várias sensações que terá enquanto grávida… será uma aventura inesquecível e, no final, passa rápido.

  • Hummmm

 

Você já pensou em como a sua maneira de perceber o tempo afeta a sua vida? Não, não estou falando de como a sua agenda está apertada, mas sim de como você encara a sua agenda.

O tempo é talvez um dos componentes mais importantes da nossa vida e um dos menos explorados. A única questão que vejo com frequência é que temos pouco tempo e como administrar o tempo. Mas pouco se fala sobre como vivenciamos o que chamamos de tempo. Por exemplo, você já percebeu que tem pessoas com um futuro muito claro à sua frente enquanto outras não sabem o que irão fazer na hora do almoço? Essa diferença é apenas em relação à criação de metas? Não, muitas vezes o problema não é com o desejo e sim em não saber olhar para o futuro.

Muitas pessoas, por exemplo, acham que pensar no futuro não vale à pena porque elas não sabem se vão poder fazer aquilo que desejam. Daí que mantém o futuro escuro, ou seja, sem planos. Pensar à longo prazo e conseguir visualizar um futuro não se trata de se ele irá ou não acontecer, mas sim da competência para fazer isso motivar os seus comportamentos atuais. Em geral pessoas com este pensamento, são, na verdade, reféns do presente. Ou seja, não é que elas não acreditam que podem ter um futuro melhor, mas seu pensamento se limita às sensações que sentem agora.

O outro lado da moeda também é válido. Tem pessoas que estão tão focadas no futuro que sua mente não consegue se deslocar para o aqui e agora e viver algo prazeroso que está acontecendo. Outros são vítimas de seus passados e andam para frente, porém de costas, apenas vendo aquilo que já passou. É a pessoa que está sempre chafurdando suas memórias e eventos passados. Vive dos contos sobre aquilo que lhe aconteceu.

Presente, passado e futuro possuem propriedades importantes para as pessoas e suas evoluções pessoais. O futuro, por exemplo, é um importante motivador da ação. A ideia de um futuro melhor pode nos mover e organizar planos de longo prazo. Ninguém faz um sacrifício se não pensa – pelo menos um pouco – num momento futuro. Já o passado pode ser fonte de aprendizado e gratidão que são importantes para sustentar a pessoa no presente, algo como “vim até aqui, então posso ir à frente”. O presente é onde as coisas realmente acontecem e estar em contato com ele é estar em contato com a vida em si. Um sem o outro não fazem sentido, tornam-se limitantes.

Qual o seu foco? Qual o tipo de ‘tempo’ que você não gosta de perceber? Tudo isso tem relação com o como você organiza o tempo em sua mente e com as competências para fazer isso. Quem não gosta de futuro tem dificuldade em planejar, quem não gosta do passado tem dificuldade em relembrar e quem não gosta do presente não gosta de sentir. Obviamente esta lista não é exaustiva e existem outras razões.

Abraço

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Identidade e foco
27/05/2015

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  • Tive uma semana péssima.

  • Sério? O que aconteceu?

  • Ah… lá no trabalho que eu tive uma discussão com um colega.

  • Sei, mas o que aconteceu?

  • Discussão sobre projeto, me exaltei, ele também… depois nos resolvemos, mas… chato né?

  • Sim. O que mais?

  • Como assim?

  • “Semana péssima”?

  • Ah, não, só isso na verdade…

  • Ah… só isso? Hum… puxa… interessante que “só isso” equivale à “semana toda” né?

  • (Risos) É verdade… pior que se você me perguntar da minha semana, isso salta nos olhos e o resto é quase como se não me lembrasse.

  • Sim… foco né?

  • É… eu sou meio assim mesmo.

 

Existe uma profunda relação entre aquilo com o que nos identificamos e aquilo que damos atenção e foco em nossas vidas. Compreender que o foco não é uma atividade passiva é fundamental para ajudar você a  perceber o seu foco assim como a modificá-lo, caso queira.

Ocorre que prestar atenção em determinado fenômeno ao invés de outro parte da noção de que temos ideias pré-concebidas à respeito daquilo que observamos. O olhar funciona da mesma maneira. Ver não é um fenômeno passível no qual a luz entra em nossos olhos e então vemos. O processamento daquilo que será armazenado no cérebro e visto pelo olho é ativo, ou seja, existe intenção no olhar. Ao olhar algo a pessoa busca determinadas informações ao invés de outras.

O foco em nossa mente é idêntico à este processo. A mente, uma vez estabelecido “o que deve ser visto, valorizado”, busca ativamente por estes detalhes nas memórias, em sensações, experiências assim como no próprio raciocínio. Várias vezes na clínica as pessoas dizem que o pensamento está “emperrado”, ou seja, não importa por onde elas comecem a pensar, o raciocínio sempre cai na mesma lógica e no mesmo final. Valorizam-se determinados estados emocionais em detrimento dos outros, determinadas experiências e memórias, assim como sensações, usando os mesmos dados da mesma forma e no mesmo contexto não é de se admirar que a conclusão seja a mesma.

A pessoa quando estabelece este foco passa a identificar-se com o tipo de experiência que resulta dele. Ela assume que “aquilo é para ela”. Quando a identificação acontece, tudo aquilo que não é igual (idêntico) ao que a pessoa imagina sobre si não passa pelo crivo e não é percebido. Assim, no caso acima, por exemplo, o resumo da semana daquela pessoa era a briga, ela não se lembrava – de fato – do restante porque apenas aquele evento tem a ver com a identificação que a pessoa tem de si.

Obviamente, cria-se uma roda viva na qual um elemento alimenta o outro. Quanto mais a identidade é forte, mais forte os crivos pelos quais a percepção se dá e mais rígido torna-se o padrão de raciocínio. Isso ocorre com todos nós. Porém existem maneiras de reflexão que não são úteis e algumas são até mesmo nocivas para algumas pessoas. Assim é importante conhecer este processo e poder interferir nele. De que maneira? A mais rápida e eficiente é se propor novas experiências que consigam colocar em cheque os pressupostos antigos. Desta maneira abre-se uma brecha no raciocínio que estará sendo alimentado por outros dados conflitantes com os anteriores, deste conflito pode nascer uma nova maneira de perceber você mesmo e o mundo.

Abraço

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Programando tragédias
25/05/2015

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– Mas é que o meu problema é outro.

– Qual é? Não estou entendendo.

– Você está falando de eu lidar com ele, mas eu quero é que eu nem precise fazer isso entendeu?

– Como se ele já soubesse o que “deve” fazer?

– Sim!

– Você quer controlar ele então?

– Precisamente!

– Hum… e para que?

– Para que ele faça o que eu quero.

– O que acontece se isso não acontecer?

– Prefiro nem pensar… mas não vai acontecer?

– Como você sabe?

– Ah… tem que dar certo sabe?

– Sim, eu sei. Mas se não der…o que você imagina que te acontece?

– (silêncio) Prefiro nem pensar… mesmo…

– É difícil falar disso não?

– É…

 

Prestar atenção aos perigos do mundo e prever possíveis problemas é uma das habilidades que fez o ser humano evoluir ao seu status atual, porém esta mesma competência pode ser altamente prejudicial.

Acredita-se que a habilidade de antecipar-se à possíveis problemas foi altamente desenvolvida durante a última era glacial. O ato de engordar é uma forma do organismo reagir à escassez de alimentos, por exemplo. Antecipar o momento do anoitecer, a vinda do inverno ou o ataque de predadores é uma forma de garantir a sobrevivência e ganhar certo controle sobre o ambiente. Este controle, no entanto tem o seu preço.

O preço que muitas pessoas pagaram na era glacial e que continuam pagando hoje é o de estar com a mente ocupada em elaborar problemas. Ou seja, para me preparar para a chegada de predadores tenho que, antes, imaginá-los, temê-los e buscar, a partir disso, uma maneira de me livrar deles, de neutralizar a sua ação sobre mim. Preparar-se para evitar o tigre dentes-de-sabre ou o despejo são duas situações em que a mesma estratégia mental é empregada: a evitação.

Como já afirmei acima o problema com a evitação é que ela precisa criar o cenário ruim o qual a pessoa desenvolve um método para evitar. Logo a pessoa deve estar o tempo todo pensando em possíveis cenários ruins para evitar afim de sentir o alívio que vem quando nada de ruim acontece. A motivação acaba sendo baseada em evitar o negativo, em perceber que nada de ruim aconteceu. O ônus é ter que estar o tempo todo imaginando o ruim.

Porque ônus? Pois para proteger-se do ruim passamos a controlar. O controle é um método que é altamente exigente e desgastante. Quanto mais se controla, mais se deseja controlar. Portanto ele não tem fim e este é o seu problema: aprisiona a pessoa e a sua mente. O foco torna-se exclusivo: não ter nada de ruim ocorrendo. Mas porque fazemos isso?

Ao mesmo tempo que o controle é nocivo ao aprisionar o indivíduo, ele lhe oferece uma certa noção de potência. Ou seja, se de um lado o ambiente é hostil e precisa ser controlado, por outro serei eu quem irá controlá-lo. Esta percepção que o controle gera pode ser viciante. Controlamos porque tememos o mundo, mas se a recompensa do controle é a sensação de potência, a pessoa pode sentir-se mais forte que o ambiente. Ou pelo menos é o que ela pensa. A sensação é uma farsa visto que a própria pessoa sabe que precisa sempre estar atenta para um novo perigo que pode surgir.

No mundo glacial os perigos eram de certa forma reduzidos, controlar o frio, a fome e os predadores era garantia enorme de sobrevivência. Hoje, porém, muitos elementos podem ser sentidos como ameaças que precisam ser controladas. Inúmeras são as pessoas que sentem cada pequeno passo do dia a dia como um grande problema a ser solucionado. Assim a sensação de poder sobre o meio é ainda mais viciante, quanto mais o mundo externo pode parecer ameaçador, mais a pessoa deseja sentir-se poderosa. Quanto mais ela consegue controlar mais ela sente-se assim e mais ela se afasta da sensação de ser desprotegida.

É óbvio que sentir-se seguro é importante, porém a sensação que o controle passa não é essa. É diferente saber lidar com o ambiente e desejar controlá-lo deixando-o da maneira que você quer que ele seja. Isso é o que gera a sensação de controle e de potência sobre o mundo. Esse é o poder que vicia e adoece a pessoa que só consegue viver dentro deste esquema de controle-poder.

Abraço

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Medo de mim
22/05/2015

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  • Eu não quero falar sobre isso.

  • Porque não? É difícil para você?

  • É… muito!

  • Entendo. Talvez você se sinta vergonha ou culpa em relação à isso?

  • Vergonha.

  • Sei. Conhecendo você, acho que não precisa sentir que algo dentro de você é tão indigno assim.

  • Eu sei também… mas mesmo assim é difícil sabe?

  • Sei sim… não quero forçar você a dizer, apenas questionar a emoção que está presente no sentido de que essa “coisa” aí guardada pode ajudar você à crescer se for aceita e integrada.

  • Eu entendo…. (respira) é que nem sempre eu sou tão forte quanto ajo… eu tenho um monte de dúvidas e ninguém sabe disso!

  • Obrigado por ter dito… é… que bom que você tem dúvidas… prova que você é humano! Bem vindo ao clube!

  • (Risos) Ai… é muito complicado admitir isso.

  • Perfeito, reconheço. Vamos trabalhar um pouco com isso, apenas tome folego e relaxe, não foi tão ruim assim né?

 

O ser humano é complexo em sua estrutura psíquica. Nela podem coexistir as mais variadas ambiguidades e os maiores paradoxos. Como lidamos com estes paradoxos é sinal de maturidade e exige muito trabalho.

Algo comum de acontecer é quando nossa auto imagem está distante de quem somos de fato, ou daquilo que damos conta de ser. Desejamos ser independentes e fortes, entendemos e acreditamos nas ideias que sustentam  esta percepção e temos nos comportado de maneira à seguir isso. No nosso íntimo, no entanto, muitas vezes temos outros sentimentos referentes à menos valia, dúvidas, incertezas e inseguranças sobre nós e nosso comportamento. O que fazer com isso?

Como disse anteriormente o interessante é que conseguimos ter ambos os estados em nós ao mesmo tempo. Podemos ter uma atitude muito forte sentindo medo dentro de nós, por exemplo. Muitas vezes uma emoção como o medo é exatamente o gatilho que dispara uma reação de força e coragem. Assim sendo não é um problema que uma  emoção se contraponha à uma percepção que tenho de mim. Isso apenas se torna um problema se quero fingir para eu mesmo que isso não existe.

Embora muitos psicólogos diminuam o saber intelectual, eu o defendo. É um começo, por assim dizer que torna as coisas mais simples. Saber que eu posso ser mais forte e independente – no sentido verdadeiro desta palavra e não a independência fria – é melhor do que achar que eu devo continuar sendo submisso. Assim a pergunta que surge é: o que estrutura a emoção sentida e a percepção de si que ela acompanha? Qual a motivação daquela emoção?

Na linha do problema da independência, a pessoa pode desejar ser mais independente, mas sentir medo de fazer algo sozinha quando está numa relação, por exemplo. Este sentimento pode ter sido motivado por aprendizados passados nos quais ao buscar movimentos independentes a pessoa era punida de alguma maneira ou desacreditada. Continuou buscando a independência, mas emocionalmente não conseguiu criar uma base sólida que sustentasse a sua percepção de eu.

Neste caso, pode-se trabalhar com este aprendizado passado e buscar ressignificar o que aconteceu lá para que a pessoa possa olhar para estas memórias com outros olhos. Isso a ajuda a se libertar da percepção de que ela deve sentir medo de buscar seu próprio caminho e encarar possíveis brigas ou desentendimentos em relação à ele de outra maneira. Neste caso, como a percepção de ser independente já existe é um bônus porque ela está construindo algo que acredita, apenas tinha medo.

Assim sempre recomendo que as pessoas não sintam medo em aceitar dentro de si sentimentos contraditórios. É um tanto assustador, eu sei, mas estas percepções são importantes de serem aceitas e trabalhadas para se tornarem uma parte da pessoa integrada com o restante. Em outras palavras: elas não estão aí para sabotar você, apenas para aperfeiçoar você.

Abraço

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Auto domínio
01/05/2015

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  • Eu não sei se quero isso realmente.

  • Hum… e porque está colocando a sua escolha em dúvida?

  • Ah… é que eu não sei direito se vale o esforço.

  • Me pareceu uma ótima escolha, porque não valeria?

  • Bem… eu não sei… tem que fazer tudo sabe?

  • Sei, é claro. Você tem algum problema em relação à isso?

  • É… tipo… eu não sei se consigo direito.

  • O que te impede?

  • Eu meio que largo as coisas sabe? Não termino aquilo que quero…

  • Entendo.

 

Um dos medos comuns ao se enfrentar o futuro e as nossas escolhas é o medo de falhar. Porém, este pode ser apenas a aparência de um outro problema, de uma dinâmica mais profunda.

Quando perguntamos às pessoas o que as faz terem medo de falhar é comum que chegar à compreensão de que problema, de fato, não é o medo da falha, mas sim uma falta de confiança da pessoa em relação à sua própria capacidade de manter-se firme nos seus desígnios. A pessoa teme, neste caso, organizar um objetivo, começar a fazer renúncias para alcançá-lo e, no meio do caminho, simplesmente desviar de sua meta. E não porque uma atividade mais interessante ou mais adequada surgiu, mas simplesmente por sair, trocar o desejo por qualquer outra coisa, quase uma fuga.

O sentimento de auto domínio é a sensação de que aquilo que ocorre dentro de você não são vozes selvagens às quais você não tem algum controle e deverá se curvar. É o que as pessoas sentem quando relatam que tem mais consciência de si, quando percebem seus padrões de comportamento e sentem-se livres para inferir sobre ele, quando fazem planos e os tocam em frente. Sentir auto domínio é perceber-se como “dono de si”, uma sensação da qual muitas pessoas carecem.

O desenvolvimento do auto domínio passa pelas atitudes de determinar-se uma meta e buscá-la. Pelo ato de fazer renúncias ao longo da jornada, manter-se no foco daquilo que se deseja, estando atento ao seu interior. Envolve a capacidade de perceber desejos contrários, emoções “estranhas” e dar conta de manter-se no seu rumo enquanto verifica o que ocorre consigo próprio. É a sensação de confiar no seu próprio processo interno ao invés de sentir medo de que “algo me sabote” ou de que “eu me sabote”.

Aprender a manter um estado de tensão saudável é importante para desenvolver o auto domínio. Tensão demais é hipertensão e mantém a pessoa rígida demais, dura, ela quebra rapidamente. Tensão de menos é hipotensão e a pessoa se torna uma geleia que não se movimenta. A tensão saudável é aquela que mantém a pessoa ativa e ainda assim flexível o suficiente para fazer mudanças necessárias em seus planos. Note que usei a expressão “necessárias”, ou seja, quando se tem auto domínio possuímos a flexibilidade para mudar e, junto com isso, o julgamento de verificar a necessidade desta mudança – assim como sua importância.

Desenvolver este estado é aquilo que serve como resposta ao problema de não se sentir capaz de alcançar um objetivo pelo medo de se perder ou de se sabotar no meio do caminho. Que tal começar hoje?

Abraço

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