Complexidade emocional
12/08/2015

varias emoções

  • Eu estou muito puto com ele.

  • Sei… me fale mais dessa raiva.

  • Cara… como que ele pode fazer isso?

  • Você esperava outra reação dele?

  • Lógico, nunca pensei que fosse fazer isso!

  • Está frustrado ou decepcionado com ele?

  • Sim!

  • O que veio primeiro: a raiva ou a decepção?

  • Hum… acho que a decepção.

  • Sentir isso influencia na sua amizade com ele?

  • Sim.

  • E como você se sente com isso?

  • Triste sabe? Tipo… nossa… foi muito ruim isso tudo. (chora)

 

Você sabe qual a diferença entre emoção e sentimento? Antonio Damásio nos diz – à grosso modo – que enquanto a emoção é algo que tem a ver com o movimento, com a ação, o sentimento é algo que tem a ver com a percepção. Enquanto uma nos coloca na ação a outra é a percepção desta ação.

Daí que quando percebemos colocamos nossas funções cognitivas para trabalhar e uma emoção pode dar origem não apenas a sentimentos, como também a outras emoções. É o que tentei descrever neste caso acima. A emoção de decepção gera a tristeza e gera a raiva. Ao mesmo tempo a pessoa sente estas emoções nela, uma após a outra e combinando sentimentos e emoções ao longo do tempo. Toda pessoa que passou por uma morte, desastre ou experiência de roubo, guerra ou até mesmo perda de patrimônio ou divórcio sabe que várias emoções podem ocorrer ao mesmo tempo.

A emoção está vinculada ao que pensamos e percebemos, ou seja, embora as emoções não são “puras”, elas tem uma relação profunda com como percebemos o mundo e nós mesmos. No exemplo acima, temos uma pessoa que tinha expectativas à respeito do comportamento do amigo. O que o amigo fez com ele só foi algo ruim por causa desta expectativa, a emoção de tristeza – de ter perdido algo, no caso a confiança – ocorreu em detrimento do fato do meu cliente sentir que não poderia mais confiar no amigo por causa daquilo que ele fez. E se as expectativas fossem diferentes?

Neste mesmo caso a raiva é uma emoção que surgiu por um outro fato: ele, no fundo não sabia e nem desejava dizer ao amigo que não queria mais relacionar-se com ele. Estes dois eventos dentro do meu cliente geraram um estado complexo: o amigo lhe causou um dano, manter a amizade poderia lhe trazer mais danos, ele não queria dizer que desejava afastar-se do amigo, portanto sua própria maneira de ser poderia lhe causar mais danos. Como esta era a única resposta que ele tinha no momento ele ficou ansioso em saber que poderia estar se causando mais danos e, daí, a raiva.

Aquilo que sentimos pode ser algo muito complexo como o exemplo mostra: a percepção de uma decepção torna-se tristeza e essa mesma tristeza desperta a raiva. Todas as emoções estão unidas frente à um mesmo evento e dizem de aspectos diferentes sobre este evento. Lidar com cada uma delas é importante para abraçar o evento como um todo e não apenas como parte. Além disso podemos ter emoções que nem sempre se manifestam claramente, surgem apenas como vontades “que não sabemos da onde vem”, ou que surgem depois do evento, mas estão relacionadas à ele.

Preste atenção naquilo que sente, você poderá encontrar muitas respostas aí.

Abraço

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Planejo e não faço…
03/08/2015

Planejo e não faço

 

  • Então Akim… não fiz ainda…

  • O que você ainda não fez do seu plano?

  • Nada.

  • Hum… o que aconteceu?

  • Na hora olhei para aquilo e pensei… ah, não deve ser pra mim isso.

  • Ah é? E o que, em você, não te permite “ser para isso”?

  • Não sei… eu me senti envergonhado de querer essa promoção.

  • Qual o motivo para vergonha de querer isso?

  • Não sei… é tipo: “vocêeeee quer isso?”

  • Sim, entendi… parece que você está se dando um limite: promoções não são para você. Perfeito, porém o que te coloca do lado de lá do círculo dos que merecem uma promoção?

  • Me vem a voz do meu pai na cabeça me dizendo que eu não sou bom o suficiente.

 

 

Em geral tenho observado alguns comportamentos comuns em pessoas que planejam mas não executam seus planejamentos. Um deles é uma motivação inadequada que não mexe com a vontade da pessoa em executar suas tarefas, outra é uma incapacidade de perceber uma relação causal entre o comportamento dela e a concretização dos planos e uma última é a percepção do futuro desejado como algo irreal.

A motivação inadequada surge quando a pessoa não encaixa o plano que criou no seu estilo motivacional. Cada um de nós tem uma maneira própria de evocar a motivação para executar planos e desejos, no entanto, muitas vezes os objetivos são de uma natureza contrária a da motivação. Para dar um exemplo, o estilo motivacional da pessoa pode ser de afastamento de coisas ruins, ou seja, ela se motiva à ação quando precisa afastar-se da possibilidade de algo nocivo à ela.

Desta forma, pode trabalhar para não ficar sem água ou luz em casa. Pode cuidar da saúde após ter uma doença, ou seja cuida da saúde não para adquirir mais saúde e sim para evitar uma doença. Quando em estilo como este se depara com um objetivo que vá exigir o seu esforço em prol de algo que vai lhe trazer algo bom, mas não causará dano é comum que a pessoa emperre. Por exemplo, não é um estilo motivacional bom para pensar em algo como conseguir uma promoção. Porque? Porque a promoção envolve buscar algo positivo que é o contrário. Adequar o estilo motivacional, numa situação como esse seria algo como: “se eu não conseguir esta promoção posso perder a chance de subir na empresa e eu não quero ficar o resto da vida neste cargo, isso seria horrível”. “Conseguir a promoção” se torna “não ficar mais neste cargo horrível o resto da vida” e, com este discurso a pessoa consegue motivar-se. Obviamente o estilo motivacional não é fixo e pode ser aprendido também.

A incapacidade de perceber uma ligação entre o comportamento e as consequências dele é algo que tem se tornado cada vez mais comum. Parece simples compreender que quando tenho um comportamento ele terá uma consequência e essa é o que me interessa. Porém, por diversos fatores as pessoas não fazem esta ligação e, então, a ideia de comportar-se para atingir um determinado objetivo parece insossa, afinal de contas “para que me mexer se não sei se isso terá algum efeito?”. Este último é o discurso padrão quando a pessoa não tem a relação bem estabelecida.

É muito comum que pessoas com este comportamento sejam colecionadores de fracassos e arrependimentos. O que é importante fazer neste caso é ligar a ação que elas tiveram no passado com os resultados que obtiveram. Este exercício pode ajudar a pessoa a estabelecer uma ligação e, a partir disso já ter delineado o tipo de comportamento que elas não querem. A partir disso pode-se inferir sobre o tipo de comportamento que levaria elas à execução dos planos e aos resultados que isso lhe traria. Quando se junta este elemento com a motivação adequada temos um bom propulsor para execução das tarefas e desejos.

Por fim, quando a pessoa faz um plano, um bom plano diga-se de passagem, ela cria para si o que chamamos de futuro propulsor. Este é aquela visão de um futuro no qual atingi meus objetivos e, neste cenário, sinto-me bem. Porém este futuro, por melhor que seja, nem sempre é visualizado como “possível” ou como “real” pelas pessoas. Os dois problemas acima podem ser a fonte deste terceiro, ou seja o futuro criado pode ser ótimo, mas não mexe na motivação da pessoa, logo ela o vê como irreal ou, então, ela percebe o futuro como desejado, mas não faz ligação entre o seu comportamento e a criação deste futuro, ele parece-lhe, assim, inalcançável.

Porém, algumas pessoas estão com ambos elementos bem organizados e ainda assim não vão atrás do plano, o futuro ainda parece irreal. É o caso de começar questionando-se se você merece este futuro. Neste último caso as pessoas não caminham em direção ao futuro desejado porque não sentem-se merecedoras, é uma questão de auto estima, na qual a pessoa não se vê como alguém digno de um futuro como esse. Fácil imaginar que as causas podem ser várias, mas é importante, em todas elas questionar a crença no não-merecimento, ou seja: o que faz com que você não seja digno? Este “não merecer” é uma punição ou um limite imposto? Determinar isso ajuda a libertar-se e construir o merecimento que basicamente é a ligação entre comportar-se e conseguir o que se quer.

Um último adendo é que muitas pessoas simplesmente não conseguem porque não agem. Agir é importante porque um bom plano é apenas isso, um bom plano. Então, se você já planejou, aja ou então seu plano será apenas mais uma bela história que você não viveu.

Abraço

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Problemas que ocultam problemas
24/07/2015

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– Mas ela não me deixa em paz sabe?

– Sim… sei como é.

– Então! Eu já conversei com ela, mas ela não muda!!

– Eu sei… e foi você quem escolheu ela… porque será né?

– Não sei!

– O que você faria se escolhesse uma mulher que sabe o que quer. Independente…

– Seria bem melhor!

-… que é como você: sai quando quer, não fica dando satisfação…

– (silêncio) é… me parece meio estranho pensando assim…

 

Algo que impressiona quando lidamos com humanos é a nossa capacidade de gerar problemas. Problemas que ocultam problemas é uma variante muito interessante deste comportamento.

Em relacionamentos é algo muito comum que um dos conjugues tenha um problema qualquer, por exemplo, baixa auto-estima, que aprender a lidar nas relações com outras pessoas usando o outro não para resolver o seu problema, mas sim para mascarar o seu problema. É fácil não lidar com uma questão pessoal quando temos outros afazeres, ou quando achamos que temos outros afazeres.

Neste caso, por exemplo, a pessoa pode na sua maneira de se comportar projetar um comportamento muito seguro e forte, por exemplo, e com isso estar sempre cobrando o outro, dizendo-lhe o quanto ele é preguiçoso, devagar, que ele deveria cuidar melhor de sua vida. O outro acaba sentindo-se muito para baixo e tem medo de perder o seu amado. Com isso pode, por exemplo, ter crises de ciúmes o que o obriga o conjugue a ter que lidar com este problema.

Uma outra forma é a pessoa que é muito forte, porém sente medo de sua força ou culpa por ser assim. Dessa forma vive se colocando em situações de apuros ou tendo comportamentos inadequados. Relaciona-se com uma outra pessoa que ou gosta de cuidar, ou acha que deve ajudar uma pessoa inadequada ou é mandona. Nesta relação a pessoa forte começa a achar que está sendo sufocada pelo outro que está sempre no seu pé.

Em um caso ou em outro o efeito é o mesmo: um problema que surge (no primeiro caso os ataques de ciúmes e no segundo caso o “sufoco”) são problemas criados por uma dinâmica e não um problema “de fato”. Este problema serve para mascarar e evitar que um – ou ambos – dos conjugues entre em contato com uma questão pessoal e assim, tenha que dar conta dela.

O que geralmente ocorre é que o conjugue problemático acaba indo à terapia e faz um processo de evolução pessoal. Neste processo aprende a lidar com o conjugue de uma maneira diferente, deixando-o livre para ser responsável por si só. Quando isso ocorre a relação entra em crise e a pessoa que se esconde atrás dos problemas pode, enfim aprender com eles.

Obviamente exige coragem sair do lugar de “poderoso” para ir ao lugar de “problemático” – é assim que boa parte das pessoas encaram pelo menos. Mas quando percebem que não estão fazendo esta inversão de papeis, mas sim dando conta de uma questão pessoal importante, etas pessoas aprendem que podem, então, serem ainda mais felizes.

E você? Anda escondendo-se atrás de algo?

Abraço

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Me encontrar
20/07/2015

se encontrar

  • Mas Akim… como que eu vou saber o que fazer se nem sei quem sou?

  • Qual o problema?

  • Esse! Se não sei quem sou, não sei o quero não é lógico?

  • É. Porém… saber que não sabe quem é implica em saber quem se é.

  • Como?

  • Para você saber que não sabe quem é você precisa ter um modelo de quem você é para comparar o modelo com quem você é hoje e afirmar: isto não sou eu.

  • Hum…

  • Em outras palavras: como você sabe que não sabe quem é?

  • Eu deveria ser mais… sei lá… corajoso.

  • Então você é covarde ou está com medo?

  • Sim.

  • E você sabe disso? Reconhece isso aí na sua experiência?

  • Sim.

  • Ótimo, você é isso! Agora sabe “quem” é: neste momento, a experiência do medo.

  • Que louco isso…

 

Se encontrar. Este parece ser um grande desejo das pessoas hoje em dia. “Ser eu mesmo”. Porém, como fazê-lo? Talvez o primeiro passo seja pensando de uma maneira útil na questão.

Quando pensamos em “nos encontrar” temos que compreender que o nosso “eu” já está aí, pronto em algum lugar apenas esperando para ser descoberto. Uma maneira muito cartesiana de refletir, inclusive. A verdade (ou o “eu”) está na natureza, apenas precisamos capturar isso, compreender isso e tudo estará resolvido. O problema que surge, então é: procurar aonde?

As pessoas, com isso vão atrás das respostas disponíveis. Em nossa cultura, o consumo é a grande resposta e hoje ele aparece transvestido de várias maneiras: o consumo de amigos, de relações, de festas assim como o clássico consumo de produtos em sua grande infinidade. Outras pessoas aparentemente com um pouco mais de consciência buscam psicoterapia ou outras formas de auto descoberta. No entanto, muitas delas continuam com o paradigma de se encontrar em algum lugar (talvez, neste workshop, eu consiga). Ledo engano.

O problema é que o “eu” que buscamos não pode ser encontrado por estas vias. Em primeiro lugar porque o “eu” não é uma coisa, ele não é uma substância que pode ser encontrada em algum lugar assim como encontramos as chaves do carro que esquecemos na cômoda. Assim sendo o “eu” não está em algum lugar, muito menos ele está “pronto” e esperando por ser descoberto por nós. O que seria até um certo contra-senso: como eu posso me achar em algum lugar se não sei quem sou? (Sei o que minhas chaves do carro são, por isso posso encontrá-las, mas como não sei quem sou, como vou me achar em algum lugar – mesmo que o eu pudesse ser encontrado eu não o veria)

Para resolver o problema talvez tenhamos que voltar ao oráculo de Delfos para compreender a questão do “eu” de uma maneira mais útil. “Conhece-te a ti mesmo” diz o oráculo. Ora, embora o conselho pareça óbvio, ele se torna mais enigmático à medida em que adentramos na sua elaboração. Conhece-te a ti mesmo tem uma implicação um tanto desconfortável para nós ocidentais. Implica que não somos um “eu” inteiro, ou seja, temos um eu que “é” e um que o “conhece”. Como?

Para que eu conheça algo é preciso observar este algo, compreender de alguma maneira. Mesmo que isso se dê na relação, a relação implica dois seres. Assim sendo o eu que “conhece” é diferente do eu que é conhecido. Quando o oráculo diz “conhece-te a ti mesmo” ele está dizendo que o “eu” que manifestamos é apenas mais uma experiência e não “a” experiência, como gostamos de achar no ocidente. Se conhecer está, então envolvido em experimentar aquilo que dizemos que somos e compôr um conhecimento sobre esta experiência. Saber que esta experiência é apenas mais uma é, por fim, a grande sacada à respeito do ato de “se encontrar”.

De outra forma: quando pequeno experimentava quem sou através das brincadeiras com outras crianças, por exemplo. Quando adulto posso seguir a mesma linha e me perceber no convívio com outras pessoas em bares e festas. No entanto, também posso experimentar quem sou no meu trabalho. O encontro com o “eu” se dá quando se percebe que o “eu” é a experiência e não uma coisa ou entidade. Se encontrar, então, tem muito mais à ver com experimentar aquilo que acho que sou, compreender o que e como vivi isso e, com base nesta experiência e na compreensão extraída dela, decidir o que se continuará fazendo.

Nós temos a tendência de nos identificar com as nossas experiências e dizermos que somos elas. Isto leva à um engessamento que pode ser proveitoso para algumas coisas e prejudicial quando as situações requerem comportamentos novos. Quando é possível ampliar ou modificar o que chamamos de eu, podemos ter uma compreensão ainda maior do que “somos”, ou seja, do processo que usamos para dar à nós uma identidade capaz de ser concretizada no mundo.

Mas enfim, como se encontrar? Preste atenção à sua experiência. Ao que já ocorre com você, em você, ao como você sente, pensa e age. Isso é a experiência que você se permite ter daquilo que você considera ser você. O encontro está exatamente aí. Não em algo externo, e acabado, mas em algo interno e em constante processo de “vir-a-ser”.

Abraço

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Não abra mão!
15/07/2015

Nao abra mão

 

  • Ah Akim, mas é difícil… quando eu vejo aqueles doces todos…

  • O que acontece?

  • Eu logo penso em comer aquelas delícias!

  • Sim, o que acontece se você ao olhar aquelas delícias, pensar em você frustrado com o peso acima do normal?

  • Eu penso duas vezes em comer…

  • E se além disso, pensar no seu diabetes finalmente estourando e você tendo que realizar seu medo de se tornar dependente de insulina?

  • … mas é ruim pensar em doces assim!

  • Claro, mas no seu caso é real também não é? Os doces não vão trazer apenas o sabor não?

  • É… é verdade…

  • Além disso, pensar em doces como algo ruim faz sentido nesse momento não?

  • Também…

  • Que tal pensar assim quando estiver “frente a frente” com os “temíveis doces deliciosos provedores de diabetes”?

 

Quando falamos em mudanças as pessoas, em geral, focam na aquisição de um determinado comportamento, ou seja, em aprender a exibir um comportamento, ter uma atitude específica para alcançar um resultado. Pouco se fala, por exemplo, em sustentar este comportamento. A questão é que, a não ser que você precise de um ato apenas em um momento e nunca mais, a parte mais importante é sustentar e não, exatamente, ter um comportamento novo.

O que quero dizer é que “mudar” é fácil, é simples ter um comportamento novo de maneira aleatória, a maior parte dos clientes que atendi já fizeram o que querem “aprender a fazer” uma vez ou outra. Qual o problema então? A falta de consistência da atitude que desejam incorporar à sua identidade. Esta falta é que faz com que a pessoa não sustente um novo comportamento e, por este motivo, não consiga se manter fazendo aquilo que já sabe fazer, mesmo que isso seja melhor para ela.

Um exemplo clássico é a perda de peso. Sempre que as pessoas me procuram com este tema e eu pergunto o que querem a resposta é a mesma: quero perder peso. Já começou errado, perder peso é fácil! As pessoas que estão sempre fazendo dieta sabem disso, se somarem quantos quilos já perderam ao longo dos anos em que fazem dietas já teriam chego ao peso ideal á muito tempo. A questão não é: “como faço para perder peso”, mas sim “como fazer para manter um peso “x” ao longo da minha vida?”.

Quando fazemos a pergunta desta maneira a coisa muda de figura. O quero perder peso assume um caráter novo, à saber, um projeto para a vida (e não é isso que as pessoas realmente querem? Um novo peso para o resto da vida?). O mesmo vale para a aquisição de um novo comportamento, ou, para uma “mudança”: “como sustentarei este novo comportamento o resto da vida?” Nesta pergunta surge o importante elemento de “não abrir mão”, ou seja, existem momentos em que nossos comportamentos são “testados” (situações que, para cada um de nós, manter o comportamento é mais difícil). No exemplo de manutenção de peso, um teste comum são festas de final de ano. E aí, como fazer para “não abrir mão?”

O ponto é ter seus critérios muito bem estabelecidos. Ou seja, é importante quando fazemos uma mudança saber o que nos permite abrir mão de nosso comportamento e o que não nos permite. Por incrível que pareça ter os limites de “quando abrir mão” bem definidos ajuda a manter o comportamento e a “não abrir mão dele”. Em geral, aconselho meus clientes a assumirem um critério geral no qual aquilo que me fará abir mão deve ter um valor maior do que a manutenção do meu comportamento no mesmo nível de aplicação de critério.

Por exemplo: no caso da manutenção de peso o critério empregado é saúde, assim mantenho uma rotina alimentar com base na ideia de que cuidar da manutenção do meu peso significa cuidar da minha saúde. Isso quer dizer que a escolha do que e de quanto comer não é um fim em si mesma, mas sim uma ferramenta para eu ter mais saúde. Logo apenas me permito abrir mão do meu comportamento quando algo no mesmo nível de critério – saúde – surge como uma oportunidade de abrir mão do meu comportamento. Por exemplo, posso me permitir comer à mais no meu almoço se sei que farei uma viagem ou estarei envolvido numa atividade durante a qual não poderei comer e, para manter minha energia, devo comer um pouco mais em uma refeição afim de não passar fome e comer à mais de maneira descontrolada mais tarde.

Quando temos este critério bem definido para cada área de nossa vida é fácil descobrir o que devemos fazer: é simplesmente comparar aquilo que se apresenta com as possibilidades. Se “bater” a oportunidade com a possibilidade, segue-se com a nova escolha senão fica-se com o comportamento antigo. E aí, vai abrir mão da sua felicidade?

Abraço

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Dai-me paciência!
13/07/2015

daime paciencia

  • Akim… hoje você vai se irritar comigo.

  • Ah é, porque?

  • Eu recaí novamente.

  • Entendi, o que aconteceu?

  • Ah… peguei a gúria lá de novo, não aguentei.

  • E o resultado?

  • O de sempre.

  • Ok. Bem, antes de entender a recaída, me diga: porque vou ficar irritado com isso?

  • Ah… a gente trabalha um monte e eu não mudo.

  • Hum, entendi. Mas veja, o simples fato de perceber que ficar com ela é uma “recaída” já é muito bom pra mim.

  • É… você sempre tem isso de olhar para o lado bom.

  • Você está mudando o comportamento, porque não deveria olhar para isso?

  • Mas foi muito tempo para entender isso.

  • Foi o seu tempo… talvez você esteja irritado com você não é mesmo?

  • É… talvez seja mais isso… eu sabia que ia dar errado… mas fiz de novo sabe?

  • Sei… e não te censuro por isso, acho que a sua dor já te basta.

Acredito que quase todo mundo já teve esta necessidade na vida: ter paciência. Muitas são as piadas com isso “dai-me paciência porque se me der força eu mato” ou “dai-me paciência, mas me dê agora!”. Porém a questão é sempre a mesma: como gerar este estado?

O primeiro engano é achar que devemos nos sentir neutros ou ignorar o que está acontecendo. Porque? Porque para ignorar eu preciso, primeiro, perceber e me incomodar. Ignorar é um esforço para tornar algo que está na minha percepção menos valorizado, porém o fato é que aquilo que me incomoda fica sempre na percepção o que, também, gera incomodo. Ser neutro é algo de outra esfera física, Ao humano não é possível “ser neutro”, ou seja, se algo mexe com a gente, simplesmente aceite isso e lide com a sua reação, este é o caminho para começar a ter paciência. E, por fim, é um engano porque as pessoas que são pacientes não são neutras e nem ignoram o que está ocorrendo, elas tem uma outra reação.

A estrutura da paciência requer que você perceba o que está acontecendo, de valor para o que incomoda. No entanto, quando digo dar valor, é importante saber “qual” valor dar. Pessoas pacientes entendem os elementos que as incomodam como algo que não é delas. Ou seja, o vizinho chato não é um “problema meu”, ELE é chato, neste sentido, ele tem um problema. Ao perceber a situação dessa maneira existe uma sensação de “estar de fora”, esta sensação causa uma tranquilidade.

Outro fator importante na elaboração do estado de paciência é observar o comportamento ao longo do tempo, para isso, a primeira condição (acima citada) é importante. Ao estar distante do comportamento posso entender a pessoa ao longo de sua história de vida. Vendo desta perspectiva ampla o comportamento que está sendo exibido saí do “momento” e entra na “história”, com isso é mais fácil perceber que a pessoa não está sendo assim “com você”, ela, simplesmente, é assim. Isso também ajuda a não levar para o lado pessoal, outra característica da paciência.

Ao ver o comportamento como algo construído ao longo do tempo, também é possível se colocar num papel diferente. Se eu não sou o alvo dessa pessoa maligna e sim, mas um com o qual ela se relaciona desta maneira, que posso ser? Posso ser um professor, posso ser alguém com quem ela poderá ter uma surpresa, posso ser uma pessoa que (finalmente) vai entendê-la, ou encará-la. Assumir este papel é lidar com o comportamento e não com a pessoa. Uma vez que esta perspectiva é assumida “ser paciente” não é algo com a pessoa e sim com a maneira dela se comportar. Isso cria um desapego em relação à mudar a pessoa o que culmina numa paciência mais estruturada.

Em resumo, podemos dizer que a paciência se organiza quando a pessoa percebe o comportamento como intrínseco da pessoa e dá atenção ao comportamento e não à pessoa (ou seja, não faz juízo moral dela e não leva para o lado pessoal), percebe este comportamento como algo gerado ao longo do tempo, se coloca numa atitude positiva frente ao comportamento e não assume como seu o problema, apenas a postura que irá assumir frente à ele.

E aí, ajudo ou tenho que ter paciência?

Abraço

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Não basta emagrecer
06/07/2015

Não basta emagrecer

  • Mas Akim… é muito difícil.

  • O que é difícil?

  • Ai… resistir sabe? Tipo, olhar aquele docinho e não comer? É muito sacrifício!

  • Entendo… mas discordo.

  • Porque? Não acha sacrifício?

  • Depende de como você olha… o que está sendo sacrificado, de fato?

  • Como assim?

  • Se você não come está adiando o momento de sentir o sabor daquele doce, que é tudo o que ele tem à oferecer não é?

  • Sim.

  • Se você come está adiando o momento de olhar para a balança e ver o seu peso certo. O momento em que você vai estar com o diabetes sob controle, o momento de vestir aquelas roupas que você me disse que quer, de sentir orgulho do seu corpo e do seu atuo domínio… o que você está, realmente sacrificando?

  • Hum… olhando desse jeito…

 

Perder peso é um tema constante na vida de milhões de pessoas. Um dos grandes problemas à respeito da perda de peso é que o mais comum naquelas pessoas que perdem peso é que elas “ganham” o peso novamente. Este “iô-iô diet” frustra e cansa muitas pessoas que terminam por desistir ou nem mais começar uma nova dieta. No entanto, este efeito é apenas reflexo de uma cultura da dieta que mostra marcas acentuadas de fracasso a cada dia que passa e o pior? Continua forte como nunca.

O título deste post afirma o problema com as dietas. O grande foco da indústria da dieta é na perda de peso, no entanto, este é o pior foco possível para lidar com o problema. Porque? Porque está lidando justamente com o resultado do problema e não com a causa. Mas a causa não é que a pessoa come mais calorias do que gasta? Não. A causa é o que motiva ela e ter este tipo de comportamento e a validar este comportamento como adequado para ela.

Estudos nos mostram que as pessoas “naturalmente magras” não fazem esforço para não comer demais, por exemplo, elas desenvolvem uma sensibilidade à satisfação e ligam esta sensação ao momento de interromper a alimentação. Em outra palavras, elas não se forçam a comer mais do que precisam apenas pelo gosto da comida. Esta é, inclusive, outro tema interessante que mostra que essas pessoas tendem a degustar mais a comida do que os gordinhos. Elas apreciam mais o paladar da comida saciando, assim o seu gosto pelo sabor dos alimentos.

Pessoas naturalmente magras também olham para o futuro e imaginam-se com o mesmo peso. O peso que elas tem está, de certa forma, associado à identidade delas, assim a ideia de sair do peso causa uma sensação de estranheza para elas. Também tem relações muito fortes entre o peso e o estilo de vida. Assim sendo pessoas naturalmente magras tendem a ver o peso não como uma causa ou um problema, mas sim como a consequência de um estilo de vida, algo que lhes dizem sobre quem são.

Este é o foco que não é abordado pela indústria da dieta. Emagrecer não basta porque emagrecer não é saudável. Sim, é isso mesmo, deixe-me repetir: emagrecer não é saudável. A perda de peso é algo que nos diz que estamos doentes ou com falta de comida. O emagrecimento força o organismo a funcionar num ritmo que não é o seu ritmo natural. Infelizmente, quando a pessoa está obesa ela precisa deste recurso drástico para tentar voltar à um funcionamento saudável, afinal de contas o sobrepeso também não é um ritmo adequado para o nosso organismo.

Assim o foco não deve ser em emagrecer, mas sim em encontrar um ritmo que lhe ofereça o seu “peso ideal” e o mantenha nele. Pessoas naturalmente magras, tem a capacidade de comerem o que quiserem, não fazem restrições alimentares afim de manter o peso. Elas apenas sentem a comida e quando comem algo com mais calorias ou comem um pouco menos, ou equilibram a quantidade de calorias ingeridas ao longo do dia. Por exemplo, nada impede de ir à um rodízio de pizza se ao longo do dia e no dia seguinte você ter uma alimentação bem leve e com poucas calorias.

Este “ritmo” que oferece o peso ideal tem a ver com a saúde do corpo e da mente. Assim sendo, o peso nada mais é do que um reflexo de como você tem vivido a sua vida (isso, eu, como ex gordinho, posso garantir). Quanto mais a pessoa foca em ter uma vida como um todo saudável, mais fácil é para ela ter o peso ideal. Porque? Porque ela não fica focada num número da balança ou da calça, mas sim em ter todo um conjunto de atividades e experiências que deixam a própria vida mais saudável. Daí o peso começa a se tornar algo “lógico” certo começa a se tornar algo lógico.

Assim o convite que faço ao leitor é que reflita não apenas no peso, mas em sua vida como um todo em relação ao estilo de vida que leva em todas as esferas. Um dos passos que trabalho com meus clientes é que nunca lutem contra o peso, mas sim desejem ele. Desta maneira o peso ideal se torna algo natural, algo da identidade da pessoa e os caminhos que o fazem chegar nele não são “lutas” ou “sacrifícios”, mas sim atitudes de saúde, satisfação e orgulho, marcas registradas de quem atinge seu peso ideal.

Abraço

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O problema da rotina
01/07/2015

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  • Eu sei, mas… sabe como é?

  • O que?

  • Eu não posso pegar o meu marido e dar uma saída “assim” com ele.

  • Porque não?

  • Tenho filhos!

  • E um casamento que está se permitindo acabar por causa deles.

  • É…

  • Você sabe, muito bem que o problema não são seus filhos. Eles tem amigunihos onde passar uma noite e pais que já te disseram que aceitam eles lá.

  • Eu sei… é que… eu reclamo, mas não consigo sair disso sabe?

  • Sei. Esta na hora de imaginar um novo futuro para vocês dois. Quero que imagine esta semana e pense, em três atividades que você irá realizar que estão fora da rotina de vocês.

  • Ai… é difícil!

  • Sim e fundamental também!

 

Rotina é ter uma programação de atividades dentro de um período de tempo afim de alcançar metas. Estas metas, em geral são importantes para nós de alguma maneira. Porque reclamamos tanto da rotina então?

A mente humana opera com três tempos: presente, passado e futuro. Cada um deles tem função importante no desenvolvimento de nossa psique. O futuro é o mundo das possibilidades. Sua função é organizar o nosso comportamento no presente em direção à algo. Ou seja, quando empregamos o futuro de uma maneira adequada sentimos motivação, esperança e desejo de ir em frente. O futuro é sempre possibilidades de coisas diferentes ou daquilo que realmente queremos.

Por ser possibilidade o futuro tem, também, um certo “escape” no sentido de que é nele que podemos sonhar como as coisas poderiam ser ou o que poderíamos fazer com nossas vidas. Esta função é importante para manter a mente criativa acesa. Não é exatamente o fato de acontecer ou não, mas, inicialmente, de ter a capacidade de sonhar e desejar. Este comportamento por si só já ajuda a pessoa a sentir-se bem consigo mesma.

O problema da rotina está quando estamos tão focados nela que o futuro perde a sua função de possibilidades. É quando a pessoa olha para o seu próprio futuro e todos os pequenos detalhes dele já estão programados. É como se ela já soubesse o que irá acontecer à ela todos os dias. Essa sensação é sufocante porque retira do futuro a sua função primordial que é de ser o tempo no qual podemos criar e/ou depositar novas possibilidades de vida.

Essa dinâmica faz com que a mente criativa da pessoa fique desligada e a lógica mantém-se apenas oferecendo mais do mesmo. O problema, é importante evidenciar, não está no “mais do mesmo” ou seja, nas atividades rotineiras, mas sim na ausência do novo e, principalmente, na impossibilidade de ousar o novo, de imaginá-lo, deixando o futuro cinza e o presente um fardo.

Ousar significa imaginar onde você irá poder quebrar o ciclo da rotina e inserir pequenos comportamentos distintos que possam fazer você ter uma experiência diferente com a vida. Algo ousado, algo engraçado, algo tranquilo podem ser saídas interessantes para você. A questão é que quando a rotina começa a atrapalhar a vida da pessoa existe um comodismo de parte dela em não se permitir mais sonhar e ousar. A vida é sua e será vivida apenas uma vez. Ouse, crie uma rotina que inclua saídas da rotina!

Abraço

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Desejo e culpa
29/06/2015

medo

– Não sei bem o que acontece, mas toda vez que consigo algo me sinto mal.

 – O que você sente, especificamente?

– É como se aquilo não fosse para mim… não sei se eu não mereço.

– Pode ser. Veja se é isso ou algo mais próximo de uma sensação de ter feito algo errado.

– Acho que é mais isso… eu até desmereço algumas conquistas para elas não brilharem muito.

– Ok… então você é culpado do seu sucesso é isso?

– (Risos) Nunca tinha pensado desse jeito… mas é mais ou menos isso.

Ter um bom contato com nossos desejos e nos permitir vivê-los tem relação com uma vida saudável. Porém, é comum que o desejo e o ato de desejar encontrem-se vinculados à emoções negativas.

Na educação de uma pessoa, seus pais ou responsáveis podem, por vários motivos, associar o ato de desejar, de buscar com sentimentos como a culpa. Sentir-se culpado por desejar pode ser uma das combinações mais complicadas que a pessoa pode sentir. A culpa implica em dívida, então se a pessoa sente culpa pelo ato de desejar, significa que ela está rompendo as regras e, por isso, assumindo uma dívida.

O problema é que o ato de desejar é inerente ao ser humano, assim a pessoa encontra-se fadada à sentir culpa o resto de sua vida por seus desejos. Algumas pessoas resolvem parar de desejar, de crescer e vinculam-se profundamente à família para manter o status ao qual pertencem e, com isso, eximirem-se da culpa. Outros continuam buscando seus desejos e sua vida e o problema – por incrível que pareça – está quando conseguem. Porque?

Porque ao ousarem e buscarem aquilo que desejam, rompem com a aliança familiar. Este rompimento é passível de punição, porém a concretização do sonho da pessoa, dos seus desejos – embora tenho um lado de conquista – pode assumir um caráter de concretização da culpa. É como se ao conseguir ela também estivesse de maneira definitiva rompendo com as regras e, por este motivo, a emoção é ambígua: ela sente orgulho e desejo de comemorar ao mesmo tempo que sente culpa pela sua capacidade de realizar seus sonhos.

Esta emoção – a culpa – pode ser sentida ou velada. A pessoa pode ter consciência dela sentindo-se ansiosa ou insegura toda vez que assume uma conquista ou está prestes à faze-lo. Também pode ser que ela rompa bruscamente com aquilo que está fazendo, “desista” para não ter que realizar o feito e, assim, não entrar em contato com a culpa. Pode sabotar-se continuamente também como uma maneira de auto punição.

A questão da culpa é compreender a sua origem, ou seja, o que foi, de fato, violado. Depois disso compreender como se pode “pagar a dívida” que a culpa gera. No entanto, muitas vezes se percebe que a regra que foi violada não faz parte do conjunto de regras da própria pessoa. Neste caso o trabalho visa, então, ajudar ela a sustentar o seu próprio conjunto de regras. Assim poderá compreender que embora rompa com regras familiares, não estará rompendo com suas regras pessoais. Compôr suas regras pessoais o ajudará a negociar novas fronteiras com sua própria família também, uma nova maneira de ser dentro de um espaço antigo.

E este, talvez seja o ponto mais importante: aprender a se definir de uma nova maneira, dar-se um papel ou uma maneira de viver o papel que já possui. Assumir a nossa forma e as consequências da nossa forma sem entender isso como punição e sim, como algo “natural” ao nosso universo: que ações tem reações.

Abraço

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Amar não basta
26/06/2015

Amar não basta

  • O problema é que eu amo ele!

  • Amor não é problema.

  • Se eu não amasse ele não estaria nessa situação.

  • Na verdade o problema não é amor, mas sim que você criou ilusões sobre ele.

  • É… pois é…

  • Eu me lembro de ter dito à você que aquilo que você estava vendo “nele” era algo que você queria e não ele.

  • Entendo… o que eu faço agora?

  • Tens que ver ele como ele é e aí sim perceber se quer passar  a vida com este homem “real”.

 

Se você se surpreendeu com o título deste post é porque provavelmente crê em ideias como “o amor supera todas as coisas” ou “tendo amor o resto vai”. Convido você para uma reflexão importantíssima sobre o tema.

A ideia de que o amor é o que importa é nova em nossa sociedade. O amor romântico enquanto uma instituição social aceita não tem muito mais do que 200 anos. O amor romântico tem como base uma relação que se estabelece com base no afeto entre duas pessoas. Antes dele tínhamos o amor familiar onde as relações eram constituídas pelas famílias. Para nós do Ocidente atual é difícil compreender, mas existia sim amor neste tipo de arranjos.

O fato é que o amor romântico criou como norma social a ideia de que devemos nos relacionar com pessoas tomando por base nossas emoções, dessas o amor é o que mais nos aproxima de uma outra pessoa. A sensação de paixão e de amor se juntam formando a base pela qual desejamos nos apegar e viver a vida com alguém. A grande abertura que o amor romântico trouxe foi esta de que um plebeu poderia se apaixonar por uma nobre e, por meio do ideal do amor romântico, ele poderia tê-la, seria “moralmente adequado” que eles ficassem juntos. Achou estranho o “moralmente”? Pois bem, é  exatamente esse avanço que o amor romântico traz: uma permissão moral para que casamentos arranjados e casamentos por afeto pudessem ser validados, para que se tenha ideia, o desejo de não casar-se com alguém previamente arranjado pela família, antes, poderia ser alvo de um crime de heresia e adultério (sim, traição para com a família de origem).

No entanto, o que o amor romântico com as baladas de Tristão e Isolda, Romeu e Julieta e outros esqueceu de se importar foi com o que se faz “depois” que o namorico começa. O que temos nas histórias é a luta para que a relação possa acontecer, depois disso ou os amantes morrem como nas histórias citadas acima ou a história termina com um “viverão felizes para sempre”. O ponto é que amar é apenas o começo. Amar não basta.

Porque afirmo que amar não basta? Porque o ponto é que a emoção de amor, ao contrário do que se pensa, nem sempre está calcada na realidade. Algumas vezes ela está, mas quase nunca é o que se vê. As pessoas tendem a amar projeções, fantasias, medos, e desejos que elas tem e colocam em cima da pessoa ou do próprio ato de se relacionar. Daí que sentem a emoção de amor, porém esta emoção com o tempo irá se dissolver por não ser real. Este é só o primeiro ponto, o segundo é que mesmo que o amor esteja calcado em bases reais a emoção de amar e sentir desejo um pelo outro não são coisas “garantidas”, elas precisam ser criadas e re criadas ao longo do tempo. Sim, relacionar-se dá trabalho – e muito – e, para isso a nossa sociedade romântica e consumista não está preparada.

Estamos preparados para nos apaixonar e sermos felizes para sempre sem muito esforço. Porém esta é a minoria dos casamentos – e isso não quer dizer que esta minoria é “especial” ou “melhor”, mas apenas que deram “sorte” de encontrar pessoas extremamente parecidas. Mesmo nessa minoria, entretanto, existem as necessidades de ajustes, conversas e decisões. Assim a questão é que amar é importante, porém saber manter o amor e saber relacionar-se é o que realmente irá fazer o casamento ir mais ou menos para a frente. Falamos em emoções, porém não percebemos que precisamos de competências, saber como se relacionar com as pessoas.

O que vejo no meu consultório hoje é cada vez mais emoção e menos competência. Pessoas que se apaixonam rapidamente, mas que não sabem como construir uma relação. Passado o furor da paixão os casamentos se deterioram rapidamente. Por este motivo escrevo este post, como um alerta, um chamado à consciência e reflexão. Os índices de divórcio não estão aumentando apenas porque as pessoas “são mais livres” para decidir, mas sim porque estamos cada vez menos competentes para nos relacionar com os outros e criar atmosferas onde uma relação entre duas pessoas reais possa, de fato, acontecer.

Abraço

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