Archive for the ‘Gotas’ Category

Ações e reclamações
31/07/2015

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  • Eu não aguento mais a situação!

  • O que você não aguenta mais?

  • Reclamações. O tempo todo alguém me enchendo o saco querendo alguma coisa!

  • Sei. Isso é uma reclamação sua?

  • Sim… eu sou bem reclamona também.

  • Entendo… ensinou todos bem então é?

  • Como assim?

  • Você reclama tanto que deve ter ensinado os seus à reclamarem também.

  • É verdade… não tinha pensado nisso… fica todo mundo tenso ao meu redor tanto em casa quanto no trabalho. Só no clube que não, mas lá eu não fico de “líder” sabe?

  • Sei sim… Será que não está na hora de se dar um novo papel ou desempenhá-lo de uma outra forma em casa e no trabalho?

  • Pode ser…

 

Dentro de relacionamentos reclamar é algo comum. A reclamação tem como estrutura apontar algo com o que não se concorda. Este apontamento tem como intuito classificar determinado comportamento como inadequado buscando a criação de um limite e a mudança de comportamento.

No entanto, o ato de reclamar pode tornar-se um comportamento padrão. Existem pessoas que são “reclamonas” de carteirinha, sempre achando algo para reclamar. Este tipo de conduta, em geral, está associado com uma falta de personalidade na relação. “Falta de personalidade” entenda-se como a seguinte dinâmica: a pessoa foca demais nas outras pessoas e no comportamentos delas. Deixa, com isso de se posicionar de maneira adequada frente àquilo que reclama. Em outras palavras, fica apenas reclamando, mas não toma nenhuma atitude com isso.

Ocorre que reclamar é uma parte do processo, no entanto, a pessoa responsável não fica apenas nisso. Ela busca o seu bem-estar de uma forma ou de outra. Reclamar e propor soluções são temas diferentes. Muitas vezes, numa relação as pessoas disputam por anos sobre um determinado tema apenas porque nenhum dos dois lados propôs uma solução. O conflito gira em torno de verificar quem detém o poder e não em resolver um problema.

Como sair deste ciclo?

Um dos temas é apontar menos para o outro e mais para si. Uma pergunta muito utilizada na psicologia sistêmica – e que muitas vezes causa um nó em nossa mente – é: como contribuo para isso? Ou seja o reclamão, por vezes, contribui para aquilo que reclama de maneiras que nem consegue perceber, porém estão lá. Uma das formas, por exemplo, é quando a pessoa se coloca como passiva na relação frente àquilo que tem problemas, outra maneira típica é ser detalhista demais – e acabar sendo o chato da relação –  e ainda temos outra maneira que é se colocar em situações nas quais já se sabe que o outro irá reagir de maneira negativa para, então, reclamar.

Perceber de que maneira o seu comportamento influencia aquilo que você mesmo reclama abre a porta para a mudança. Perceber, então o que motiva o seu comportamento inadequado é fundamental. A motivação é o que dá a base para o comportamento. Aqui, um ponto importante: pode parecer absurdo que estou motivado para me comportar de uma maneira que, posteriormente, me prejudica. Pode parecer, porém é super comum. Isso ocorre justamente porque a nossa motivação, muitas vezes, nos coloca em situações prejudiciais. E, principalmente, porque nossas ideias, muitas vezes, são diferentes de nossas emoções. Ou seja, por vezes temos um determinado conceito sobre o que queremos e como as coisas devem ser na relação, porém nossa educação emocional nos puxa para outro lado.

Uma vez de posse destes dois elementos: o que faço e o que motiva a minha ação, posso me perguntar à respeito da minha identidade na relação. Quem sou? Muitas vezes somos os mártires, outras somos o eterno incompreendido ou até mesmo o garanhão preso. Daí as perguntas que geram uma cascata de mudanças: quem posso vir à ser? O que posso mudar naquilo que me motiva? O que posso começar a fazer de diferente? Estas ações implicam mudanças não apenas para a pessoa, mas, também, para a relação. Em uma relação, quando um dos dois evolui, em geral o outro também é convidado à evoluir ou a relação começa a perder sentido. E, com isso, concluímos a reclamação que passa a se tornar ação.

Abraço

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Raiva do terapeuta
29/07/2015

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  • Então é isso!

  • É isso?… Bem, vamos tomar um café e ir embora então? Porque estamos no começo da sessão (risos).

  • Ah é! (risos)… eu não tenho mais nada que eu queira falar sabe?

  • Sim… mas tem algo que você está sentindo… isso posso dizer.

  • Tem… mas não quero falar disso agora.

  • Se eu palpitar certo você fala?

  • Falo…

  • Vou falar assim: não tem problema isso que você está sentindo em relação à mim, pode sentir e pode falar o que você quiser… eu aguento, não vou te julgar por sentir isso, vou ajudar você com esta emoção.

(Silêncio)

  • Eu tô com raiva de você! É isso! Pronto, falei!

  • Ótimo! Me conte o que aconteceu?!

  • É que eu to com raiva porque você fica falando de mim… e me elogia… e me incomoda isso!

  • Eu imagino… que bom que você pode falar da tua raiva, de que maneira falar de ti ou eu te elogiar é agressivo?

  • Eu não sei o que você quer com isso! Porque você me elogia?

  • Quando vejo que uma pessoa tem uma atitude digna de ser elogiada eu o faço.

  • Mas eu tô fazendo algo assim!?

  • Sim, vez ou outra você faz e então elogio o seu comportamento.

  • E você faz isso com todo mundo?

  • Sim, aqui no consultório e na minha vida pessoal também. Não faço bajulação, apenas elogio.

  • Entendi…

  • Que tal trabalharmos melhor com esta raiva e essa dificuldade de falar de si e de ser elogiada?

  • Acho bom.

  • Eu também…

 

A raiva é uma emoção que tem a ver com a sensação de impotência e ameaça. Junte estes dois elementos e terá a raiva. Para que ela serve? Para mobilizar força e foco para lutar ou fugir. A raiva, em si, não é boa ou má, o que fazemos com ela pode se tornar útil ou improdutivo para nós.

Na terapia muitas emoções surgem naquilo que chamamos de “relação terapêutica”. É comum sentir amor, raiva, cumplicidade, amizade, ternura e nojo do seu próprio terapeuta. Todas as emoções que vivemos com outros humanos podemos reproduzir na relação com o nosso terapeuta, pelo simples fato de ele ser, também – e incrivelmente, apenas um humano.

Quando a  emoção da raiva aparece na relação terapêutica é importante que a pessoa consiga comunicar isso. A raiva pode se manifestar por vários motivos, um deles, inclusive significa que a terapia está dando certo. Porque? Porque muitas vezes o processo terapêutico mexe em nossas feridas e incompetências, nossas deficiências – sim você, eu e todo ser humano possui alguma em algum nível. Essa percepção pode ser consciente ou inconsciente, ou seja a pessoa pode estar consciente de que está sentindo raiva ou não, mas ela está lá.

Frente à percepção disso é um mecanismo de defesa comum a projeção de culpa. Assim a pessoa pode ficar braba com seu terapeuta por que na relação com ele, ela descobriu incompetências suas que ela própria não gosta de lidar. Se a raiva não é manifesta é comum que a pessoa termine por abandonar o tratamento porque irá sentir-se mal durante as sessões ou pode até mesmo sentir-se exposta ou até mesmo cobrada pelo terapeuta.

Esta maneira de responder provavelmente é a mesma que ela usa em sua vida diária com todas as pessoas ou uma reação específica ao terapeuta em quem ela deposita muita confiança. Neste último caso a pessoa pode sentir-se “traída” pelo terapeuta ao sentir que ele percebeu suas deficiências ou até mesmo sentir-se ameaçada pelo fato de ele pode descartá-la pelo fato de não ser “perfeita”. A raiva na terapia é sempre um bom sinal porque nos ajuda a perceber onde temos que trabalhar. Assim, explorar a raiva deverá sempre ser um motivo de aprendizado para a pessoa assim como para o terapeuta. Aprenda a falar sobre sua raiva para compreendê-la. A relação com o terapeuta e com a terapia só tem a ganhar quando a pessoa abre suas emoções.

Com raiva?  Explore-a! Aprenda! Transforme-se!

Abraço

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Horários
27/07/2015

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  • Não sei mais Akim… tô muito perdido sabe?

  • Sim, entendo.

  • Está difícil para eu me manter nos meus horários, esqueço uma coisa, chego atrasado em outras…

  • Sim… o que tem a ver com você isso?

  • O que?

  • A dificuldade para determinar teus horários tem tudo a ver com você nesse momento.

  • Hum… não sei direito… eu também não estou muito feliz ultimamente.

  • Sim. Não sei, mas me parece que estes “atrasos” querem dizer algo sobre as atividades que você está fazendo.

  • Pode ser… não sei direito se quero fazer o que estou fazendo.

  • Imagino… quais as tuas prioridades neste momento?

 

Administrar o tempo, ao contrário do que se diz e se pensa é muito mais do administrar um conjunto de horas dentro de um dia. Tem a ver com a sua pessoa e o seu estilo de vida. A pergunta que sempre faço é: o que te motiva a usar teu tempo – que é limitado – nisso que você escolhe?

O tempo que temos é finito e não sabemos exatamente quando ira acabar. Isso faz dele algo único, o tempo de hoje não pode ser mais usado amanhã. Desta maneira quando escolhemos usar o tempo para determinadas atividades estamos, com isso, moldando a nossa vida de uma determinada maneira. Atrasos, como no caso acima podem ser uma indefinição à respeito do que fazer com o tempo ou da maneira pela qual a pessoa lida com suas escolhas.

Assim “atrasar-se” não é apenas uma questão de acaso, mas de estilo de vida. Porque sempre postergo aquilo que escolho, ao invés de resolver as coisas “na hora” é uma pergunta válida, por exemplo. Atrasar, neste aspecto, é uma escolha que deixo um pouco para depois – vale lembrar que neste posto falo sobre o comportamento de quem se atrasa sempre e não de um ou outro atraso ocasional.

Em terapia já atendi muitas pessoas que dizem: “mas não consigo chegar no horário, meu trabalho me prende”. Torna-se evidente logo mais que essas pessoas sempre deixam as suas escolhas pessoais para depois também, colocam-se em segundo plano em tudo. Assim, não tiram férias por causa dos filhos, não fazem seu lazer por causa da mulher – ou do marido, e não chegam no horário por causa do trabalho. O que eles estão realmente dizendo é que preferem deixar o tempo reservado para suas escolhas com outras pessoas e tarefas. “Se você esperar o mundo dar tempo para fazer o que quer, vai esperar sentado”.

Assim o uso que damos ao tempo está intimamente ligado à nossa personalidade e à maneira pela qual lidamos com nossas atividades e escolhas. É importante ver quais as prioridades que temos na vida e saber que a não ser que criemos a brecha na qual iremos fazer nossas atividades, o mundo irá sempre nos trazer demandas. Criar esta brecha e escolher usar o seu tempo para algo que você deseja significa não fazer outras coisas, por esta razão é que é importante que suas prioridades estejam bem organizadas, se não estiverem, vale usar um pouco de tempo para fazer isso.

E aí, que horas você vai viver a sua vida?

Abraço

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Problemas que ocultam problemas
24/07/2015

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– Mas ela não me deixa em paz sabe?

– Sim… sei como é.

– Então! Eu já conversei com ela, mas ela não muda!!

– Eu sei… e foi você quem escolheu ela… porque será né?

– Não sei!

– O que você faria se escolhesse uma mulher que sabe o que quer. Independente…

– Seria bem melhor!

-… que é como você: sai quando quer, não fica dando satisfação…

– (silêncio) é… me parece meio estranho pensando assim…

 

Algo que impressiona quando lidamos com humanos é a nossa capacidade de gerar problemas. Problemas que ocultam problemas é uma variante muito interessante deste comportamento.

Em relacionamentos é algo muito comum que um dos conjugues tenha um problema qualquer, por exemplo, baixa auto-estima, que aprender a lidar nas relações com outras pessoas usando o outro não para resolver o seu problema, mas sim para mascarar o seu problema. É fácil não lidar com uma questão pessoal quando temos outros afazeres, ou quando achamos que temos outros afazeres.

Neste caso, por exemplo, a pessoa pode na sua maneira de se comportar projetar um comportamento muito seguro e forte, por exemplo, e com isso estar sempre cobrando o outro, dizendo-lhe o quanto ele é preguiçoso, devagar, que ele deveria cuidar melhor de sua vida. O outro acaba sentindo-se muito para baixo e tem medo de perder o seu amado. Com isso pode, por exemplo, ter crises de ciúmes o que o obriga o conjugue a ter que lidar com este problema.

Uma outra forma é a pessoa que é muito forte, porém sente medo de sua força ou culpa por ser assim. Dessa forma vive se colocando em situações de apuros ou tendo comportamentos inadequados. Relaciona-se com uma outra pessoa que ou gosta de cuidar, ou acha que deve ajudar uma pessoa inadequada ou é mandona. Nesta relação a pessoa forte começa a achar que está sendo sufocada pelo outro que está sempre no seu pé.

Em um caso ou em outro o efeito é o mesmo: um problema que surge (no primeiro caso os ataques de ciúmes e no segundo caso o “sufoco”) são problemas criados por uma dinâmica e não um problema “de fato”. Este problema serve para mascarar e evitar que um – ou ambos – dos conjugues entre em contato com uma questão pessoal e assim, tenha que dar conta dela.

O que geralmente ocorre é que o conjugue problemático acaba indo à terapia e faz um processo de evolução pessoal. Neste processo aprende a lidar com o conjugue de uma maneira diferente, deixando-o livre para ser responsável por si só. Quando isso ocorre a relação entra em crise e a pessoa que se esconde atrás dos problemas pode, enfim aprender com eles.

Obviamente exige coragem sair do lugar de “poderoso” para ir ao lugar de “problemático” – é assim que boa parte das pessoas encaram pelo menos. Mas quando percebem que não estão fazendo esta inversão de papeis, mas sim dando conta de uma questão pessoal importante, etas pessoas aprendem que podem, então, serem ainda mais felizes.

E você? Anda escondendo-se atrás de algo?

Abraço

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Os erros do passado
22/07/2015

 

Erros do passado

  • Mas então… eu sei que não vai dar certo.

  • Porque não?

  • Porque eu já tentei e não consegui antes.

  • Entendi.

  • Daí, melhor ficar de fora né?

  • Se a tua conclusão é de que o erro do passado irá necessariamente se repetir, sim.

  • E não vai?

  • Não sei… o que você aprendeu quando errou no seu passado?

  • Nada ué… só fiquei triste.

  • Então é provável que vá se repetir. Agora… porque você não aprende com o que fez ao invés de se tornar vítima do seu erro?

  • Como assim?

 

É muito comum que as pessoas tentem realizar algo e não consigam, errem, não tenham 100% de desempenho. Também é comum na nossa cultura que isso seja entendido como um fracasso e um sinal de que é melhor você ficar longe daquilo porque pode lhe trazer problemas. O erro do passado se torna, então, destino futuro. A marca indelével do seu fracasso e o atestado da sua incompetência. inclusive muitas pessoas lutam anos a fio com estas cenas tentando deletar da memória aqueles momentos de tristeza e vergonha.

O que é um erro? O erro é um comportamento que não atingiu o resultado previsto. Como diz o ditado apenas erra quem está tentando, quem deseja conseguir ou aprender algo. Assim sendo, o erro representa, também, a tentativa da pessoa em conseguir algo que almeja. O erro pode ser, também, uma fase de um aprendizado ou adequação frente à uma situação/ aprendizagem que a pessoa não tem.

Encarar o erro como uma fase do aprendizado é o que fazem os grandes cientistas e inventores. Eles não pensam em erro nos mesmos termos que nós. Reconhecem o erro, mas valorizam este evento como mais uma marca importante do seu aprendizado. Eles ignoram o ato de desistir frente ao erro e reconhecem a importância de refletir sobre o que fizeram afim de modificarem a próxima tentativa com mais sabedoria.

E é este o ponto que eu gostaria de trazer no post de hoje. O mais importante com um erro depois que ele ocorre é o como tratamos este erro. Se o colocamos na esfera moral e passamos a nos tratar como incompetentes que não merecem uma segunda chance ele se torna restritivo da nossa evolução, passamos a temer o erro porque ele significa portas fechadas sempre. Se, por outro lado, não nos enfraquecemos e buscamos no erro o próximo passo, estaremos aprendendo a criar auto confiança (sim, ela existe mesmo no erro) e a gerar novos aprendizados a partir da nossa experiência, o que se chama por aí de auto conhecimento.

Assim sendo, se você tem um erro que o impede ainda hoje de tentar algo novamente e você deseja tentar, faça o seguinte. Relembre a cena do erro, o contexto no qual você estava vivendo e quem você era naquela situação. Pense em tudo o que você fez buscando compreender o que fez com que você tivesse errado e não chego no resultado desejado. Depois, pense no que poderia ter feito para garantir um novo resultado, pense em várias situações possíveis, pelo menos três estratégias diferentes. Se não sabe, pergunte à alguém que saiba como fazer, alguém que já passou pela experiência e se deu bem.

Imagine-se fazendo “a coisa certa” com vários comportamentos à disposição, no caso da opção A não dar certo. Faça isso até sentir que “aprendeu” com o seu erro. Uma vez que isso tenha acontecido, imagine-se no futuro tentado realizar a mesma coisa novamente, agora de posse destes novos aprendizados. Veja como se sente. Vale a pena tentar de novo?

Óbvio, estas dicas não devem ser utilizadas em casos de erros que podem colocar sua vida em risco, ou que podem ser potencialmente danosos. São linhas gerais de comportamento que as pessoas usam para aprender com seus problemas, use estas ideias com parcimônia e busque auxilio e um profissional caso sinta que isso é necessário.

Abraço

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Me encontrar
20/07/2015

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  • Mas Akim… como que eu vou saber o que fazer se nem sei quem sou?

  • Qual o problema?

  • Esse! Se não sei quem sou, não sei o quero não é lógico?

  • É. Porém… saber que não sabe quem é implica em saber quem se é.

  • Como?

  • Para você saber que não sabe quem é você precisa ter um modelo de quem você é para comparar o modelo com quem você é hoje e afirmar: isto não sou eu.

  • Hum…

  • Em outras palavras: como você sabe que não sabe quem é?

  • Eu deveria ser mais… sei lá… corajoso.

  • Então você é covarde ou está com medo?

  • Sim.

  • E você sabe disso? Reconhece isso aí na sua experiência?

  • Sim.

  • Ótimo, você é isso! Agora sabe “quem” é: neste momento, a experiência do medo.

  • Que louco isso…

 

Se encontrar. Este parece ser um grande desejo das pessoas hoje em dia. “Ser eu mesmo”. Porém, como fazê-lo? Talvez o primeiro passo seja pensando de uma maneira útil na questão.

Quando pensamos em “nos encontrar” temos que compreender que o nosso “eu” já está aí, pronto em algum lugar apenas esperando para ser descoberto. Uma maneira muito cartesiana de refletir, inclusive. A verdade (ou o “eu”) está na natureza, apenas precisamos capturar isso, compreender isso e tudo estará resolvido. O problema que surge, então é: procurar aonde?

As pessoas, com isso vão atrás das respostas disponíveis. Em nossa cultura, o consumo é a grande resposta e hoje ele aparece transvestido de várias maneiras: o consumo de amigos, de relações, de festas assim como o clássico consumo de produtos em sua grande infinidade. Outras pessoas aparentemente com um pouco mais de consciência buscam psicoterapia ou outras formas de auto descoberta. No entanto, muitas delas continuam com o paradigma de se encontrar em algum lugar (talvez, neste workshop, eu consiga). Ledo engano.

O problema é que o “eu” que buscamos não pode ser encontrado por estas vias. Em primeiro lugar porque o “eu” não é uma coisa, ele não é uma substância que pode ser encontrada em algum lugar assim como encontramos as chaves do carro que esquecemos na cômoda. Assim sendo o “eu” não está em algum lugar, muito menos ele está “pronto” e esperando por ser descoberto por nós. O que seria até um certo contra-senso: como eu posso me achar em algum lugar se não sei quem sou? (Sei o que minhas chaves do carro são, por isso posso encontrá-las, mas como não sei quem sou, como vou me achar em algum lugar – mesmo que o eu pudesse ser encontrado eu não o veria)

Para resolver o problema talvez tenhamos que voltar ao oráculo de Delfos para compreender a questão do “eu” de uma maneira mais útil. “Conhece-te a ti mesmo” diz o oráculo. Ora, embora o conselho pareça óbvio, ele se torna mais enigmático à medida em que adentramos na sua elaboração. Conhece-te a ti mesmo tem uma implicação um tanto desconfortável para nós ocidentais. Implica que não somos um “eu” inteiro, ou seja, temos um eu que “é” e um que o “conhece”. Como?

Para que eu conheça algo é preciso observar este algo, compreender de alguma maneira. Mesmo que isso se dê na relação, a relação implica dois seres. Assim sendo o eu que “conhece” é diferente do eu que é conhecido. Quando o oráculo diz “conhece-te a ti mesmo” ele está dizendo que o “eu” que manifestamos é apenas mais uma experiência e não “a” experiência, como gostamos de achar no ocidente. Se conhecer está, então envolvido em experimentar aquilo que dizemos que somos e compôr um conhecimento sobre esta experiência. Saber que esta experiência é apenas mais uma é, por fim, a grande sacada à respeito do ato de “se encontrar”.

De outra forma: quando pequeno experimentava quem sou através das brincadeiras com outras crianças, por exemplo. Quando adulto posso seguir a mesma linha e me perceber no convívio com outras pessoas em bares e festas. No entanto, também posso experimentar quem sou no meu trabalho. O encontro com o “eu” se dá quando se percebe que o “eu” é a experiência e não uma coisa ou entidade. Se encontrar, então, tem muito mais à ver com experimentar aquilo que acho que sou, compreender o que e como vivi isso e, com base nesta experiência e na compreensão extraída dela, decidir o que se continuará fazendo.

Nós temos a tendência de nos identificar com as nossas experiências e dizermos que somos elas. Isto leva à um engessamento que pode ser proveitoso para algumas coisas e prejudicial quando as situações requerem comportamentos novos. Quando é possível ampliar ou modificar o que chamamos de eu, podemos ter uma compreensão ainda maior do que “somos”, ou seja, do processo que usamos para dar à nós uma identidade capaz de ser concretizada no mundo.

Mas enfim, como se encontrar? Preste atenção à sua experiência. Ao que já ocorre com você, em você, ao como você sente, pensa e age. Isso é a experiência que você se permite ter daquilo que você considera ser você. O encontro está exatamente aí. Não em algo externo, e acabado, mas em algo interno e em constante processo de “vir-a-ser”.

Abraço

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A importância da flexibilidade
17/07/2015

Flexibilidade

– Mas Akim, o que você quer dizer?

– Que você está muito rígido, não consegue flexibilizar o comportamento.

– Quer que eu não faça nada, é isso? Deixe ela montar em mim!

– Não, nada a ver com isso.

– Então o que?

– Simples: de que outras maneiras você pode ser atendido no que é importante para você?

– Como assim?

– Você quer que ela seja “companheira”, ok, mas ela deixou claro que estar o tempo todo disponível à você não é uma opção. De que outra maneira você pode senti-la como companheira que não essa?

 

A flexibilidade é uma característica importante para nossas vidas, mas compreender o que de fato é ser flexível é igualmente importante para que não se cometam erros de comportamento que prejudicam a vida ao invés de ajudá-la.

A primeira coisa que ser flexível não é, é ficar “engolindo sapo”. Em geral quando dizemos à alguém: “seja flexível”, a réplica vem à galope: “você quer que eu fique quieto frente à isso?” ou “não quer que eu faça nada?”. Este tipo de atitude vem de uma falta de compreensão sobre o que é flexibilidade e confunde flexibilidade com falta de atitude. Bem, flexibilidade é tudo, menos falta de atitude. Muito pelo contrário, para se ter esta característica é importante estar muito bem fundamentado em suas crenças e prioridades.

Em geral, o que ocorre é que as pessoas encontram uma forma de atender suas necessidades e desejos e se fincam nesta maneira como a única possível de obterem o que querem. Início do desastre. Porque? Porque ou elas levam sorte ou terão uma vida muito pouco rica. Em geral pessoas que são muito rígidas nas suas maneiras de atingir seus objetivos são mais infelizes e brigam muito com os outros por causa desta rigidez. Elas, também, não adquirem um auto conhecimento bom o suficiente para saber de que outras maneiras podem se satisfazer.

Flexibilidade é a habilidade que lhe permite ter vários comportamentos para atingir o mesmo fim. Ter flexibilidade, portanto, significa saber muito bem o que se quer. Saber o que é importante naquilo que se quer e entender quais são as maneiras possíveis de atingir este fim. A pessoa, para desenvolver a flexibilidade precisa ser criativa e ter foco firme (ou seja, longe da ideia de ser fraca ou não saber o que deseja). O foco é onde ela precisa chegar, a criatividade é o que a faz ter vários meios para atingir isso.

O primeiro passo é conhecer muito profundamente aquilo que queremos. As pessoas, em geral, tem noções vagas do que querem e do que é importante para elas nisso. Por exemplo: dizemos que queremos pessoas companheiras. Porém “companheira” se dá de que forma? Para que isso é, realmente importante? Uma coisa é uma pessoa que vá com você fazer compras, outra é uma pessoa que compartilhe suas emoções. Estes dois comportamentos bem distantes podem ser sinônimos de “companheira” e é muito óbvio imaginar que estes dois estilos de companheira atendem necessidades muito específicas.

O caso acima, por exemplo, traz uma pessoa que desejava disponibilidade integral além de exclusividade como sinônimos de “companheira”. Fácil perceber que eram critérios difíceis de serem atendidos. Porém, indo afundo percebemos que estes dois elementos eram uma forma de dizer que ele queria ser reconhecido por quem era. Ora, isso é mais fácil que disponibilidade integral, porém, de que maneiras perceber que ele poderia ser reconhecido? Começamos a compreender que ele poderia ter uma pessoa que soubesse elogiar e validar positivamente seus comportamentos em casa – onde ele era mais sensível – como fazer café e arrumar a cama.

Assim sendo passamos de uma pessoas que precisava ser o tempo todo disponível e gostar “apenas” dele para uma pessoa que soubesse elogiar seus movimentos. Isso é ser flexível. Além disso, ele expandiu seu repertório e começou a perceber que poderia ser elogiado no trabalho e em situações sociais, quando passou a dar valor à estas experiências a própria necessidade de recebe-las diminuiu e ele compreendeu que ele mesmo poderia se elogiar e, com isso, aprendeu a se dar valor. Isso é flexibilidade!

E você: rígido ou flexível?

Abraço

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Não abra mão!
15/07/2015

Nao abra mão

 

  • Ah Akim, mas é difícil… quando eu vejo aqueles doces todos…

  • O que acontece?

  • Eu logo penso em comer aquelas delícias!

  • Sim, o que acontece se você ao olhar aquelas delícias, pensar em você frustrado com o peso acima do normal?

  • Eu penso duas vezes em comer…

  • E se além disso, pensar no seu diabetes finalmente estourando e você tendo que realizar seu medo de se tornar dependente de insulina?

  • … mas é ruim pensar em doces assim!

  • Claro, mas no seu caso é real também não é? Os doces não vão trazer apenas o sabor não?

  • É… é verdade…

  • Além disso, pensar em doces como algo ruim faz sentido nesse momento não?

  • Também…

  • Que tal pensar assim quando estiver “frente a frente” com os “temíveis doces deliciosos provedores de diabetes”?

 

Quando falamos em mudanças as pessoas, em geral, focam na aquisição de um determinado comportamento, ou seja, em aprender a exibir um comportamento, ter uma atitude específica para alcançar um resultado. Pouco se fala, por exemplo, em sustentar este comportamento. A questão é que, a não ser que você precise de um ato apenas em um momento e nunca mais, a parte mais importante é sustentar e não, exatamente, ter um comportamento novo.

O que quero dizer é que “mudar” é fácil, é simples ter um comportamento novo de maneira aleatória, a maior parte dos clientes que atendi já fizeram o que querem “aprender a fazer” uma vez ou outra. Qual o problema então? A falta de consistência da atitude que desejam incorporar à sua identidade. Esta falta é que faz com que a pessoa não sustente um novo comportamento e, por este motivo, não consiga se manter fazendo aquilo que já sabe fazer, mesmo que isso seja melhor para ela.

Um exemplo clássico é a perda de peso. Sempre que as pessoas me procuram com este tema e eu pergunto o que querem a resposta é a mesma: quero perder peso. Já começou errado, perder peso é fácil! As pessoas que estão sempre fazendo dieta sabem disso, se somarem quantos quilos já perderam ao longo dos anos em que fazem dietas já teriam chego ao peso ideal á muito tempo. A questão não é: “como faço para perder peso”, mas sim “como fazer para manter um peso “x” ao longo da minha vida?”.

Quando fazemos a pergunta desta maneira a coisa muda de figura. O quero perder peso assume um caráter novo, à saber, um projeto para a vida (e não é isso que as pessoas realmente querem? Um novo peso para o resto da vida?). O mesmo vale para a aquisição de um novo comportamento, ou, para uma “mudança”: “como sustentarei este novo comportamento o resto da vida?” Nesta pergunta surge o importante elemento de “não abrir mão”, ou seja, existem momentos em que nossos comportamentos são “testados” (situações que, para cada um de nós, manter o comportamento é mais difícil). No exemplo de manutenção de peso, um teste comum são festas de final de ano. E aí, como fazer para “não abrir mão?”

O ponto é ter seus critérios muito bem estabelecidos. Ou seja, é importante quando fazemos uma mudança saber o que nos permite abrir mão de nosso comportamento e o que não nos permite. Por incrível que pareça ter os limites de “quando abrir mão” bem definidos ajuda a manter o comportamento e a “não abrir mão dele”. Em geral, aconselho meus clientes a assumirem um critério geral no qual aquilo que me fará abir mão deve ter um valor maior do que a manutenção do meu comportamento no mesmo nível de aplicação de critério.

Por exemplo: no caso da manutenção de peso o critério empregado é saúde, assim mantenho uma rotina alimentar com base na ideia de que cuidar da manutenção do meu peso significa cuidar da minha saúde. Isso quer dizer que a escolha do que e de quanto comer não é um fim em si mesma, mas sim uma ferramenta para eu ter mais saúde. Logo apenas me permito abrir mão do meu comportamento quando algo no mesmo nível de critério – saúde – surge como uma oportunidade de abrir mão do meu comportamento. Por exemplo, posso me permitir comer à mais no meu almoço se sei que farei uma viagem ou estarei envolvido numa atividade durante a qual não poderei comer e, para manter minha energia, devo comer um pouco mais em uma refeição afim de não passar fome e comer à mais de maneira descontrolada mais tarde.

Quando temos este critério bem definido para cada área de nossa vida é fácil descobrir o que devemos fazer: é simplesmente comparar aquilo que se apresenta com as possibilidades. Se “bater” a oportunidade com a possibilidade, segue-se com a nova escolha senão fica-se com o comportamento antigo. E aí, vai abrir mão da sua felicidade?

Abraço

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Dai-me paciência!
13/07/2015

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  • Akim… hoje você vai se irritar comigo.

  • Ah é, porque?

  • Eu recaí novamente.

  • Entendi, o que aconteceu?

  • Ah… peguei a gúria lá de novo, não aguentei.

  • E o resultado?

  • O de sempre.

  • Ok. Bem, antes de entender a recaída, me diga: porque vou ficar irritado com isso?

  • Ah… a gente trabalha um monte e eu não mudo.

  • Hum, entendi. Mas veja, o simples fato de perceber que ficar com ela é uma “recaída” já é muito bom pra mim.

  • É… você sempre tem isso de olhar para o lado bom.

  • Você está mudando o comportamento, porque não deveria olhar para isso?

  • Mas foi muito tempo para entender isso.

  • Foi o seu tempo… talvez você esteja irritado com você não é mesmo?

  • É… talvez seja mais isso… eu sabia que ia dar errado… mas fiz de novo sabe?

  • Sei… e não te censuro por isso, acho que a sua dor já te basta.

Acredito que quase todo mundo já teve esta necessidade na vida: ter paciência. Muitas são as piadas com isso “dai-me paciência porque se me der força eu mato” ou “dai-me paciência, mas me dê agora!”. Porém a questão é sempre a mesma: como gerar este estado?

O primeiro engano é achar que devemos nos sentir neutros ou ignorar o que está acontecendo. Porque? Porque para ignorar eu preciso, primeiro, perceber e me incomodar. Ignorar é um esforço para tornar algo que está na minha percepção menos valorizado, porém o fato é que aquilo que me incomoda fica sempre na percepção o que, também, gera incomodo. Ser neutro é algo de outra esfera física, Ao humano não é possível “ser neutro”, ou seja, se algo mexe com a gente, simplesmente aceite isso e lide com a sua reação, este é o caminho para começar a ter paciência. E, por fim, é um engano porque as pessoas que são pacientes não são neutras e nem ignoram o que está ocorrendo, elas tem uma outra reação.

A estrutura da paciência requer que você perceba o que está acontecendo, de valor para o que incomoda. No entanto, quando digo dar valor, é importante saber “qual” valor dar. Pessoas pacientes entendem os elementos que as incomodam como algo que não é delas. Ou seja, o vizinho chato não é um “problema meu”, ELE é chato, neste sentido, ele tem um problema. Ao perceber a situação dessa maneira existe uma sensação de “estar de fora”, esta sensação causa uma tranquilidade.

Outro fator importante na elaboração do estado de paciência é observar o comportamento ao longo do tempo, para isso, a primeira condição (acima citada) é importante. Ao estar distante do comportamento posso entender a pessoa ao longo de sua história de vida. Vendo desta perspectiva ampla o comportamento que está sendo exibido saí do “momento” e entra na “história”, com isso é mais fácil perceber que a pessoa não está sendo assim “com você”, ela, simplesmente, é assim. Isso também ajuda a não levar para o lado pessoal, outra característica da paciência.

Ao ver o comportamento como algo construído ao longo do tempo, também é possível se colocar num papel diferente. Se eu não sou o alvo dessa pessoa maligna e sim, mas um com o qual ela se relaciona desta maneira, que posso ser? Posso ser um professor, posso ser alguém com quem ela poderá ter uma surpresa, posso ser uma pessoa que (finalmente) vai entendê-la, ou encará-la. Assumir este papel é lidar com o comportamento e não com a pessoa. Uma vez que esta perspectiva é assumida “ser paciente” não é algo com a pessoa e sim com a maneira dela se comportar. Isso cria um desapego em relação à mudar a pessoa o que culmina numa paciência mais estruturada.

Em resumo, podemos dizer que a paciência se organiza quando a pessoa percebe o comportamento como intrínseco da pessoa e dá atenção ao comportamento e não à pessoa (ou seja, não faz juízo moral dela e não leva para o lado pessoal), percebe este comportamento como algo gerado ao longo do tempo, se coloca numa atitude positiva frente ao comportamento e não assume como seu o problema, apenas a postura que irá assumir frente à ele.

E aí, ajudo ou tenho que ter paciência?

Abraço

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Qual a essência da “beleza”?
12/07/2015

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