Desejo e culpa

medo

– Não sei bem o que acontece, mas toda vez que consigo algo me sinto mal.

 – O que você sente, especificamente?

– É como se aquilo não fosse para mim… não sei se eu não mereço.

– Pode ser. Veja se é isso ou algo mais próximo de uma sensação de ter feito algo errado.

– Acho que é mais isso… eu até desmereço algumas conquistas para elas não brilharem muito.

– Ok… então você é culpado do seu sucesso é isso?

– (Risos) Nunca tinha pensado desse jeito… mas é mais ou menos isso.

Ter um bom contato com nossos desejos e nos permitir vivê-los tem relação com uma vida saudável. Porém, é comum que o desejo e o ato de desejar encontrem-se vinculados à emoções negativas.

Na educação de uma pessoa, seus pais ou responsáveis podem, por vários motivos, associar o ato de desejar, de buscar com sentimentos como a culpa. Sentir-se culpado por desejar pode ser uma das combinações mais complicadas que a pessoa pode sentir. A culpa implica em dívida, então se a pessoa sente culpa pelo ato de desejar, significa que ela está rompendo as regras e, por isso, assumindo uma dívida.

O problema é que o ato de desejar é inerente ao ser humano, assim a pessoa encontra-se fadada à sentir culpa o resto de sua vida por seus desejos. Algumas pessoas resolvem parar de desejar, de crescer e vinculam-se profundamente à família para manter o status ao qual pertencem e, com isso, eximirem-se da culpa. Outros continuam buscando seus desejos e sua vida e o problema – por incrível que pareça – está quando conseguem. Porque?

Porque ao ousarem e buscarem aquilo que desejam, rompem com a aliança familiar. Este rompimento é passível de punição, porém a concretização do sonho da pessoa, dos seus desejos – embora tenho um lado de conquista – pode assumir um caráter de concretização da culpa. É como se ao conseguir ela também estivesse de maneira definitiva rompendo com as regras e, por este motivo, a emoção é ambígua: ela sente orgulho e desejo de comemorar ao mesmo tempo que sente culpa pela sua capacidade de realizar seus sonhos.

Esta emoção – a culpa – pode ser sentida ou velada. A pessoa pode ter consciência dela sentindo-se ansiosa ou insegura toda vez que assume uma conquista ou está prestes à faze-lo. Também pode ser que ela rompa bruscamente com aquilo que está fazendo, “desista” para não ter que realizar o feito e, assim, não entrar em contato com a culpa. Pode sabotar-se continuamente também como uma maneira de auto punição.

A questão da culpa é compreender a sua origem, ou seja, o que foi, de fato, violado. Depois disso compreender como se pode “pagar a dívida” que a culpa gera. No entanto, muitas vezes se percebe que a regra que foi violada não faz parte do conjunto de regras da própria pessoa. Neste caso o trabalho visa, então, ajudar ela a sustentar o seu próprio conjunto de regras. Assim poderá compreender que embora rompa com regras familiares, não estará rompendo com suas regras pessoais. Compôr suas regras pessoais o ajudará a negociar novas fronteiras com sua própria família também, uma nova maneira de ser dentro de um espaço antigo.

E este, talvez seja o ponto mais importante: aprender a se definir de uma nova maneira, dar-se um papel ou uma maneira de viver o papel que já possui. Assumir a nossa forma e as consequências da nossa forma sem entender isso como punição e sim, como algo “natural” ao nosso universo: que ações tem reações.

Abraço

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