Archive for janeiro \31\UTC 2014

A felicidade se foi
31/01/2014

– Pois então Akim, isto foi o que decidi.

– Entendo.

– Prefiro escolher não me incomodar com tudo isso do que enfrentar esta situação.

– Sim, estou vendo.

– É… eu sei que me faria bem continuar, mas pra que?

– Pra que, de fato?

– Não sei… prefiro não me incomodar com isso. Além do que nessa altura do campeonato… pra que?

– Vai desistir então?

– Sim, vou parar tudo e não vou mais pensar no assunto. Já abri mão de tanta coisa na minha vida, posso abrir mão de novo.

Esta sessão me fez parar para pensar muito sobre a vida e as escolhas que fazemos.

Quantas vezes escolhemos o caminho mais fácil e deixamos de lado a felicidade que estava logo ali, atrás de um pouco de esforço? Quantas vezes vivemos os meses, os anos em um desespero silencioso que nos encontra à noite quando encostamos a cabeça no travesseiro? Quantas vezes repetimos a mesma escolha fadada ao fracasso novamente e novamente?

Muitas pessoas me criticam quando falo sobre planos, desejo e felicidade. “A pessoa pode não conseguir aquilo que quer, e aí?”, “a sociedade de consumo atual não dá os meios de todos terem aquilo que querem, e aí?” Talvez soe um tanto piegas, porém minha resposta sempre tem sido: o que importa não é aonde chegamos, mas como viajamos. Não conseguir não é o problema, o problema é nunca ter tentado.

Por isso entendo, hoje, que a felicidade morre quando a pessoa pára de buscá-la. A felicidade, a auto estima, o bem estar, a paz interior… o que são? Nada senão ideias… ideias que falam sobre uma experiência, algo que vivemos dentro de nossas peles. E para viver é preciso o movimento, a ação, sem ela, nada existe, nem a felicidade, nem a auto estima, nem o bem estar ou a paz interior… não podemos trocar palavras por atos, não podemos trocar ideias por experiência.

Algumas vezes, no entanto, precisamos parar para nos recuperar e seguir em frente mais tarde. Existem momentos em que a dor ou o choque são muito fortes e precisamos de um retiro. A sensação pode até ser de desistência, mas algo em nós ainda deseja o futuro. Espero, sinceramente, que este seja o caso desta pessoa.

Abraço

Visite nosso site: http://www.akimneto.com.br

Anúncios

Aquilo que não sei de mim
29/01/2014

– Eu estou meio angustiada

– O que está angustiando você?

– Não sei ao certo… eu tive um sonho esses dias e depois disso fiquei incomodada.

– Ah é? Me conte o que te incomodou dele?

– Não sei ao certo… mas acho que tem a ver com eu ter brigado feio com meu pai no sonho.

– Hum e o que te angustia nisso?

– Eu não sou de brigar! Não gosto disso e acho falta de respeito brigar, brigar com o pai então… pior ainda… mas eu meio que gostei de ter feito isso no sonho.

– Olhe só… o que será que te fez “gostar” disso?

– Hum… não sei Akim… será que porque eu achava certo brigar com ele?

– Não sei, me diga você.

– Eu senti, depois do sonho, que eu fiquei mais “boca aberta” sabe? E estou meio que gostando disso, embora eu ache feio, estou gostando.

– Perfeito… será que tem aí coisas para você aprender sobre você?

– É o que parece né?

Muitas pessoas falam do inconsciente como se fosse algo à parte das pessoas: “isso é algo que veio do inconsciente”; como assim, ele enviou algo por SEDEX para você? Quando se fala “do inconsciente” parece algo tão impessoal e eu não gosto desta abordagem.

Para mim o inconsciente faz parte do “ser”, ele não é algo à parte, mas sim do todo. Muitas vezes não combina com a nossa “auto imagem”, porém dizer isso não significa dizer que não faz parte do meu ser. Gosto de entender ele como aquilo que não sei de mim, aquilo que me surpreende, aquilo que me faz perceber – não que eu não sou dono de mim – mas sim que eu sou muito mais do que eu consigo perceber com a minha limitada consciência.

Esta percepção ao invés de me fazer temer o meu inconsciente me ajuda a buscar uma proximidade maior com as coisas “esquisitas” que eu sinto e percebo sobre a minha experiência. Ao invés de tentar controlar os impulsos, eu busco permitir que eles guiem a minha consciência para onde ela se faz necessária, compreender essas coisas que não sei de mim como mensagens minhas para eu mesmo é muito mais interessante do que entender como algo que está “fora do meu controle”.

Somos um processo vivo e ele não precisa de “controle”, mas sim de “domínio” e só posso “dominar” – no sentido de compreender, entender e saber como lidar – quando permito que aquilo que entendo como estranho apareça e faça parte, senão buscarei controlar para manter represado. Assim sendo, a melhor forma de lidar com aquilo que é estranho em mim é entender que isso também sou eu, por mais estranho que pareça e, uma vez feito isso, posso guiar-me de acordo com o que se pode fazer com aquilo.

Como disse um poeta cujo nome não me recordo, a pessoa morre quando perde a capacidade de se surpreender consigo.

Abraço

Visite nosso site: http://www.akimneto.com.br

Auto estima demais
28/01/2014

autoestima demais

“A sua auto-estima pode estar pedindo demais à você. Vamos começar pela auto aceitação.”

A tirinha é perfeita e reflete o pensamento de vários estudiosos da auto estima e dos movimentos sociais de que o excesso de foco no indivíduo atualmente contribui para um aumento na taxa de depressão e baixa auto estima.
Porque?

Pois quando o indivíduo fica com um foco muito grande ele se sobrecarrega e coisas simples são ignoradas ou assumem um papel muito maior do que o necessário.

Relaxe, aceite-se, isso pode ser o caminho para a sua virada!

Motivos
27/01/2014

– Eu já entendi que isso me faz mal, mas ainda faço isso sabe?

– Sim, o que te motiva à isso?

– Eu não sei porque estou fazendo isso.

– Ok, mas quero que pense em outra coisa: feche os olhos e lembre de quando faz isso…

– Certo…

– Agora tente perceber o que motiva você a fazer isso, o que acontece um pouco antes daquele momento no qual você decide fazer isso.

– Hum…

– Vá no seu tempo, perceba agora o que te motiva

– Eu sinto que quando eu penso nele me dá vontade de fazer isso…

– Ótimo… tente imaginar você sem pensar nele, imagine como seria…

– Se eu não penso nele parece que não tem sentido fazer isso sabe?

– Sim, sei, perfeito!

Muitas pessoas querem entender o “porque” do seu comportamento.

“Porque” é relacionado com uma ideia, uma crença. Quando se pergunta o “porque”, muitas vezes os clientes respondem algo evasivo como “porque sim”, “porque sempre fiz isso” e o pior é que as respostas estão – dentro da lógica – corretas.

No entanto, quando perguntamos “o que motiva” a resposta não pode ser “porque sim” ou “porque sempre fiz isso”. “Motivo” é algo mais “concreto” e substancial, ele força o raciocínio da pessoa à busca o elemento que “dispara” as suas reações. Obviamente junto com este elemento podemos encontrar crenças que justifiquem a forma pela qual a pessoa o percebe para ter uma dada reação, porém apreender o(s) elemento(s) motivdor(res) é um ponto fundamental.

Porque?

Quando percebemos o que nos motiva começamos a lidar com algo mais concreto e perceptível. É neste ponto que, em geral, as pessoas dizem coisas como “não sei o que me dá” e “quando vi, já fiz”, este tipo de discurso é aquele de quem desconhece os seus motivadores internos para determinados comportamentos. O motivador está lá, mas a reação da pessoa é tão automática que ela nem sequer percebe sobre o que está reagindo.

Assim sendo quando nos perguntamos sobre nossos motivadores é importante buscarmos aquele elemento sem o qual a nossa resposta não faz sentido. Assim como no exemplo acima, quando a pessoa identifica o motivador e imagina-se sem ele o comportamento deixa de ter sentido – justamente pelo fato de não ter o que o motiva. Neste caso pensamos que a crença, a resposta para a pergunta “porque”, ainda está lá, porém ela não faz muita diferença visto que não existe o elemento motivador eliciar o comportamento da pessoa.

De posse da percepção do que motiva o comportamento a pessoa pode realizar mudanças mais eficazes em sua vida pois começa a perceber de forma direta ao que está reagindo e então modificar o seu comportamento – interno e externo.

O que te motiva?

Abraço

Visite nosso site: http://www.akimneto.com.br

Individualidade
26/01/2014

“Posso usar meu dedo para apontar para a lua,

mas meu dedo não é a lua

e você não precisa dele para ver a lua, certo?”

(do livro Zen em quadrinhos de Tsai Chih Chung)

Ao realizar no google uma pesquisa de imagens com a palavra “individualidade” vi várias imagens diferentes mostrando uma mesma ideia: a  de que “individualidade é ser diferente”. As imagens apresentam uma disposição como essa abaixo:

individualidade1-200x200

Outras imagens seguem a mesma linha de raciocínio: várias bolinhas de uma cor e uma de cor diferente no meio delas, pintinhos, triângulos, um monte de carinhas tristes e uma feliz no meio, vários homens de terno e um de jaqueta, enfim, todas com a mensagem de que a individualidade é ser diferente dos outros.

Pensei comigo: “Este é um dos motivos pelos quais temos uma sociedade tão individualista como a que temos hoje”. O que uma coisa tem a ver com a outra? Me segue aqui e veja o que você acha da minha opinião.

Se individualidade é “ser diferente dos outros” isso resulta que eu afirmo o meu eu ao me afirmar diferente de você. Na verdade eu não afirmo o que sou, eu apenas afirmo o que não sou. “Eu não sou como os outros, portanto, tenho a minha individualidade”. É a definição do eu por exclusão: como eu não sou nenhum dos outros, eu sou eu.

Portanto, na prática, tenho que ficar me comparando o tempo todo com as pessoas, olhando o que elas fazem e são e buscando ser diferente de tudo isso. A forma de viver do outro me incomoda porque se eu me perceber semelhante ao outro eu passo a não ser mais eu! É uma “guerra” na qual tenho que vigiar o inimigo que pode ficar igual à mim e, com isso, roubar o meu eu.

E se individualidade não tiver nada a ver com os outros?

Individualidade tem a ver com o indivíduo e não com o coletivo. A pergunta não é “como me diferenciar dos outros”, mas sim como “me identificar” enquanto indivíduo. Imagine, por exemplo, que você vai comprar roupa: pensar da primeira forma significa pensar numa roupa que mais ninguém vai comprar, pensar da segunda significa comprar uma roupa que tenha a ver com você.

Quando pensamos nas pessoas lembramos das características delas que nos chamam a atenção, daquilo que apreciamos e gostamos nelas – ou que não gostamos – e não naquilo que ela não é igual à nós. Identificação se dá quando tornamos algo único e não quando o diferenciamos do restante. A questão fundamental é o foco: me tornar único versus me tornar diferente dos outros.

A segunda falha, à meu ver, nesta forma de pensar, é que no caso da diferença ser algo importante não é necessário fazer nada, porque os seres humanos não nascem iguais um ao outro. Mesmo os gêmeos não são 100% iguais. Assim sendo é um discurso vazio porque te diria para fazer algo que já acontece naturalmente.

Penso individualidade junto com duas outras palavras: “eu” e “individuação”. Individualidade é a habilidade que a pessoa tem para definir, expressar e mudar o seu “eu”. O “eu” é o conceito que a pessoa tem de si, a sua “auto imagem”, assim como a manifestação concreta desse conceito. “Individuação” é o processo entre o conceito e a materialização deste conceito.

Vamos por partes.

Em primeiro lugar quero deixar claro que discordo de que nosso “eu” se define quando nos diferenciamos dos outros. A diferenciação, na minha opinião, é uma conseqüência óbvia do processo de individuação, mas não é o seu cerne. Entendo que a pessoa aprende quem é na medida em que se aproxima do seu “eu” e não na medida em que se afasta dos “outros”.

Assim sendo a pergunta “o que é o eu?” se torna fundamental. O “eu” pode ser entendido como aquilo que pensamos sobre nós mesmos, nossa auto imagem ou auto conceito. Este “eu” também abarca alguns conceitos que temos, mas que não estamos totalmente conscientes, ou seja, nosso eu vai muito além daquilo que conseguimos perceber sobre nós mesmos. É quando – depois de realizar um determinado ato – falamos: “nunca pensei que conseguiria fazer isso”. Entendo como uma demonstração de que existem partes nossas que existem, mas que não percebemos.

Este conceito, esta ideia de quem sou teria um caminho de se manifestar no mundo, expressar-se e para fazê-lo precisaria de certas competências, daí o termo “individualidade”, ou seja, a habilidade para criar aquela ideia, para tornar o conceito “real”. É como o artista que elabora a ideia de sua obra em sua mente e então precisa desenvolver as habilidades necessárias para torná-la concreta.

Usando este exemplo é muito claro como o “eu” tem uma relação direta com a “individualidade”, pois, a habilidade da pessoa em expressar determinados desejos, determinados comportamentos terá relação direta com se ela está manifestando o conceito que tem em mente. Ao mesmo tempo, ao expressar – da forma que for – isto causará uma repercussão no meio ambiente e nas pessoas ao seu redor o que poderá afetar a própria concepção que a pessoa tem de si. Um outro final possível é que, ao expressar ela resolva que “não era bem aquilo” ou que o que foi expresso “não foi bom” e decida modificar seus conceitos pessoais.

“Está na hora de crescer” um cliente me disse certa vez. Ele estava cansado da sua concepção de “adolescente” dele mesmo. Precisava agora de algo mais para sua vida. Obviamente as partes boas de “ser adolescente” ele guardou e começou a inserir novas imagens e conceitos sobre si e sobre como viver na sua auto imagem. Ele passou por todo um processo no qual aprendeu novas formas de pensar, se perceber e avaliar a vida e seus comportamentos. À este processo damos o nome de individuação.

Então temos que “ser” tem a ver com experimentar, expressar, tornar concreto um conceito que temos de nós mesmos, ao fazer isso entramos no processo de individuação o qual cada um viverá e desenvolverá à sua maneira – uns mais rápidos, outros mais metódicos, alguns “deixa a vida me levar – para desenvolver as competências necessárias – individualidade – para tornar nossas ideias sobre nós mesmos “reais”.

À medida em que vamos conseguindo e dominando as habilidades vamos amadurecendo. Daí que maturidade não tem a ver com regra sociais, mas sim com o domínio que temos sobre nosso comportamento e sobre nossa identidade. À medida em que uma pessoa se torna madura ela se torna mais flexível em sua forma de ser, pois ela detém domínio sobre ela. Assim sendo é muito difícil fazer com que uma pessoa madura sinta que “perdeu” sua identidade. Ela sabe como se usar de várias maneiras mantendo, assim a sua perspectiva pessoal. Stanley Keleman certa vez disse que maturidade é a habilidade humana de conseguir lidar com várias emoções conflitantes ao mesmo tempo. Porque? Porque para fazê-lo a pessoa precisar ter domínio de si, de seus comportamentos, objetivos e emoções. Note que “domínio” não significa “repressão”.

Expressindividuality

Vamos partir, então, do pressuposto de que o “eu” é essa ideia que temos de nós, nossa auto imagem – percebendo que existem aspectos conscientes e inconscientes desse eu, ou seja, elementos do nosso eu que percebemos e outros que desconhecemos – e que esta imagem é o que buscamos concretizar, tornar real em nossa experiência de vida através de nossas habilidades para fazer isso – individualidade – e que todo este processo – que dura a vida toda – é a nossa individuação a qual nos mostra o quão maduros estamos em relação ao nosso projeto de eu.

A criação deste “eu” é algo importante e mediado pela cultura também, ou seja, a cultura na qual estamos inseridos irá nos disponibilizar instrumentos e ideias sobre o que é ser um “eu”, como e ser um “eu”. A escolha de usar estes elementos ou não pertence ao indivíduo, porém, não há como negar que o fator social é poderoso e conta muito. Como nossa sociedade mostra isso, nos dias de hoje?

A sociedade em que vivemos é conhecida como a “sociedade de consumo”, ou seja, somos seres “projetados” para consumir os produtos e serviços oferecidos pelo mercado e para oferecer – mais tarde – à este mesmo mercado outros serviços e produtos. Assim sendo o conceito de “eu” neste cenário se aproxima muito do conceito de um produto. Zygmunt Bauman famoso escritor e sociólogo explora com muita precisão esta dinâmica e afirma em seu livro “Vida para consumo” (pg 13): “e os produtos que são encorajadas a colocar no mercado, promover e vender são elas mesmas” [as pessoas].

A frase é impactante quando pensamos sobre o seu significado: o “eu” hoje em dia está intimamente relacionado à ideia de um produto. Se você pensa que isso é exagero, é só pensar em um termo/ serviço muito usado: “marketing pessoal”. O que é marketing pessoal em sua essência? A arte de vender a pessoa da melhor forma ao seu público alvo. Ao pensar desta forma começamos a entender o porque que o termo “individualidade” está tão ligado à “diferenciar-se” dos outros; ocorre que na lógica de mercado isso é verdadeiro. Existem muitos produtos no mercado que são praticamente iguais, televisores, por exemplo, todos são praticamente iguais isso significa que, para vender, precisarei ter um atrativo, o que, na linguagem comercial chama-se de “diferencial de mercado”. Assim sendo, o produto que será mais vendido será aquele que tem o melhor diferencial de mercado – e que for melhor divulgado.

Quando pensamos as pessoas em termos de produtos à serem consumidos pensamos em termos de “melhor/pior”, “mais/menos” e, com isso, começamos a categorizá-las como produtos percebendo suas “vantagens e desvantagens” sobre o “concorrente”. O problema é que as tratamos assim, também fazemos isso com nós mesmos e, portanto, criar “diferenciais” torna-se uma atividade vital, porque o destino dos produtos que não são vendidos é a lixeira, ou pior, a pobreza.

Zygmunt Bauman fala sobre isto no mesmo livro citado acima (pg 19): ” Os encontros dos potenciais consumidores com os potenciais objetos de consumo tendem a se tornar as principais unidades na rede peculiar de interações humanas conhecida, de maneira abreviada, como “sociedade de consumidores”. Ou melhor, o ambiente existencial que se tornou conhecido como “Sociedade de consumidores” se distingue por uma reconstrução das relações humanas a partir do padrão, e  à semelhança, das relações entre os consumidores e os objetos de consumo”. O atualíssimo “lulu” ilustra totalmente o ponto com a sua dinâmica na qual as “consumidoras” criam um perfil do “produto” e dão-lhe notas, algo como as revistas de carro fazem com os novos modelos avaliando e dando notas para que o consumidor final possa “escolher” com mais facilidade.

Na medida em que preciso ser um produto “vendável” o outro passa a ter uma enorme influencia sobre mim, afinal de contas o meu “eu” precisa de reconhecimento – outra premissa da sociedade de consumo, pois produto que não é reconhecido, não é vendido e isso tem o mesmo significado de algo que não existe. Este reconhecimento é o que move as pessoas em suas intenções de consumo, que terminam sendo aquilo que definirá o seu eu.

Em outras palavras: como se define o “eu” numa sociedade de consumidores? Através da demonstração da minha competência para consumir. Assim como numa sociedade de guerreiros o “melhor homem” era o melhor guerreiro, na sociedade de consumidores o “melhor homem” é o melhor consumidor e nesta sociedade o mesmo vale para a mulher. Enquanto nas sociedade de guerreiros desejava-se uma mulher diferente do homem, agora deseja-se que a mulher tenha o mesmo papel: seja uma boa consumidora. E como se define o melhor consumidor? É aquele cujas compras se mostram mais aprovadas socialmente – pelo mercado. A ferramenta mundialmente utilizada para se fazer isso em sido as redes sociais e a televisão com programas de reality show mostrando quais as compras “boas” de serem feitas e quais as “ruins”.

É neste sentido que a tirinha de Calvin e Haroldo acima se mostra interessante, porque ela diz exatamente isso: sou o que consumo. Diferente de um tempo atrás em que era verdadeiro o mote “sou o que tenho”, “sou o que consumo” é muito mais fugaz, porque o consumo não é uma atividade à longo prazo, pelo contrário, ela é a curto, curtíssimo prazo. O que consumi hoje não valerá como consumo para o semestre que vem, ou para o trimestre que vem. É necessário uma nova fonte, um novo produto para mostrar quem sou e como sou. Afinal de contas, os produtos consumidos definem o meu eu e meu jeito de ser. É através deles que “mostro a minha cara”. O mais interessante é que ao mesmo tempo que o mercado de consumo pede pela diferenciação para que o produto seja mais vendável, ele também exige a adequação ao que está sendo comprado por todos, porque se você não o fizer estará indo “contra a corrente” e comprando algo “sem valor” o que o excluirá da lista daqueles que sabem consumir. É como na tirinha abaixo:

quadrinhos_318_individualidade

Esta paradoxo cria uma situação muito tensa, visto que o caminho – culturalmente falando – para alcançar o “amor do público” torna-se cada vez mais obscuro. O que vem com isso?

individualismo

Esta é a minha opinião, com a qual comecei este texto e à qual agora retorno para o fechamento e conclusão da coluna deste mês.

Creio que quando pensamos nas pessoas como mercadorias fazemos o mesmo conosco e, assim, toda e qualquer pessoa torna-se um concorrente em potencial. Se encaro o outro como um concorrente ele se torna uma ameça, qual a ameaça? De que ele seja um produto melhor do que eu e que, por esta razão, ele irá ser vendido e não eu. O meu destino, então, será o lixo.

Uma das forma de se defender disso é atacar o outro buscando ridicularizar a sua proposta de eu, seus costumes, seus trejeitos para que o público não o deseje. Outra forma é me blindar tão fortemente que não reconhecerei o “eu” do outro, ou seja, a indiferença se tornará a minha protetora.

Em meu consultório tenho visto como muito crescente a capacidade humana para não se interessar pelo outro, em não permitir que o mundo do outro influencie o da pessoa. Esta permissão é o que o psicólogo John Gottman traz como um elemento fundamental para um bom casamento em sua pesquisa além de seus livros. Quando não se faz isso criam-se barreiras entre as pessoas ao invés de pontes.

Porque isso ocorre? Na minha percepção ocorre porque quando o processo de individuação tem como base a diferença, se eu permitir que o mundo do outro entre em mim estarei perdendo a minha individualidade, eu preciso ser “diferente” do outro, portanto, não posso permitir-me ser “familiar” à ele em nenhum aspecto, sob pena de “não ser quem sou”. Pessoas com auto estima e auto conceito bem definidos não temem isso e, em geral, são atraídas para conhecer o mundo do outro porque aprendem com a experiência de outras pessoas e podem, inclusive, melhorar a sua própria forma de auto expressão.

Assim sendo quanto mais consumidores formos em nossas relações pessoais, mais produtos seremos por conseqüência. E quanto mais isso ocorrer mais o individualismo será uma das formas de reagirmos aos outros: mostrando uma pseudo indiferença frente à definição de “eu” do outro para poder, com isto, sustentar a minha percepção de “eu” que tenho de mim mesmo. Buscando, com isso o paradoxo: que o outro assuma a minha definição de eu para que eu me sinta segura e ao mesmo tempo insegura porque se ele tornar-se igual à mim não isso será uma afronta à minha definição de “eu” e eu terei que me diferenciar novamente para me tornar “eu” de novo.

“Quem é você?”, disse a Lagarta

(Alice no país das maravilhas, Lewis Carroll)

images

 

Sentido da vida
25/01/2014

1407/2013

O endiabrado Calvin acerta na mosca não acerta?

Qual o sentido da sua vida? Para onde você guia a sua existência?

O sentido da vida não está em algum lugar ou em alguma atividade, mas sim quando nós emprestamos à ela um valor que temos dentro de nós.

Por esta razão é uma pergunta que só pode ser respondida pela própria  pessoa e não por algum guru, mestre, pastor ou professor. Cada qual vive com o seu desejo, missão, sentido de vida, chame como quiser e a expressão disso depende de você.

Vazios
24/01/2014

– Cara, eu estou assim… minha cabeça não consegue pensar!

– Ah é?

– Sim, sabe, tem um desejo de fazer algo, mas não sei o que, ela não funciona.

– Entendi. Algo como um “vazio”?

– Isso… sabe, tem a pressão de alguma coisa, mas não tem forma entende?

– Hum… angustiante não é?

– Ôoo!

– Bem e se você parasse de tentar forçar uma forma em cima dessa pressão interna e simplesmente deixasse ela sair.

– Como assim?

– Fale mais do vazio, sem precisar dar forma à ele.

Muitas vezes estamos “sem ideias”. Escritores, artistas e pessoas que lidam com criatividade sabem que uma das piores coisas à fazer neste momento é forçar a mente a produzir. Já não tem nada lá, o que poderá sair?

Podemos entender estes momentos se pensarmos neles como etapas de um processo de mudança. Durante estes processos existe aquele momento em que abandonamos a forma antiga, mas a nova ainda não está plenamente formada. Este momento é aquele no qual existe a tal pressão que o meu cliente se referiu, uma pressão sem forma e é sem forma justamente porque a forma ainda está sendo elaborada.

Neste processo de criação da nova forma elementos emocionais e psicológicos assim como os objetivos e competências da pessoa entram em cena para gerar uma nova direção para o pensamento da pessoa. Muitas vezes precisamos abandonar uma forma de perceber a vida para dar lugar à uma nova forma. Então as ideias não conseguem surgir porque elas não tem uma linha de raciocínio para serem elaboradas. É como se o time estivesse trocando de técnico, até o novo assumir o time fica sem saber qual será a sua estratégia de jogo.

Se a pessoa luta contra este momento buscando desesperadamente qualquer coisa para se apegar ela poderá estar passando por cima de detalhes importantes para o seu crescimento. Se ela deixa o processo muito largado ela também poderá perder isso, por negligência. A ideia é aprender a suportar o processo angustiante e paradoxal de acordar um dia cheio de ideias e duas horas depois nenhuma delas fazerem sentido, estar cheio de motivação num momento e no outro querer que o mundo acabe em barranco para morrer encostado. Quando a pessoa consegue suportar esta montanha russa emocional ela pode perceber o que realmente está sendo importante para ela no momento e, om isso, determinar ou perceber o rumo que deverá seguir na próxima fase de sua evolução pessoal.

Abraço

Visite nosso site: http://www.akimneto.com.br

Diplomacia
23/01/2014

Saber comunicar é uma arte, que o diga Charlie Brown!

Um passo de cada vez
22/01/2014

– Mas agora eu estou com medo sabe?

– Ah é? O que te dá medo?

– Acho que não vou conseguir dar conta de tudo de uma vez!

– Eu tenho certeza que não vai!

– Ai, como assim?

– Bem, você não vai conseguir fazer “tudo” de “uma só vez”, vai?

– É… pensando assim não né?

– Sim, mas é como está aí na sua cabeça não é? A sua cobrança é essa.

– É.

– Que tal repensar isso de uma forma mais realista e organizada: dividindo a coisa toda em etapas e jogando estas etapas ao longo do tempo?

– Me acalma pensar assim.

– Ótimo

Aprender a usar a nossa mente talvez seja um dos maiores e mais prazerosos desafios de todos.

O exemplo acima é um deles e trata da maneira pela qual as pessoas organizam suas tarefas, por exemplo. Existem pessoas que pensam que tem que fazer “tudo para ontem”, vivem o seu dia a dia assim. Esta maneira de organizar as suas tarefas irá lhe trazer uma constante sensação de que você está em atraso, devendo algo para alguém e o fará se colocar sempre no pique para estar correndo atrás daquilo que você “deixou de fazer”.

Outras pessoas acham que “amanhã eu resolvo” e deixam tudo sempre para a última hora ou para o dia seguinte. É comum terem esquecimentos, atrasos e darem soluções não tão boas porque fizeram tudo correndo. Alguns, por outro lado gostam da sensação que a pressão traz e acabam rendendo melhor.

Algumas pessoas possuem cobranças bem definidas e realistas, outras se cobram o impossível. Obviamente quem organiza as suas cobranças da primeira maneira consegue sentir-se mais no controle da situação e se permite até descansar quando termina. O segundo estilo, em geral, assume uma atitude de que tudo está sempre ruim e ela está sempre devendo algo na sua produção e/ou na qualidade do que fez, termina por denegrir o próprio trabalho quase sempre.

Ao longo dos anos em terapia tenho visto que os estilos todos podem ser úteis dependendo do contexto, objetivos da pessoa e das suas competências para aquilo que se propõe. Por exemplo, em geral é útil organizarmos nossas tarefas de forma realista e pensada, colocando à nossa frente metas que sabemos que conseguiremos cumprir de forma ordenada no tempo para que cada coisa tenha um tempo adequado para ser realizada, isso traz uma sensação de segurança e a pessoa fica mais tranquila para resolver cada etapa com a devida atenção. Se o seu objetivo é simplesmente “dar conta do que tenho que fazer hoje”, você tem as competências necessárias e o contexto está precisando somente disso, está perfeito.

Porém, a pessoa pode organizar suas tarefas de uma maneira que ela não sabe se dará conta e isso pode ser muito bom para ela. Como assim? Ora, muitas vezes precisamos evoluir, aprender, ir além. Neste contexto é mais interessante usar concentração e uma dose adequada de incômodo para que você esteja mais atento e seja mais produtivo do que o seu normal. Nesta situação, em específico, organizar as tarefas de uma maneira muito cômoda pode ser contra produtivo porque a pessoa pode não estar no estado mental adequado para estar atenta aos detalhes do que a sua nova tarefa lhe confere.

Como você organiza suas tarefas? De que forma você usa sua mente?

Abraço

Visite nosso site: http://www.akimneto.com.br

Assumir o sucesso
20/01/2014

-Pois Akim, finalmente as coisas estão acontecendo.

– Sim, é bom quando elas começam a se acontecer. Fico feliz por você!

– Estou numa maré de sorte!

– Sorte é?

– É né? As coisas acontecendo desse jeito!

– Bem, é sempre importante ter sorte, mas será que você não fez nada?!

– Ah, não sei…

– Bem, deixe te lembrar: em primeiro lugar passou a dar limites no seu trabalho, não foi?

– Foi.

– Depois redefiniu o que queria do trabalho e começou a se dedicar ao invés de ficar procrastinando e se sabotando

– É verdade…

– Depois disso, na área afetiva, finalmente se colocou de verdade mostrando e exigindo aquilo que julga importante.

– É…

– E me diz que não fez nada?!

– Pois é né?

– Acho que está mais do que na hora de você assumir isso para você!!

 

Martin Seligman, em seu livro “Otimismo aprendido” fala sobre a estrutura do pessimismo e do otimismo. Uma das características das pessoas pessimistas é que elas associam as coisas boas que acontecem na vida dela à terceiros ou à sorte e nunca à elas e seus esforços.

Sempre que a pessoa coloca o seu sucesso nas mãos do acaso, da sorte ou de terceiros ela está desprezando suas competências, está denegrindo a sua auto confiança. Assim sendo, obviamente, ela sente-se sempre com medo do sucesso, pois este pode ir embora logo, como diz o ditado: “vem fácil, vai fácil”.

É importante aprender a comemorar as escolhas que nos guiaram à bons resultados. Junto com isso aprender a assumir o que se fez e assumir o sucesso decorrente disso. Esta atitude é a que dá origem à sensação de auto confiança e segurança pessoal. É a percepção de que temos capacidade de atuar no mundo e ter os resultados que desejamos ter o que nos impulsiona a crer em nossas competências e na nossa atitude de assumi-las e não o contrário.

Sempre trabalho com meus clientes este importante tema. Faz parte de terapia perceber o que dá certo e como fazemos o que dá certo. Perceber isso e aprender a sentir confiança nisso fazem parte da construção de uma boa auto-estima.

Abraço

Visite nosso site:www.akimneto.com.br

%d blogueiros gostam disto: