Quando pensar atrapalha

– Então, eu pensei um monte já sobre isso.

– E?

– E o que?

– O que você acabou por fazer?

– Ah, não sei sabe? Eu pensei que eu deveria ir lá e dizer para ela o que eu queria, depois pensei que era melhor eu esperar um pouco para falar no final de semana, mas daí eu resolvi não estragar o final de semana porque…

– Ah tá, ficou se enrolando então, é isso?

– Não… não é isso. É que eu tenho que pensar bem antes de dizer sabe?

– Sim, é claro, mas acho que isso já está mais do que pensado não é mesmo?

– Mas será que não tem um jeito melhor ainda do que esse?

– Como você pode saber que esse já não é bom o suficiente?

– É que… sei lá, vai que eu falo e ela fica braba?

– Bem, nunca dá para prever 100% a reação de outra pessoa né? Nem que passe a vida toda pensando… o que é algo comum em você não é?

– É… você acha que eu penso demais?

– Não acho nada, estou afirmando!

Pensar é muito importante. Agir de forma pensada empresta força e convicção às nossas ações.

No entanto, as pessoas confundem pensar e racionalizar. Você sabe qual a diferença?

O ato de pensar envolve uma pergunta, um desejo e está focado na realização desse desejo, ou na resposta desta pergunta. Dito de outra forma o pensar envolve uma finalidade. Assim sendo, quando a pessoa está “pensando” ela está procurando uma forma de agir e quando encontra esta forma ela age. Esta ação não tem a garantia de dar certo e a pessoa sabe disso, como todas as ações humanas ela está envolta num nível de risco e a pessoa assume este risco. Assim ela pode testar a hipótese que ela criou sobre o que deveria fazer, obter feedback do mundo externo e aprimorar a sua resposta ou simplesmente colher os louros daquilo que fez. Assim ela constrói mais conhecimento e mais comportamento.

O ato de racionalizar tem a ver com ficar remoendo as várias – e infinitas — hipóteses sobre “o que pode acontecer”. Diferente do ato de pensar o racionalizar não visa uma tomada de atitude, ele visa enumerar e refletir sobre o que poderia ser feito no caso “a”, caso “b”, caso “c”, caso “c.1”, caso “c.2” não chegando ao mundo externo ou definindo uma resposta para a pergunta que a pessoa desejava responder. Ao contrário do que as pessoas pensam racionalizar é se defender contra a experiência e não uma forma de se “preparar melhor” para a experiência ou de “fazer do melhor jeito”. Em geral quando a pessoa racionaliza ela busca uma “resposta perfeita” – que significa uma na qual o outro vá se submeter completamente ao seu desejo, solicitação – a qual não existe na prática, todas as nossas ações podem dar certo ou errado, é sempre um risco que corremos ao nos expôr, quando racionalizamos é porque queremos nos defender deste risco.

Porque nos defendemos contra esta experiência? Geralmente porque não sabemos como lidar com ela.

Isso ocorre por uma auto imagem deturpada: ou se perceber “ruim” demais ou “perfeito” demais. Por não querer perder um lugar na família ou no grupo – a pessoa acha que se der limites, por exemplo, as pessoas não vão mais gostar dela. Baixa auto estima: a pessoa não sente que merece nada melhor do que aquilo e que deve agradecer ao invés de reclamar. Falta de experiência: a pessoa nunca passou por aquela situação e não se sente confiante em lidar com ela. Estes motivos são os que mais encontro na minha prática, existem outros, procure sempre um profissional para te ajudar a definir o que é.

O que se pode fazer com isso?

A primeira coisa é identificar o motivo que te leva a se afastar da experiência – como estes que coloquei acima. Cada motivo deve ser trabalhado de uma forma diferente e envolve aprendizados específicos. Por exemplo, se a pessoa acha que pode perder o seu lugar no grupo é importante se perguntar: até que ponto dar limites faz com que os outros se afastem de você? Será que se dar o respeito afasta as pessoas? Não seria o contrário? Por aí se segue geralmente questões que envolvem o merecimento, fortalecimento da auto estima, definição de objetivos, desejos e a expressão dos mesmos.

O mais importante é a pessoa assumir que está racionalizando e se defendendo da experiência concreta, que ela está postergando uma atitude, um confronto ao invés de achar que está “esperando a melhor oportunidade”, “vendo o melhor jeito de falar/agir” ou “checando para ver se tem realmente razão no que está pensando”. Assumir o desejo de esquivar-se da situação é o primeiro passo, depois disso entender do que está se esquivando e aí sim, começar a trabalhar na causa e aprender a expressar o que precisa expressar.

Abraço

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