“Ser”

– Esta última quinzena foi ótima.
– Opa, que maravilha! Me conte mais sobre ela.
– Na verdade foi muito simples sabe? Eu gosto da fazer meditação e num desses dias eu fiz uma descoberta fantástica enquanto meditava.
– O que você descobriu?
– Que eu não devo nada para ninguém e que eu sou livre.
(O terapeuta sorri, nada mais. Um silêncio se faz na sala enquanto cliente e terapeuta se olham. O cliente continua)
– Eu me sinto livre Akim. Para fazer o que eu quero, amar o quem eu quero, ver o que eu quero. Só o que eu quero.
– Você parece mesmo livre.
– Pois é, pareço, sinto. O que aconteceu? Me dei uma carta de euforia e me olhei no espelho. Quem sou eu? Sei lá! Como quero viver? Isso é o que me importa!
– Bem, não teria como a sua semana ser menos do que ótima desse jeito não é mesmo?
– E é!

“Ser ou não ser, eis a questão”
A célebre pergunta de William Shakespeare mantém atual e ouço-a todos os dias no consultório nas mais variadas formas e entonações.

Por vezes ouça-a com um tom da raiva que diz: “não aguento mais essa situação, meu marido (minha esposa) é um inferno”. Mais tarde a raiva se torna uma indignação como quem diz: “será que ele (a) não percebe que sou diferente? Porque não posso me expressar do jeito que sou? E ao longo dos dias e dos meses a indignação cede lugar ao medo que diz “e se eu fizer isso e ele (ou ela) me deixar? E se acharem que sou estranho e me rejeitarem?”. Por fim a pessoa se resigna e começa a olhar para si dizendo: “a verdade? Tenho medo de me colocar, não sei lidar com alguém me dizendo um não, por exemplo, não sei o que fazer e acaba que me fecho para nem ter que falar sobre isso sabe?”

Outras vezes ouço a pergunta num tom mais impessoal, falando sobre negócios, sociologia ou discutindo alguma teoria da psicologia falando, por exemplo: “nesta sociedade capitalista a coisa está difícil você tem que ser sempre mais rápido, mais forte do que era antes. É um mundo cão sabe?” Passam-se os dias, as semanas e percebo que o tom muda para uma dúvida e uma confissão “na verdade eu não sei bem se queria fazer isso que faço hoje, mas tive que fazer entende? É a vida. Eu gostaria de ter seguido uma outra faculdade/ ter trabalhado com outra coisa”. O que, outrora, fora apenas uma dúvida e uma confissão torna-se arrependimento ou sensação de culpa/ dívida: “perdi estas chances sabe?Pensei que seria feliz ganhando o meu dinheiro, não que não seja bom, mas sabe… falta algo” ou no caso da dívida/culpa “nunca disse isso para ninguém, nunca quis incomodar as pessoas com as minhas coisas, sempre achei que se dissesse estaria incomodando e me sentiria mal se fizesse isso… e agora acho que errei porque eu também nunca me incomodei comigo”.

A falta de esperança também aparece muito: “não tem homem (mulher) assim no mundo! Eu entendo que você quer que eu imagine um homem (uma mulher) que fosse bom pra mim, mas o fato é: mesmo que eu faça isso, não tem de verdade, prá que pensar nisso?”. E a desesperança torna-se frustração, decepção ou um coração despedaçado que me diz: “naquela época foi muito difícil me reerguer, não sei se hoje eu já consegui fazer isso na verdade.” Toda frustração e desilusão falam de um desejo não atingido, então, aos poucos, isso emerge: “eu gostaria de ser amada sabe? A sensação é que ninguém nunca me viu como sou, ninguém nunca se importou de verdade. Um grande amor é o que eu gostaria”. E, o tempo passa, e a reclamação se volta à própria pessoa: “sabe… acho que se eu me importasse comigo de verdade eu nunca teria começado aquela relação ou teria dado um basta logo no começo, percebo que ele não se importava comigo e eu é que fique lá com alguém que não se importava comigo”. E logo a sabedoria começa a bater à porta: “entendi que primeiro tenho que estar bem comigo mesmo (a) e depois começar a receber isso dos outros, ou até mesmo à reconhecer quem me faz bem e me quer bem para valorizar essas pessoas, se eu tivesse entendido isso naquela época poderia ser mais eu mesma sabe?”

Não sei ao certo se a primeira pergunta que o ser humano se fez foi “quem sou eu?” Talvez a primeira pergunta tenha sido “como posso realizar o que sou neste mundo?” Talvez não tenhamos muita dificuldade em responder quem somos, talvez nossa dificuldade maior seja em ser quem somos neste mundo com estas pessoas tendo estas relações. Nunca ouvi uma criança se perguntar quem sou eu, apenas os adultos o fazem e, talvez o façam não porque não sabem, mas porque não sabem ser aquilo que são e então ficam com a dúvida: “será que sou, de fato, isso? Mas se eu não for isso, quem sou?” O que nos leva ao dilema de Shakespeare “ser ou não ser, eis a questão” que retrata muito bem o fato: a pergunta foca em ser ou não ser e não em definir o que se é.

Não sei ao certo quem você, caro leitor, é, acha que é ou gostaria de ser. Isso deixo à cargo da sua própria história e imaginação. O que sei é que, para o bem ou para o mal, tornar-se “isso” é a sua missão, nenhuma mais. Tornar-se, viver, experimentar “isso”, seja qual for o verbo que você escolha – porque creio que isso faça parte da sua definição de eu – torne o verbo o que ele é: ação.

E se você estiver temeroso em começar por pensar nas questões triviais da vida como sucesso, dinheiro e contas a pagar, talvez este poema de Antonio Machado posso lhe ajudar:

Cantares

Tudo passa e tudo fica
porém o nosso é passar,
passar fazendo caminhos
caminhos sobre o mar

Nunca persegui a glória
nem deixar na memória
dos homens minha canção
eu amo os mundos sutis
leves e gentis,
como bolhas de sabão

Gosto de ver-los pintar-se
de sol e graná voar
abaixo o céu azul, tremer
subitamente e quebrar-se…

Nunca persegui a glória

Caminhante, são tuas pegadas
o caminho e nada mais;
caminhante, não há caminho,
se faz caminho ao andar

Ao andar se faz caminho
e ao voltar a vista atrás
se vê a senda que nunca
se há de voltar a pisar

Caminhante não há caminho
senão há marcas no mar…

Faz algum tempo neste lugar
onde hoje os bosques se vestem de espinhos
se ouviu a voz de um poeta gritar
“Caminhante não há caminho,
se faz caminho ao andar”…

Golpe a golpe, verso a verso…

Morreu o poeta longe do lar
cobre-lhe o pó de um país vizinho.
Ao afastar-se lhe vieram chorar
“Caminhante não há caminho,
se faz caminho ao andar…”

Golpe a golpe, verso a verso…

Quando o pintassilgo não pode cantar.
Quando o poeta é um peregrino.
Quando de nada nos serve rezar.
“Caminhante não há caminho,
se faz caminho ao andar…”

Golpe a golpe, verso a verso.

Abraço
Visite nosso site: http://www.akimneto.com.br

There are no comments on this post.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: