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A crença na mudança
30/09/2013

– Eu sei disso tudo Akim, mas não sei o que acontece… não vai sabe? Não consigo ir atrás de verdade do que eu quero.

– Hum… me conte uma coisa: você realmente acredita que é possível mudar isso?

– Acho que sim… não sei.

– Pense nas situações que você vive hoje, do jeito que estão, sem mudar.

– Ok, pensei.

– Agora imagine a situação ideal, que você deseja, que você quer.

– Pensei já.

– Ótimo, agora quero que você compare as duas imagens que fez em sua mente e me diga se elas causam em você a sensação de realidade, de serem reais.

– Não… só a primeira.

– As imagens, não no conteúdo, mas na forma que você imaginou são iguais?

– Não, bem diferentes.

Sempre dizemos que acreditar na mudança é algo importante num processo terapêutico.

Porque?

Crer é dar crédito à algo ou à uma ideia. Quando a pessoa inicia o processo de terapia ela não tem nada mais do que isso: uma ideia – e muitas vezes nem mesmo isso – de onde quer chegar. Muitas vezes a pessoa não tem as competências necessárias, a percepção adequada, as crenças adequadas, portanto crer que é possível se torna algo fundamental para ela. Virginia Satir, uma proeminente terapeuta de família americana usava um jeito muito especial de dizer isso para algumas famílias ou pessoas que não tinham confiança em si “emprestando a sua confiança” para elas durante um tempo, até que elas tivessem confiança nelas mesmas e pudessem devolver a confiança que Virginia depositava nelas.

A crença, no entanto, não é apenas um “ah tá vamos ver o que dá”, é uma atitude de abertura na qual a pessoa voluntariamente se disponibiliza a acreditar que a mudança é possível, acreditar que o que ela viveu até hoje é uma parte do processo de sua vida e que pode ser enriquecido e acreditar que ela pode construir as virtudes, comportamentos e emoções necessárias para superar suas dificuldades e mudar  sua vida. Acreditar envolve, portanto, a ideia, o compromisso e a atitude de realmente realizar algo.

É importante que aprendamos a questionar nossas crenças antigas de uma forma adequada, justamente para abrir caminho para as novas crenças. Toda e qualquer crença é uma ideia que não possui uma justificativa lógica bem alicerçada, isso porque nossas crenças se baseiam na nossa experiência que é sempre limitada – nenhum ser humano consegue absorver toda a estrutura do universo para construir o que poderíamos chamar de “verdade”, portanto nossas crenças são, na melhor das hipóteses, nossas crenças – é um modelo do universo que usamos para podermos viver nele, o modelo, no entanto, não constitui a realidade de fato e, muitas vezes, pode ser um modelo pobre para o que queremos para nós.

Um segundo momento é criarmos uma ideia mais adequada do que desejamos, imaginar cada detalhe que necessitamos afim de buscar uma compreensão maior e mais rica do universo. Buscar exemplos na vida de pessoas que viveram de forma diferente de nós, na nossa própria experiência buscar aqueles momentos em que a nossa experiência contradiz as nossas crenças e questionar as nossas generalizações – “todos” os homens não prestam, isso “sempre” acontece comigo – são os meios que nos fazem ao mesmo tempo abrir nossa mente e poder ter espaço para criar novas formas de perceber o mundo.

Acreditar que é possível mudar envolve toda esta disposição e nem sempre é fácil, muitas vezes nos despedirmos de uma crença que nos limita envolve encarar o medo da mudança, dar limites à pessoas queridas, ter que se responsabilizar pela própria vida e isso, muitas vezes, impede as pessoas de darem este passo fundamental.

No entanto, dar este passo e se permitir é muito divertido também, uma vez que o medo do primeiro encontro com a nova realidade passa o que se segue é que as pessoas começam a se divertir com as novas competências, é quase como andar de bicicleta, depois que a pessoa aprende não quer mais parar. É uma experiência e tanto!

Abraço

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Indo além
27/09/2013

– Daí depois disso tudo resolvi chegar e conversar com ela sabe?

– Opa, coisa boa e como foi?

– Bem, eu fui bem claro com ela e disse que a gente precisava mudar.

– E ela?

– Ela só balançou a cabeça fazendo que “sim” e disse: “é, temos que parar de tapar o sol com a peneira”. E daí conversamos sobre o que a gente esperava para a relação sabe?

– Sim, e como foi isso?

– Teve partes mais fáceis e mais complicadas, mas, no geral, estou me sentindo aliviado de fazer isso e acho que deu uma nova energia para mim e para ela.

– Com certeza!

A trecho curto a aparentemente simples que coloco acima mostra algo muito forte e profundo dentro do processo de uma pessoa: o momento de atitude.

É aquele momento em que tudo o que foi visto em terapia, na vida da pessoa, nas conversas com amigos, com ela mesma se somam para a pessoa decidir mudar e realizar a mudança. Ela coloca em ato o que deseja e então abre mão da sua zona de conforto, coloca-se à serviço de uma aventura pessoal e “vai além”.

Porque não fazemos isso o tempo todo?

Em primeiro lugar é importante que o nosso desejo amadureça dentro de nós. Mudanças rápidas nem sempre são boas mudança. O desejo tem um certo “tempo de amadurecimento” para que ele possa ficar claro, estruturado e forte dentro de nós. Este é o primeiro “porque” e é natural e saudável, importante de acontecer.

Podemos também ter medo ou vergonha do que desejamos. O medo e a vergonha fazem com que a pessoa freie o seu impulso de ir em direção ao que quer e a pessoa não vai além, não se lança aos desafios da aventura. A vergonha é uma espécie de julgamento moral que a pessoa emprega frente ao desejo, ela percebe que este é, de alguma forma inadequado, feio ou vil e então sente-se envergonhada de desejar tal coisa, se ela realmente deseja continuar com a conquista é importante checar as suas crenças e flexibilizá-las.

Já o medo é, em geral, algo que a pessoa não sabe como lidar frente ao objetivo, uma competência que ela precisa adquirir  que pode ser de vários níveis: comportamental – algo que ela não sabe fazer, uma atitude mental – como, por exemplo, uma crença mais rica sobre o objetivo, ou até mesmo uma noção de identidade que ela não consegue ter – ver-se como uma pessoa bem sucedida, por exemplo.

Um outro fator é não nos acharmos merecedores do que querermos. Assim, mesmo que a pessoa tome atitude ela irá sentir-se mal com o que conseguiu ou não vai valorizar aquilo que adquiriu. O merecimento é um fator fundamental para o desenvolvimento de uma boa auto-estima, pois organiza o pensamento da pessoa em termos de buscar o que é bom para ela e sentir-se merecedora disso. As pessoas geralmente tem problemas com isso quando não estão sendo sinceras com elas mesmas ou quando possuem um sistema de regras de conduta pessoal que não as ajuda muito a se sentirem merecedoras.

Existem outros fatores que contribuem para nos segurarmos, porém estes citados acima são os que mais tenho visto em consultório e retratam elementos fundamentais do ser humano: amor próprio, auto estima, aceitação e busca do que se deseja. Dificilmente alguém com dificuldades em sua vida não está enfrentando algum destes problemas. Porém, quando vencem esta barreira as pessoas rapidamente modificam suas vidas para melhor!

Abraço

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Felicidade Ansiosa
25/09/2013

– Estou muito feliz hoje

– Oba! E como está sendo isso?

– Eu estou me sentindo meio estranho com isso na verdade.

– Estranho? Como assim?

– É que… não sei… parece que não é muito certo eu ficar feliz sabe?

– Hum… entendo, e como você chegou nessa conclusão?

– Não sei ao certo, mas fico incomodado quando estou me sentindo bem.

– Você acha que você merece sentir-se feliz?

– (silêncio) acho que não…

 

Nathaniel Branden é um excelente autor na área da auto-estima, um dos temas que ele aborda é a “felicidade ansiosa”, ou seja, a pessoa que ao sentir-se feliz ao mesmo tempo fica incomodada com a felicidade que sente, muitas vezes isso é um problema com a auto-estima dela.

 

Quando pergunto ao cliente se ele “merece” sentir-se feliz estou checando este elemento, pois, em geral, a pessoa que sente esta felicidade ansiosa possui um problema no entendimento de merecer ser feliz. É alguém que, por vários motivos, não consegue “se convencer” de que merece ser feliz e sentir-se bem consigo mesmo. Muitas vezes a pessoa consegue perceber o direito do ser humano em ser feliz, porém não consegue realizar o mesmo exercício para si.

A falha em perceber que merece tem a ver com o nosso auto-respeito. Este é gerado quando seguimos de forma adequada as regras que criamos para nós mesmos, é quando temos uma avaliação positiva sobre nós mesmos. Vejo em consultório dois problemas básicos com este aspecto da vida das pessoas: quando não conseguem seguir suas regras e quando as regras não são muito adequadas para o mundo – ou, por vezes não foram criadas pela própria pessoa.

 

Quando o problema está na pessoa não seguir as ideias e fundamentos que julga adequado à sua própria vida é importante que ela comece a fazer o movimento contrário e buscar identificar e valorizar os seus desejos e ideais para que, com isso, ela consiga seguir suas regras. Algumas vezes, também, é uma questão da pessoa desenvolver novas competências que a auxiliem a expressar quem é.

Quando o problema está na inadequação das regras temos que buscar entender o real valor e a origem da ideia e procurar flexibilizá-la para que ela seja mais adequada à pessoa, seus desejos e ao mundo no qual ela vive. Esta flexibilização é importante de ser atingida para que a pessoa possa se libertar da ideia de que é culpada pelo próprio infortúnio ou de que merece sentir dor, pois, de alguma forma, ela é uma “criminosa” para ela mesma.

 

Trabalhar com estes elementos ajuda a pessoa a construir uma sensação de merecer ser feliz e poder se entregar à felicidade. Obviamente existem vários aspectos que necessitam ser trabalhados junto com estes para que o processo se desenrole de forma adequada, porém o cerne é a melhora da auto-estima e a sensação de orgulho e satisfação com as suas obras e com a sua felicidade ao invés da sensação de felicidade ansiosa.

Abraço

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Hipnose
23/09/2013

– Eu limpo o piso da minha casa… tem muito ácido ali e eu sinto o cheiro bem forte.
– Ótimo, muito bem, agora: o que ajuda a diminuir o efeito corrosivo deste ácido?
– Se eu jogar mais água ele vai se diluir.
– Consegue imaginar isso?
– Sim.
– Perfeito, como está ficando?
– Mais suave, mais refrescante… agora o ácido está na quantidade certa entende?
– Sim, você sempre limpa o piso?
– Sim.
– Imagine-se, agora, preparando uma nova limpeza, como você faz?
– Estou indo na dispensa e pegando o esfregão e o ácido para limpar, a mangueira já está aberta lá fora molhando a calçada.
– Perfeito… o ácido esta guardado aonde?
– Na caixa dele.
– Ok, pegue a caixa
– Ok.
– Olhe quanto diz que é para pegar de ácido.
– Ok, vou pegar só aquilo ali mesmo.
– Ótimo, muito bom, veja qual o efeito na calçada.
– O mesmo de antes: frescor.
– Gostaria que prestasse atenção ao seu corpo enquanto limpa com a quantidade certa: sua mente, suas sensações corporais e emoções.
– Perfeito.
– O que mais, na sua vida, precisaria da quantidade certa de ácido?
– O meu estomago.
– Perfeito, imagine então a quantidade certa e deixe-a preparada antes da refeição. A “mangueira” da saliva já está funcionando?
– Sim, sinto até um pouco de saliva agora.
– Excelente, imagine que somente aquela quantidade de ácido é liberada para o seu estomago.
– Percebi… nossa… me deu uma sensação de que também não posso comer tanto, porque tenho um limite.
– Muito bom, já resolve dois problemas com um só não é?
– Pois é…
– Excelente… imagine agora esta cena da mesa, como se sente?
– Mais tranquilo, por incrível que pareça.

A hipnose tem sido alvo de muita discussão. Na história da psicologia ela já foi de heroína à vilã várias vezes. Neste post
procuro apresentar a forma pela qual entendemos a hipnose na Akim Neto Psicologia Clínica.

A hipnose trabalha com o que chamamos de estado alterado de consciência. Isso não é nada místico ou perigoso, na verdade, você faz isso espontaneamente todos os dias, várias vezes por dia. Alguns pesquisadores entendem que sem isso, inclusive, você não conseguiria sobreviver. É quando, por exemplo, você se pega imaginando suas férias e chega até a sentir a sensação da calor da praia: aquilo não está ocorrendo “de verdade”, mas a sensação é tal como. No seu cérebro a sensação é praticamente a mesma, ele não distingue o real do imaginário muito bem, se ele percebe a sensação ela “torna-se real”.

A hipnose vai se utilizar desta capacidade humana buscando acompanhá-la para atingir estados alterados que conduzam a pessoa à uma nova percepção de seus problemas, por exemplo. Note que usei a palavra “acompanhá-la”. Na hipnose, hoje, usamos esta ideia ao invés da ideia de “indução”, não induzimos a pessoa à nada, acompanhamos o seu ritmo natural e, conhecendo este ritmo, usamos ele para fazer sugestões que serão ou não usadas pela mente da pessoa para gerar melhorias.

Outro termo importante: sugestões. Nossa mente inconsciente é altamente defensiva, ela não permite que ninguém lhe cause dano a não ser que você aceite receber este dano. Uma de suas funções primordiais é a defesa do organismo, assim sendo nada que um hipnólogo lhe diga será aceito se você não possuir uma disposição para aceitar isso de antemão. Daí que os hipnólogos não criam nada na mente da pessoa que não fosse possível criar.

As sugestões, em geral, são dadas usando uma linguagem que chamamos de “metafórica”, na qual a imaginação da pessoa é empregada para realizar processos de mudança e de percepção. Cria-se uma história, uma metáfora análoga ao problema ou situação que a pessoa está querendo trabalhar assim como no exemplo acima em que a digestão da pessoa foi comparada ao processo de limpeza da sua casa. Depois da sessão pedi que ele refizesse em casa a mesma imaginação que fizemos nos consultório antes das refeições e ele declarou após uma semana que havia tido melhorias muito boas, sentiu a dor no estomago apenas em um dia ao invés de praticamente todos os dias. Com o tempo pedi que ele fosse retirando a medicação contra acidez – em conjunto com o médico que autorizou a experiência – e os resultados se mantiveram.

O autor que seguimos aqui chama-se Milton H. Erickson, um grande psiquiatra e hipnólogo americano que começou a sua carreira com ele mesmo, realizando mudanças em sua saúde precária através das técnicas que mais tarde ele usaria em seus clientes e ensinaria em seus workshops.
A hipnose tem eficácia comprovada, não é invasiva, pois trabalha com os conteúdos, ritmos e metáforas que fazem sentido para a pessoa – na verdade é mais ela quem conduz do que o hipnólogo que se torna um condutor ao invés de um autor. Obviamente existem pessoas que desejam usar a hipnose para tudo – o que não dá certo – o próprio Milton Erickson não a usava como uma panaceia tendo sempre outros recursos à mão.

Abraço
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Justificativas
20/09/2013

– Daí tive que ficar falando sobre o que eu fiz entende?
– Sim.
– Eu não aguento mais isso.
– Porque o faz então?
– Porque tem que né?
– Tem?
(silêncio)
– Você acha que eu não tenho?
– Me diga você, porque crê que deve explicações para as pessoas?
– Não sei…
– Será que você ainda precisa justificar tudo o que faz? Em que papel isso te coloca?
– Naquele que eu detesto né?
– Pois é…
– Preciso mudar isso Akim… não posso passar a vida tendo que justificar cada passo que dou! Isso não é vida!
– Eu concordo com você, fica complicado não é mesmo?
– Sim…
– Qual o primeiro passo?
– Parar de temer… eu justifico porque eu mesmo tenho medo, receio… tipo… não acredito plenamente no que eu faço… Acho que quando eu confiar 100% eu não vou mais precisar dar justificativas… vai mudar o meu jeito de pensar.
– Perfeito, vamos lá então!

Você já precisou se justificar? Justificar é dar um valor à um dado comportamento ou pensamento, validar a sua existência.
Quando precisamos fazer isso significa que o comportamento em si possui uma dúvida latente, ou seja, é possível de ter sido equivocado, feito de má fé ou então significar algo danoso.

Como se lida com isso?

No caso que mostrei acima, por exemplo, temos que a própria pessoa não tem confiança plena em seus comportamentos e, por isso, sente-se – ela mesma – culpada ou arrependida ou até mesmo insegura com relação ao que fez. Este é um dos casos mais comuns no qual a pessoa não gosta, porém sente-se compelida à justificar seus atos e quando é cobrada piora a situação.
O problema é que a sensação de culpa acaba sendo vista pelas pessoas com quem ela se relaciona e nós seres humanos geralmente percebemos e julgamos o comportamento do outro com base nisso. Assim sendo é muito fácil uma pessoa fazer algo certo e ser julgada como se tivesse feito algo de errado. Obviamente isso causa arrependimentos e indignação!

A questão central parece ser aprender a avaliar de forma própria o seu comportamento. Para isso é necessária uma boa auto-percepção, um conjunto de valores próprios bem organizados, a competência para defender estes valores e uma boa dose de auto-aceitação. Tudo isso cria na pessoa um “mix” para poder avaliar o seu comportamento com base em seus próprios valores, desejos e metas. Obviamente a pessoa consegue fazer a avaliação com base nos parâmetros de outras pessoas, porém a diferença é que ela sabe que são de outra pessoa e pode optar de forma consciente – por escolha – a usá-los ou não.

O contrário envolve uma confusão entre os valores próprios e os valores de terceiros, nos quais a pessoa tenta – sempre sem sucesso – agradar à gregos e troianos, buscando satisfazer os seus desejos e os do outro ao mesmo tempo, fatalmente não conseguirá e irá sentir-se culpada ou “esquisita com ela própria” quase que sempre: de um lado por fazer o que devia fazer, porém não ter agradado o outro e, de outro lado, ao ter agradado ao outro, porém ao preço da sua própria felicidade e satisfação. Em algumas situações isso não causará danos maiores, porém como a atitude se repete ao longo do tempo, fatalmente trará problemas.

Abraço
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Vaidade
18/09/2013

– Aí eu fui lá e postei né?
– Sim.
– Depois eu fui com um amigo meu dar uma volta no parque e esqueci o telefone em casa, quando cheguei fui ver quantos tinham curtido
– E aí?
– Tragédia né? Cara… ninguém deu um likezinho sequer!!
– Ah é? E aí?
– Ah, daí tirei aquela porcaria de lá!
– Ah é? Hum… e porque isso?
– Simples: se ninguém quer ver, porque coloco isso lá?
– Porque, de fato? Porque você posta o que posta?
– Porque você está me perguntando desse jeito?
– Você sabe porque, não sabe?
– Hum… tem a ver com minha auto-estima?
– O que você acha? Pare e pense: eu tiro as coisas do MEU facebook porque os outros não dão like it. Fico pensando o dia que você tiver uma casa como será feita a decoração dela…
– Tá… é verdade… entendi… Porra, mas porque é tão difícil para mim isso?
– Qual o problema em não receber as curtidas?
– Sei lá, parecia uma falha minha entende?
– Entendo, mas é, de fato uma falha? Uma falha no que?
– Porque daí eu não sou olhado com desejo e eu acho que eu… preciso disso sabe?
– Sei, mas quem é que precisa se desejar?
– Eu sei, sou eu não é?

“Fazer algo que eu não quero, para mostrar para pessoas com quem eu não me importo que sou uma pessoa que eu não sou”.
A frase forte parece fazer total sentido hoje em dia, mas porque a vaidade tem se tornado tão forte?

Nossa sociedade tornou o indivíduo o ponto mais importante da sua cultura, tudo gira em torno do indivíduo: suas opções de vida, seus afetos, suas compras, sua auto-imagem. O ponto benéfico disso foi que deu-se valor à pessoa, aos desejos individuais, aprendemos a ter liberdade para agir conforme desejamos. O que vemos, no entanto, é que isso está valorizado de uma forma desproporcional, ao ponto em que inverte-se o quadro que existia antigamente: se antes tínhamos a sociedade em primeiro lugar e o indivíduo em segundo, temos hoje o individual em primeiro e o social em segundo e isso abre espaço para a vaidade tal como está hoje.

Ocorre que a imagem do indivíduo torna-se muito mais importante do que realmente é. Portanto a vaidade torna-se uma arma e uma “necessidade” social. Aparecer – e aparecer dentro do que se considera aparecer “bem” – torna-se algo vital para as pessoas. As redes sociais são exemplo disso quando as pessoas dão ou tiram valor de suas próprias atividades mediante à quantidade de “like it” (“curtir”) que suas postagens possuem. Como no caso acima: “vou parar com isso porque não recebi likes”. A imagem projetada e “curtida” torna-se mais importante do que a experiência interna da pessoa, ou pior: apenas torna-se adequada mediante aos “curtir” recebidos. Paradoxalmente isso faz com que o excesso de individualismo nos traga uma versão repaginada e atualizada da importância que o social possuía anos atrás.

O que fazer com a vaidade?

Vamos entender que a vaidade é a forma pela qual a pessoa lida com a imagem que possui. A quantidade de atenção e a qualidade de atenção dedicada à auto-imagem, ao que aparece e que não aparece desta auto-imagem. Apenas isso, sem julgamentos morais.
Entendida desta forma precisamos checar inicialmente qual o foco da auto-imagem: interno ou externo. Ou seja, a preocupação da pessoa é com o que ela deseja ver ou com o que os outros desejam ver? Este primeiro ponto é importante para entendermos a direção com a qual a pessoa filtra quem ela é.
Um segundo ponto importante é: qual o objetivo da minha auto-imagem? Emocionalmente falando sempre mostramos facetas de quem somos de maneira à gerar um resultado. Mesmo que isso seja feito de forma inconsciente ainda assim é muito poderoso. Aí então entra a pergunta para refletirmos se desejamos alcançar uma percepção mais limpa e adequada de nós mesmos, mostrando quem somos para nos relacionarmos melhor ou se nossa preocupação está em sempre mostrar alguém perfeito e sem defeitos para ser amado por todos o tempo todo.

Estas duas perguntas são um “start” para você aprender a se posicionar em relação à sua auto-imagem: interna ou externa? “Sincera” ou buscando aprovação? Estes dois elementos são fundamentais para saber se você precisa trabalhar com a sua vaidade e auto-imagem. Quando a balança pende demais para o externo e busca de aprovação é importante checar a sua auto-estima porque, provavelmente ela está precisando de ajuda.

Abraço
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Tal como pensa, age!
16/09/2013

– Pois é Akim, estas últimas semanas eu estou só mudando o meu jeito de pensar nas coisas.
– Ótimo, como está fazendo?
– Então, quando surge uma situação, como, por exemplo: preguiça. Antes eu ficava pensando na preguiça e em como seria bom descansar e ficar sem fazer nada.
– E agora?
– Agora faço assim: eu penso na preguiça, daí penso no que aconteceria se eu fizesse o que tenho que fazer e deixo a minha mente escolher.
– E que tal tem sido?
– Melhor, geralmente quando ela escolhe a preguiça é porque eu posso ficar sem fazer nada mesmo daí fico tranquilo com isso sabe?
– Sim.
– Mas fora isso ela escolhe fazer as coisas e eu fico bem depois, me sinto realizado quando faço.
– Perfeito!
– É e a minha cabeça está mais limpa, eu não fico pensando o tempo todo nas coisas, penso, decido, faço e colho os louros. Depois penso em outra coisa e assim por diante.
– Não fica mais naquela enrolação e pensando e repensando e pensando de novo na mesma coisa?
– Não!

Nossa forma de pensar influencia as conclusões à que chegamos. Influência nossa forma de perceber o mundo e também as nossas ações. A ciência nos mostra que a língua que usamos afeta a nossa forma de representar o mundo e à nós mesmos, e não apenas a língua como também a forma que usamos esta linguagem.

Desta maneira a comunicação que temos conosco sobre nossos problemas, desejos, medos e emoções em geral é fundamental para definir o que vamos fazer dentro da situação, como vamos compreendê-la. Conhecer a nossa comunicação interna é uma forma simples e muito potente de melhorarmos nossa auto-estima e nossa qualidade de vida e pode ser feita com um exercício muito simples.

Pense sobre um problema que você tem, um objetivo que quer alcançar, um segredo que tem medo em revelar, em algo que você gosta muito ou que você gostaria de fazer. Escreva sobre isso numa folha de papel ou no seu computador. Depois releia e comece a se fazer as seguintes perguntas:

“A sua forma de escrever te coloca num papel ativo ou passivo frente à situação?”
Quando nos colocamos de forma ativa numa situação nos organizamos para buscar soluções, testar hipóteses e alcançar o que queremos. A forma passiva nos coloca num papel de esperar, de não buscar ou alcançar, se algo ocorrer não terá o nosso envolvimento ativo nisso. Isto é importante para saber como você se posiciona, algumas coisas podem ter um envolvimento passivo como: “tomara que meu time ganhe”, de fato não há como participar de uma forma mais ativa do que torcer; já algo como gostaria muito de um aumento de salário deve ter um envolvimento ativo, pois o aumento não virá “do nada”.

“O que eu quero com isto que escrevi está perfeitamente claro para mim?”
É importante saber o que desejamos com nossa vida, mesmo que isso seja algo como “não espero ou quero nada com isso”. Esta definição torna muito mais fácil a maneira pela qual você se relaciona com qualquer situação na qual se encontre. Se você descreve a situação, mas não o que deseja com ela terá dificuldades em lidar com ela, mesmo que seja uma situação simples. Então busque sempre se perguntar se o que você quer nesta situação está claro para você, se não estiver, crie um objetivo.

“Minha forma de me comunicar comigo mesmo é do tipo: vomitar os problemas ou resolver os problemas?”
Muitas pessoas conversam consigo mesmas de uma forma que só torna as coisas mais complicadas: ficam remoendo os problemas e criando sempre dúvidas em cima de dúvidas, a comunicação se torna prolixa e entediante e rapidamente a pessoa quer é esquecer do assunto. Outras pessoas organizam o seu discurso para ser mais claro e entendível para elas mesmas, ou seja, falam consigo próprias como se estivessem ensinando algo à alguém para conseguirem entender a sua situação e se organizarem para ação posteriormente.

Estas três perguntas são as mais básicas que uso em consultório e é muito bacana o retorno que as pessoas dão sobre isso. Muitas vezes ao fazerem o exercício relatam algo como “nossa, eu nunca pensei que a minha comunicação era tão difícil de entender”. Existem várias outras que você pode se fazer, porém estas três dão um bom começo para você, aproveite!

Abraço
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“Ser”
13/09/2013

– Esta última quinzena foi ótima.
– Opa, que maravilha! Me conte mais sobre ela.
– Na verdade foi muito simples sabe? Eu gosto da fazer meditação e num desses dias eu fiz uma descoberta fantástica enquanto meditava.
– O que você descobriu?
– Que eu não devo nada para ninguém e que eu sou livre.
(O terapeuta sorri, nada mais. Um silêncio se faz na sala enquanto cliente e terapeuta se olham. O cliente continua)
– Eu me sinto livre Akim. Para fazer o que eu quero, amar o quem eu quero, ver o que eu quero. Só o que eu quero.
– Você parece mesmo livre.
– Pois é, pareço, sinto. O que aconteceu? Me dei uma carta de euforia e me olhei no espelho. Quem sou eu? Sei lá! Como quero viver? Isso é o que me importa!
– Bem, não teria como a sua semana ser menos do que ótima desse jeito não é mesmo?
– E é!

“Ser ou não ser, eis a questão”
A célebre pergunta de William Shakespeare mantém atual e ouço-a todos os dias no consultório nas mais variadas formas e entonações.

Por vezes ouça-a com um tom da raiva que diz: “não aguento mais essa situação, meu marido (minha esposa) é um inferno”. Mais tarde a raiva se torna uma indignação como quem diz: “será que ele (a) não percebe que sou diferente? Porque não posso me expressar do jeito que sou? E ao longo dos dias e dos meses a indignação cede lugar ao medo que diz “e se eu fizer isso e ele (ou ela) me deixar? E se acharem que sou estranho e me rejeitarem?”. Por fim a pessoa se resigna e começa a olhar para si dizendo: “a verdade? Tenho medo de me colocar, não sei lidar com alguém me dizendo um não, por exemplo, não sei o que fazer e acaba que me fecho para nem ter que falar sobre isso sabe?”

Outras vezes ouço a pergunta num tom mais impessoal, falando sobre negócios, sociologia ou discutindo alguma teoria da psicologia falando, por exemplo: “nesta sociedade capitalista a coisa está difícil você tem que ser sempre mais rápido, mais forte do que era antes. É um mundo cão sabe?” Passam-se os dias, as semanas e percebo que o tom muda para uma dúvida e uma confissão “na verdade eu não sei bem se queria fazer isso que faço hoje, mas tive que fazer entende? É a vida. Eu gostaria de ter seguido uma outra faculdade/ ter trabalhado com outra coisa”. O que, outrora, fora apenas uma dúvida e uma confissão torna-se arrependimento ou sensação de culpa/ dívida: “perdi estas chances sabe?Pensei que seria feliz ganhando o meu dinheiro, não que não seja bom, mas sabe… falta algo” ou no caso da dívida/culpa “nunca disse isso para ninguém, nunca quis incomodar as pessoas com as minhas coisas, sempre achei que se dissesse estaria incomodando e me sentiria mal se fizesse isso… e agora acho que errei porque eu também nunca me incomodei comigo”.

A falta de esperança também aparece muito: “não tem homem (mulher) assim no mundo! Eu entendo que você quer que eu imagine um homem (uma mulher) que fosse bom pra mim, mas o fato é: mesmo que eu faça isso, não tem de verdade, prá que pensar nisso?”. E a desesperança torna-se frustração, decepção ou um coração despedaçado que me diz: “naquela época foi muito difícil me reerguer, não sei se hoje eu já consegui fazer isso na verdade.” Toda frustração e desilusão falam de um desejo não atingido, então, aos poucos, isso emerge: “eu gostaria de ser amada sabe? A sensação é que ninguém nunca me viu como sou, ninguém nunca se importou de verdade. Um grande amor é o que eu gostaria”. E, o tempo passa, e a reclamação se volta à própria pessoa: “sabe… acho que se eu me importasse comigo de verdade eu nunca teria começado aquela relação ou teria dado um basta logo no começo, percebo que ele não se importava comigo e eu é que fique lá com alguém que não se importava comigo”. E logo a sabedoria começa a bater à porta: “entendi que primeiro tenho que estar bem comigo mesmo (a) e depois começar a receber isso dos outros, ou até mesmo à reconhecer quem me faz bem e me quer bem para valorizar essas pessoas, se eu tivesse entendido isso naquela época poderia ser mais eu mesma sabe?”

Não sei ao certo se a primeira pergunta que o ser humano se fez foi “quem sou eu?” Talvez a primeira pergunta tenha sido “como posso realizar o que sou neste mundo?” Talvez não tenhamos muita dificuldade em responder quem somos, talvez nossa dificuldade maior seja em ser quem somos neste mundo com estas pessoas tendo estas relações. Nunca ouvi uma criança se perguntar quem sou eu, apenas os adultos o fazem e, talvez o façam não porque não sabem, mas porque não sabem ser aquilo que são e então ficam com a dúvida: “será que sou, de fato, isso? Mas se eu não for isso, quem sou?” O que nos leva ao dilema de Shakespeare “ser ou não ser, eis a questão” que retrata muito bem o fato: a pergunta foca em ser ou não ser e não em definir o que se é.

Não sei ao certo quem você, caro leitor, é, acha que é ou gostaria de ser. Isso deixo à cargo da sua própria história e imaginação. O que sei é que, para o bem ou para o mal, tornar-se “isso” é a sua missão, nenhuma mais. Tornar-se, viver, experimentar “isso”, seja qual for o verbo que você escolha – porque creio que isso faça parte da sua definição de eu – torne o verbo o que ele é: ação.

E se você estiver temeroso em começar por pensar nas questões triviais da vida como sucesso, dinheiro e contas a pagar, talvez este poema de Antonio Machado posso lhe ajudar:

Cantares

Tudo passa e tudo fica
porém o nosso é passar,
passar fazendo caminhos
caminhos sobre o mar

Nunca persegui a glória
nem deixar na memória
dos homens minha canção
eu amo os mundos sutis
leves e gentis,
como bolhas de sabão

Gosto de ver-los pintar-se
de sol e graná voar
abaixo o céu azul, tremer
subitamente e quebrar-se…

Nunca persegui a glória

Caminhante, são tuas pegadas
o caminho e nada mais;
caminhante, não há caminho,
se faz caminho ao andar

Ao andar se faz caminho
e ao voltar a vista atrás
se vê a senda que nunca
se há de voltar a pisar

Caminhante não há caminho
senão há marcas no mar…

Faz algum tempo neste lugar
onde hoje os bosques se vestem de espinhos
se ouviu a voz de um poeta gritar
“Caminhante não há caminho,
se faz caminho ao andar”…

Golpe a golpe, verso a verso…

Morreu o poeta longe do lar
cobre-lhe o pó de um país vizinho.
Ao afastar-se lhe vieram chorar
“Caminhante não há caminho,
se faz caminho ao andar…”

Golpe a golpe, verso a verso…

Quando o pintassilgo não pode cantar.
Quando o poeta é um peregrino.
Quando de nada nos serve rezar.
“Caminhante não há caminho,
se faz caminho ao andar…”

Golpe a golpe, verso a verso.

Abraço
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Auto-percepção
11/09/2013

– Então, fiz o exercício que você me pediu.
– E aí, como foi?
– Foi meio estranho até, eu fui eu mesmo do jeito que eu sou e fiquei olhando para as pessoas depois que eu agia.
– Isso, muito bom e o que você percebeu?
– Fui vendo que a maneira que eu falo com as pessoas é o mesmo jeito que eu não gosto no meu pai! Foi muito estranho perceber isso.
– Hum, muito bom hein?
– É… não sei se foi bom, foi estranho.
– Claro, é normal sentir estranheza num momento como esse. A percepção foi muito diferente da imagem que você tinha de você?
– Sim. Nunca pensei que eu falava daquele jeito. Agora entendo porque minha namorada fica magoada comigo de vez em quando.
– Perfeito, agora me diga o que você quer fazer com isso?

Perceber o nosso comportamento, pensamento, emoções e suas consequências é o primeiro passo para a mudança.
O trabalho de auto-percepção é um fundamento para qualquer tipo de terapia. Seja o foco o comportamento, os pensamentos ou as emoções é necessário perceber o que acontece conosco e como acontece antes de poder realizar alguma mudança e, muitas vezes, perceber que não existem mudanças a serem feitas.

Como se faz isso?

Existem várias formas para melhorar a sua auto-percepção dependendo do que você quer perceber. Então, o primeiro passo é dar um foco: sobre o que você quer prestar atenção? Um comportamento? Um dado tipo de emoção? Um pensamento? Como você reage à um determinado tipo de situação? O efeito que você causa nos outros com o seu jeito de falar, de andar ou de olhar? A pessoa pode escolher focos muito simples como a sua respiração, que é o que se faz em meditação, por exemplo: ela foca a sua atenção em perceber os movimentos do seu corpo enquanto respira, não faz críticas e nem julgamentos, apenas descreve para si mesma o que está percebendo. Este é o segundo ponto: seja descritivo sem elaborar julgamentos sobre o que está percebendo, não procure mudar ou adaptar o comportamento faça tal como ele é e descreva para si o que percebe.

Uma vez que determine o foco – o “o que” – é importante passar à prática. Se você quer perceber um comportamento seu, coloque-se em situações nas quais ele ocorre, passe a emitir o comportamento e descreva para si o que percebe. Depois de vivenciar o episódio você também pode pensar nele em sua casa, lembrando do que ocorreu e do como ocorreu para aumentar a sua percepção. Pensamentos e emoções também podem ser percebidos desta forma: na hora em que ocorrem ou em retrospecto – como foi da última vez que senti ou pensei isso? o que estava acontecendo no momento?

Elementos que são interessantes de serem percebidos: o seu estado de humor antes e depois, pensamentos que teve antes e depois, como estava a sua semana ou o seu dia naquela situação, se você estava com a saúde em bom estado ou não, se tinha algum tipo de problema em outra área ou não, como fica o seu corpo nestas situações (tensões, prender a respiração, aumento da circulação do sangue, tonturas), os efeitos que foram causados e como você reage á estes efeitos.

Perceber “à nós mesmos” é algo muito importante e complexo, aos poucos vamos encaixando peças e mais peças para formar um modelo maior para informar à nós sobre como nos comportamos porém com dados colhidos de maneira mais assertiva, pesquisada de fato. Desta forma é prazeroso pensar que somos assunto para uma vida toda!

Abraço
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Psicossomática
09/09/2013

– Tenho algo muito bacana pra te contar que eu percebi estes dias.
– O que foi?
– Este ano eu não peguei nenhuma gripe!
– Opa, que bom! Era comum você pegar?
– Sim, todo ano eu tinha no mínimo do mínimo umas duas. E ficava de cama uns dois dias sempre.
– Olhe só que evolução!
– Pois é! E sabe, acho que tem tudo a ver com eu estar bem este ano.
– Ah é?
– Sim, porque eu me sinto mais forte sabe? Então, não sei se tem a ver, mas acabou que eu não peguei gripe nenhuma.
– Creio que alguma coisa tem a ver sim, você começou a praticar exercícios também não é?
– Sim!
– E a alimentação?
– Melhorei também, na verdade foi uma das primeiras coisas que eu senti o efeito da terapia: me cuidar, principalmente da comida.
– Perfeito!

A mente pode causar doenças?

Esta pergunta aparentemente simples envolve uma discussão enorme para a qual a ciência – nem a medicina, nem a psicologia – ainda não possui uma resposta definitiva.
Ocorre que o tema vai além da mera resposta: sim ou não. Existe no meio disso um “como” o processo ocorre. Aí o problema torna-se mais complexo ainda porque envolve uma questão filosófica sobre: o que de fato é a mente? (ela existe? ela é o nosso cérebro? ela reside na alma?) Ainda não temos uma resposta para esta pergunta, apenas várias e várias conjecturas sobre a natureza da mente e as possíveis relações dela com o corpo – e aqui até cabe a pergunta: a mente é, de fato, separada do corpo? Existem estas duas “coisas” uma chamada corpo e a outra mente ou tudo é uma coisa só?

Uma das formas de responder – de uma forma rápida para não me delongar num assunto que daria vários livros – a pergunta é afirmar que tanto mente como corpo existem e que o fenômeno que chamamos de “mente” tem uma relação estreita com os processos que ocorrem no cérebro – talvez até o que chamamos de mente seja um “subproduto” desta atividade cerebral. Uma vez que adotamos esta ideia podemos pensar em como a mente influencia a saúde de qualquer pessoa – para o bem ou para o mal.
Tomando esta ideia como base – uma vez que existem outras teorias – podemos pensar da seguinte forma: o sistema imunológico – responsável pela defesa e equilíbrio do organismo em relação à doenças – seria, de alguma forma influenciado pela atividade da mente – nossos pensamentos, emoções, crenças, relacionamentos e comportamento. A relação não é direta, mas sim indireta – a mente não teria uma atividade direta com o sistema imunológico – da seguinte forma: sabe-se que pensamentos e estados emocionais interferem em processos biológicos como batimento cardíaco, sudorese e estresse. Os sistemas envolvidos nestes processos (sistema nervoso autônomo e sistema endócrino) são mais diretamente afetados pelos nossos pensamentos e emoções e estes sistemas estão diretamente envolvidos com o sistema imunológico. Assim: nossas emoções, pensamentos e comportamentos afetariam o sistema nervoso autônomo e o sistema endócrino de maneira direta e esta influência afetaria o sistema imunológico, afetando, assim, a nossa disposição para doenças ou saúde.

Uma metáfora que se emprega para pensar o sistema imunológico é da identidade. Esta metáfora se dá porque a atividade deste sistema embora se pareça com a de um exército – defesa do organismo – se dá espelhando o que é conhecido e o que não é conhecido dentro do organismo. Em outras palavras o sistema de “defesa” só ataca aquilo que ele não reconhece como sendo do organismo, como se as células dissessem: “isso não sou eu”, portanto devo atacar.
Assim sendo a questão do autoconhecimento poderia afetar a forma pela qual o sistema imunológico identifica o que é “eu” e o que não é “eu” através dos mecanismos acima citados. Este processo pode afetar a nossa saúde: resistência à doenças, recuperação de doenças, aumento da saúde, produção de células sanguíneas e outros. Reconhecer os sinais do corpo nos ajuda a aumentar o auto-conhecimento relacionado à nossa biologia, para que você entenda: muitas vezes já tive que mostrar para clientes que o “calorão” que ele sentia era apenas porque a respiração aumentou, que era algo normal e bom, esta pessoa pode incorporar o “calorão” no seu repertório de “eu” e agora, não mais ficaria atenta ou desconfiada do seu calorão. Antes ela via o “calorão” como algo ruim e nocivo, quando, na verdade, era somente uma resposta muito saudável do seu organismo.

Aumentar o auto-conhecimento faria com que a pessoa organizasse melhor a sua auto-imagem com relação à processos naturais do organismo que mantém o seu equilíbrio e a deixaria atenta para o que afeta este equilíbrio para melhor – gerando mais saúde – ou para pior – debilitando o organismo. Desta forma a “mente” poderia interferir tanto biologicamente – afetando produção de células sanguíneas e de defesa, produção de hormônios e outros processos – como comportamentalmente deixando a pessoa mais envolvida com atitudes que melhorem a sua saúde: pratica de exercícios, melhoria na alimentação, relaxamento muscular, melhor escolha de relacionamentos e outros. E este é o viés que emprego na clínica para compreender e orientar as pessoas em relação à como sua saúde emocional influencia sua saúde biológica, como o cliente do exemplo acima demonstrou a relação que desenvolvemos com nós mesmos pode afetar a nossa saúde física e creio que a forma acima citada é um bom começo de conversa para sabermos “como” isto ocorre.
Por fim gostaria de dizer aqui que todo o exposto é apenas mais uma ideia e não se trata de uma comprovação científica, afinal de contas não temos ainda um completo conhecimento do sistema imunológico e nem mesmo do que entendemos por “mente” e suas relações com o “corpo”. No entanto, é uma hipótese muito comentada no meio científico e tem feito sentido para muitos pesquisadores. Também quero deixar claro que o aspecto mental não é o único, existem aspectos genéticos e puramente biológicos nesta questão: um vírus continuará sendo um vírus. A psicossomática como o próprio nome diz envolve aspectos biológicos, emocionais, psíquicos, comportamentais e ambientais o que não nos permite cair em reducionismos. Portanto, alerto ao leitor: trate de sua saúde emocional, mas não a tenha como o único meio de obter saúde física, consulte sempre um médico quando tiver um problema de saúde, a mente pode afetar a nossa saúde, porém o biológico também tem o mesmo efeito e precisamos tratar com sabedoria os dois lados da equação.

Abraço
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