Causa e efeito

– Tá bem Akim, chega!

– Ok, por hoje chega mesmo, não vamos mais aprofundar.

– Ótimo.

– Me permite, ao invés de aprofundarmos, fazermos outra coisa?

– Permito…

– Você percebeu que está um tanto arredio neste momento certo?

– Sim. Minha vontade é de sair correndo.

– Ótimo, agora perceba ao que você está reagindo.

– Como assim?

– O que está motivando esta vontade de fugir e sair correndo?

– Ah, sei lá essas coisas que a gente está falando…

– Pense, foi agora pouco que essa vontade de fugir veio… pense…

– Eu acho que quando você me disse que era o momento de eu tomar uma decisão eu comecei  a ficar assim…

– Perfeito…

– E, depois, quando eu falei sobre as decisões eu fiquei mais ansioso e agora estou assim…

– Ótimo, muito bom, mas vamos lá: o que motivou o desejo da fuga?

– Não foi isso?

– Isso te colocou em contato com a decisão, mas o que te fez desejar resolver isso fugindo?

– Hum… entendi… (pensativo) eu acho que quando eu pensei no que eu quero fazer eu vi que não é o que todos esperam de mim. E daí resolvi fugir ao invés de frustrar os …  eu resolvi fugir porque não consigo frustrar as pessoas, quero manter o meu papel de bom moço.

– Perfeito! Como se sente agora?

– Um pouco mais calmo na verdade…

Tristeza é depressão? Ansiedade é pânico? Medo é fobia?

Ao estudar o comportamento humano um dos temas mais instigantes é: o que é sintoma o que é causa de um comportamento?

Independente de entendermos “causa” de uma forma linear (a causa b) ou de uma forma circular (a relaciona-se com b) o tema é importantíssimo dentro de uma psicoterapia que vai ajudar a pessoa a compreender melhor o seu comportamento, suas emoções e reações.

A pergunta: “O que motiva o seu comportamento?” É diferente da pergunta “porque você fez isso”. Esta última faz alusão à uma explicação na qual uma resposta como “porque eu quis” satisfaz a pergunta – e várias vezes ouvi isso em consultório, ou o famoso “porque sim”. Já a primeira pergunta tem a ver com um dado mais sensorial, ela busca pelo fenômeno que motivou a reação, ela é mais útil porque deseja uma resposta mais concreta. “Porque sim” não responde “o que motivou”.

Assim sendo é importante diferenciarmos um sintoma de um motivo. O sintoma é o que aparece aos olhos, é aquilo com que nos relacionamos de forma mais direta. A motivação pode advir de vários fatores, daí o motivo que torna esta investigação tão instigante. É como a febre, ela nunca é uma causa, um motivador de algo, é sempre um sintoma. Este sintoma pode advir de uma bactéria, de uma inflamação, de uma virose, enfim, de várias causas motivadoras daquele sintoma. Se o médico dá apenas um remédio contra a febre ele não estará tratando a causa, o mesmo vale para a porção psicológica.

Uma pessoa, por exemplo, tem baixa auto-estima. Isto não é uma causa de nada, mas sim um sintoma. Quando investigamos percebemos que ela, por exemplo, não dá limites à ninguém. Vive sentindo-se passada para trás ou mal tratada por pessoas próximas à ela. O que motiva este comportamento é uma crença de que dar limites é algo nocivo, que as pessoas brigam quando recebem limites. Assim, quando ela se vê em uma situação na qual precisa dar um belo limite ela pensa que se fizer isso vai arranjar mais confusão e, com isso, acaba aceitando a mal criação e termina sentindo-se mal consigo própria. O que temos que trabalhar neste caso? A crença e novos comportamentos sociais que vão ajudá-la a perceber a situação de uma forma diferente.

Em um post anterior eu escrevi sobre os cinco níveis lógicos de Gregory Bateson: identidade, crenças, recursos, comportamento e ambiente. Muitas vezes os motivadores estão nestes níveis ou em vários deles. Investigar isto à fundo assim como as repercussões do que vai acontecer com a pessoa e com as relações que ela tem vai nos ajudar a determinar melhor o que fazer e como fazer.

Quanto à você deixo a dica: não procure pelos “porques”, busque investigar a sua vida seguindo a dica do motivador, ou seja, quando tenho este comportamento que não gosto ou que quero mudar, o que acontece? O que teria que não ter ocorrido para este comportamento não ocorrer? Esta é a primeira fase, depois dela pergunte-se: como explico para mim o que aconteceu de forma que eu tenho o comportamento que não quero ou que quero mudar? Isto vai ajudar você à perceber melhor o seu comportamento, suas intenções e motivações pessoais!

Abraço

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