Infelicidade: um crime?

– Eu me sinto muito mal sabe?

– Porque?

– Porque eu tenho tudo o que uma pessoa poderia querer, mas não me sinto feliz!

– Hum… você sente-se mal por não ser feliz e supostamente ter que ser assim?

– É… e não é supostamente… eu tenho tudo sabe?

– Sei… mas me parece que esse “tudo” para você não é o que realmente te traz felicidade.

– (silencio)

– Você realmente crê que você deveria ser feliz por causa de tudo isso que você tem?

– Eu não sei… é confuso… eu gosto de todas as coisas que eu tenho e da grana que eu posso usar, mas sei lá… às vezes parece que falta alguma coisa… não é que eu seja mal-agradecido… mas é que tem algo além disso tudo que é o que eu quero, você me entende?

– Eu entendo, mas e você: se permite viver esta percepção que você tem da sua vida?

– Eu não sei… acho que não. Ninguém entende quando eu digo isso, na verdade até tiram sarro: “ah cara, você tem de tudo, não pode ser infeliz!”

– Pois é… que tal se permitir o direito de ser infeliz apesar do que você tem?

– Ai… seria difícil assumir isso…

– Para quem? Para você ou para os outros?

– Para os outros eu acho… Para mim é um pouco, porque daí eu vou ter que bater mais de frente ainda: uma de falar que eu estou infeliz e outra de buscar a minha felicidade com outras coisas.

– Pois é… mas e a “recompensa” de viver de forma autêntica, será que não conta?

– É…

Nossa sociedade de consumidores possui uma exigência: seja feliz. E se você não for?

A infelicidade possui hoje uma sentença criminal, ou seja, o infeliz na nossa sociedade é um pária, alguém que “deu errado” e que, por esta razão, está cometendo um certo tipo de “crime” contra a sociedade na qual vive. A situação se torna ainda mais dramática quando “o infeliz” possui recursos e bens, este não pode “mesmo” ser infeliz ou sentir esta emoção – como se dinheiro e posses fossem vacinas contra a infelicidade.

Existe dois temas importantes, à meu ver, um deles é uma questão pessoal: da pessoa assumir a vida que deseja buscar, verificar a possibilidade de sua realização e então buscar os recursos necessários para criá-la. A outra, um pouco mais profunda e difícil de perceber é a questão social.

Sobre a questão social: o consumo é a marca registrada de nossa sociedade, mas dizer isso apenas é muito superficial, pois existe todo uma cultura por detrás disto que embasa esta sociedade. A cultura consumista está baseada na livre escolha, ou seja, na crença de que todas as pessoas são livres para escolherem e criarem os seus caminhos tal como desejam. Esta crença não encontra um respaldo direto e concreto no mundo real, no entanto é tido como se fosse possível. Para alcançar estas metas o que a pessoa deve fazer? Buscar as ferramentas: as coisas que ela vai comprar para realizar o seu “sonho” de “ser quem é”, de construir um “eu”. Daí que, segundo a cultura consumista, se “querer é poder” e o “poder” é vendido em lojas e por experts, porque não ser feliz? O infeliz é um criminoso duplo: ele vai contra as normas sociais e não cria para si o que deveria estar criando, ou seja, é infeliz e incapaz. Esta incapacidade é que é o seu crime, pois, nos moldes da cultura consumista só é incapaz “quem quer”. Ao refletirmos desta forma nos tornamos cegos aos inúmeros desafios que todos passamos na busca pela felicidade: defini-la (o que é felicidade para mim?), saber como desfrutá-la, conseguir manter o seu posicionamento perante aos outros e ainda lidar com a sua evolução, pois a felicidade hoje pode ser acionada por algo diferente do que será amanhã, a felicidade não é fixa e permanente, exige trabalho e dedicação. Desta forma, quando criminalização uma pessoa por um sentimento socialmente não aceito, tratando-o (a pessoa e o sentimento) como algo “nocivo” ou “errado” (você tem que ser feliz!) estamos, na verdade, empurrando para mais longe a possibilidade desta pessoa realmente encontrar a sua felicidade.

Sobre a questão pessoal: é importante que a pessoa possa sentir-se livre para sentir o que está sentindo. Aceitar um sentimento é o primeiro passo para lidar com ele. Enquanto você não pode aceitar uma emoção, ela não pode existir e se não pode existir como é que vou pensar sobre ela e buscar alternativas? Após aceitar é importante enfrentar o que se está sentido de forma adequada. No caso acima, por exemplo, a pessoa “tinha tudo”, porém desde quando que “ter tudo” = felicidade? Quem disse isso? As pesquisas mostram que a relação entre dinheiro e felicidade é muito frágil: ele ajuda até um certo ponto (o ponto da saciação das necessidades básicas e daí em diante ele tem pouca influência sobre a felicidade). Quando ele conseguiu enfrentar a sua emoção e dizer que não estava feliz conseguiu começar a pensar no que lhe traria felicidade, este rapaz tinha uma mentalidade mais criativa e empreendedora: era um fazedor, um produtor e, portanto, passar tardes ocioso, sem fazer nada, apenas seguindo o papel de “filho de pai rico” gastando grana com baladas e amigos não lhe era suficiente. Quando percebeu isso, interessou-se por um curso de fotografia e começou a fazer algumas fotos, logo estava com um trabalho nesta área o qual a família era contra porque “era muito pouco” para ele, mais adiante o negócio expandiu e ele conseguiu sentir-se muito feliz com o que estava fazendo e com o rumo que estava dando à sua vida.

Gostaria de deixar claro que eu não faço odes à infelicidade, no entanto, também não acho que ela é um crime ou algo que deva ser “combatido”, pelo contrário: é uma emoção humana e como tal mereço o seu lugar e direito à existir. Todas as emoções são “alarmes” que nos dizem de nós mesmos, são a forma mais rápida e poderosa de percebemos algo que está acontecendo com a gente e reagir, rapidamente à isso.

Abraço

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2 Respostas

  1. Infelicidade faz parte da nossa evolução dar continuidade a infelicidade e a que torna grande demais.

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    • Olá Maria!

      Que ótimo comentário, obrigado!
      Com certeza é quando ficamos mantendo ela que ela se torna grande demais, aprender com ela e evoluir é o grande “x” da questão!
      Abraço

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