Mudanças

– Pois é eu estou percebendo que estou diferente

– Como você percebe isso?

– Por exemplo, eu consigo expressar a minha opinião agora, mesmo frente à opiniões que eu discordo sabe?

– Sei.

– E eu não me sinto mal e nem envergonhado, simplesmente eu discordo e expresso a minha opinião.

– Perfeito!

– É. Eu não fico o tempo todo falando tudo para todo mundo entende? Mas quando eu acho que devo eu falo o que penso e me sinto bem fazendo isso.

– Muito bom, parabéns pelo seu progresso!

– Obrigado. Eu também senti que desde que trabalhamos o tema do afeto eu consegui fazer mais mudanças, os temas que eu tenho trazido para sessão são diferentes agora.

– Com certeza. Bem observado.

– Quando a gente consegue se amar tudo fica diferente né?

– Fica. Bem mais fácil e sem culpas não é?

– Fica sim.

 

Trouxe este relato para ilustrar um ponto muito importante em terapia. Falamos, de uma forma geral, que existem dois caminhos para a evolução: pelo amor e pela dor.

Este cliente nos traz um exemplo muito bacana sobre aprender com o amor. Após conseguir amar-se ele começou a desenvolver novos comportamentos que apenas aumentam ainda mais o amor dele por ele próprio. Agora, a grande pergunta é: como aprender pelo amor?

É algo interessante pois é mais simples e menos dolorido. A questão é que aprender pelo amor dá um trabalho muito maior pois envolve a pessoa olhar para ela própria e firmar um compromisso: “apenas farei aquilo que for bom para mim, que me ajudar na minha evolução”. Ao firmar este compromisso ela terá um trabalho homérico para desenvolver as competências necessárias para manter este acordo com ela, terá que ter coragem para enfrentar as situações que ela teme, auto-crítica para saber se está indo no caminho certo e reconhecer erros e acertos, humildade para aceitar os erros e acertos, comemorando as “vitórias” e mudando o comportamento nas “derrotas”.

É importante deixar muito claro que “o que é bom para mim” não é sinônimo apenas de atividades prazerosas e que não me causam esforço, pelo contrário. Significa comprometer-se com o que vai me fazer melhor para eu mesmo, portanto, vai me colocar em situações que são desagradáveis, vou lidar com a frustração de não ter conseguido – vez ou outra – o que eu quis, terei que me incomodar para aprender novas reações, novos comportamentos forçando os meus hábitos antigos, terei que me sacrificar – de uma certa forma – pelo que eu desejo, pelo que me faz melhor e isso nem sempre é fácil ou agradável; por exemplo: passar o feriado estudando ao invés de ir para a praia se divertir não é prazeroso, porém se eu quero passar no vestibular ou em um concurso ou fechar o meu mestrado é algo que terei que fazer.

Obviamente, também envolve atividades prazerosas. A grande diferença é que elas são aceitas de uma forma muito diferente: não há vergonha ou culpa em dizer para si e para os outros que estou fazendo algo agradável para mim apenas porque quero, posso e me faz bem. Não vou precisar dizer à um cliente: não posso “porque tenho um compromisso”; posso dizer: “nesta semana estou saindo de férias, vou aproveitar para descansar um pouco, mas assim que voltar posso lhe atender.” Qual a vergonha em dizermos isso? Apenas quando o ato do amor pessoal ainda não está bem sólido.

O aprendizado pela dor – apenas para comparação – é o famoso “fiz caca, agora preciso limpar”. Não existe vergonha nenhuma em aprender desta forma pois não conseguimos antever tudo na vida da gente, é um tipo de aprendizado que faz parte e deve ser tratado com tanta importância quanto o outro. A diferença é que, em alguns quesitos, as pessoas já entenderam o que precisam para fazer a mudança e continuam “deixando a vida levar” – sempre para o mesmo lugar. Aprender pela dor é isso: saber o que tem que fazer e não fazer. Saber o que tem de errado e não mudar, não corrigir. Porque pela dor? Porque geralmente essas pessoas mudam apenas depois que acontece algum desastre ou que algum problema fica tão crítico que ou resolve ou resolve, não há a escolha de criar uma nova relação um novo comportamento, ele vem “na marra” e é só aí que a pessoa muda. Como eu disse: muitas vezes é assim, mas outras – várias outras – não é necessário ou até mesmo saudável.

E então, o que você quer: aprender pelo amor ou pela dor?

Abraço

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